Depois da meia-noite

Toda noite, um velho condutor entrava no pátio dos antigos trens, sem que os seguranças notassem. Os três vigias ficavam cada um em uma cabine ao longo do muro que cercava o pátio.  Montavam sentinela às onze da noite, assistiam ao Corujão na tv, esticavam as pernas e dormiam, não necessariamente nessa ordem. Raramente, se concentravam nos monitores que exibiam o que acontecia no entorno devido ao excelente alcance visual permitido pelas torres. Ainda que se dedicassem, que se concentrassem exclusivamente no trabalho, não acredito que teriam visto o velho condutor se aproximar. Isso porque ele era um tipo mirrado e quase insubstancial de gente. Talvez, se o avistassem, julgassem se tratar de uma sombra, uma ilusão de ótica provocada pela névoa da madrugada. O fato é que nenhum deles deu pela presença do idoso, que durante quase dois meses, entrou e levou embora os primeiros trens da companhia. Muitos datavam da infância do ancião, outros ele conhecia apenas de já ver abandonado naquele mesmo pátio no centro do Rio. Mas trem era como bicicleta, quem manobrou um, manobrava todos. Silenciosamente, os trens partiam. Não digo que ninguém viu, pois tinha uma coruja lá, um animal dos mais discretos e que fazia questão de honrar a tradição de sua espécie. Após levar a 54ª locomotiva, o homem não mais voltou. Os trabalhadores noturnos não se incomodaram com isso mais do que com sua a presença. Até que um dia, muito tempo depois, um auditor municipal precisou fazer um balanço e foi ao pátio vistoriar os antigos trens. Precisava decidir se os levaria a leilão, se doaria a algum museu, ou se os trituraria no ferro velho e para isso botar os olhos no comboio era importante. Não os achou de primeira e pôs o pátio de 50 mil m² de ponta cabeça com o mesmo resultado. Pediu os vídeos de segurança desde o início do ano e assistiu, atônito, os trens rumarem para o sul da cidade e desaparecerem nas brumas do alvorecer. As câmeras, porém, não captaram em nenhum momento o velho condutor. Não havia outras pistas. Os seguranças deviam estar envolvidos, calculou o auditor. As providências seriam tomadas, garantiu ele aos brados ao diretor do pátio de trens. Os jornais, ele iria aos jornais, podiam estar certos, gritou já no portão. Porém, os trens se foram e isso era tudo.

 

Texto inspirado em um caso real.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

6 respostas para “Depois da meia-noite

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