Liberdade de expressão ao gosto do freguês

Foto: reprodução/Twitter

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“A prova de que a Europa é cristã. Os cristãos andam sobre a água. As crianças muçulmanas afundam”, diz um homem com a aparência de Cristo em uma das charges sobre a morte do menino sírio Aylan na capa da revista Charlie Hedbo que ganhou o mundo na terça-feira (15) detonando toda sorte de manifestação – a grande maioria reprovando a postura da revista.

Para quem não lembra, Charlie Hedbo ganhou os holofotes internacionais após a sede da redação ser alvo de um atentado terrorista perpetrado por fundamentalistas islâmicos com espírito revanchista das provocações da publicação à religião. À época, o mundo (e as redes sociais) entregaram-se a uma defesa irrestrita e apaixonada da liberdade de expressão e da redação do veículo francês. Esse espírito foi adornado pela hashtag #JesuisCharlie (Eu sou Charlie).  Ontem uma das principais hashtags do dia foi #JenesuispasCharlie (Eu não sou Charlie). Discordar e reprovar a charge do Charlie Hedbo é uma coisa, mas dizer que a revista cruzou a linha entre sátira e zombaria é outra. Rotular a charge como “ofensiva” é ser profundamente leviano na análise, já que o humor da publicação se notabiliza, sui generis, justamente por sua agressividade.

Vozes que em janeiro diziam que a liberdade de expressão precisava ser cultivada e tolerada, ontem diziam que limites precisariam ser respeitados e que a Charlie Hedbo se excedeu. Mesmo? A contradição é flagrante não só no enviesamento deste raciocínio, mas na desproporção qualitativa que ele resulta. Sim, o que aconteceu com o menino Aylan foi uma tragédia. Mas o humor do Charlie Hedbo usa esta tragédia para criticar o establishment sociocultural vigente. É incômodo e justamente por isso eficiente. O humor parece doentio, mas é apenas bem azeitado na análise estrutural de um problema que engloba beligerância religiosa, fluxo imigrante, xenofobia e outras mazelas sociológicas que nossa sociedade resiste a encarar seriamente. O problema, portanto, não está na acidez do humor do Charlie Hedbo, mas nos problemas que a publicação retrata.

Pode-se contestar a fórmula do Charlie Hedbo de aferrar-se à liberdade de expressão para rir nervosamente de um mundo cheio de causas, pessoas e circunstâncias risíveis, mas jamais seu mérito. A liberdade de expressão não pode ser algo sustável ao gosto do freguês. Mesmo quando passa do ponto, a publicação francesa acerta o ponto. O inferno, já dizia Sartre, são os outros. E Charlie Hedbo adota essa linha filosófica com presteza e assiduidade ímpares.

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Sobre Reinaldo Glioche


Uma resposta para “Liberdade de expressão ao gosto do freguês

  • Aline Viana

    Só agora vi a sua crônica e realmente ela traz pro Brasil uma charge que passou meio batida por aqui. Agora que vi, achei menos ofensivo do que imaginei ao ouvir a discussão em um podcast que costumo acompanhar (http://www.b9.com.br/60832/podcasts/mamilos/mamilos-39-legalize-charlie-e-pacotao/) – o ponto que eles abordaram era o fato de usar a imagem da criança na charge, o caracterizaria abuso por parte da publicação. Eu, acho que a charge apenas escancara como a Europa vinha sendo hipócrita com a questão da imigração até que clique, antes eles eram incapazes de se colocar no lugar de quem fugia do massacre em seus países de origem. Achei pesado, mas super efetivo. Liberdade de imprensa só quando não dói no nosso calo, não dá.

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