Minha mãe, Kurt Cobain e a Terceira Guerra Mundial

Foi um dia terrível, aquele 11 de setembro. Afinal, eu havia brigado com a minha mãe. E foi uma briga tão feia que eu saí de casa sem me despedir dela. Era terça-feira e eu tinha aula de música. Há mais de meio ano eu tentava aprender a tocar violão. Naquela época, eu já havia formado a minha primeira banda imaginária. Tocávamos alguma coisa parecida com o grunge, pelo menos o grunge que se pode fazer quando não se mora em Seattle. Eu estava bem longe de ser um adolescente rebelde. Não obstante, acalentava o desejo secreto de ser Kurt Cobain.

O que eu gostava no Kurt Cobain é que ele sofria, como eu também sofria, no alto dos meus 14 anos. Ouvir as suas músicas, comprar as suas revistas, vestir as suas camisetas era uma forma de chamar a atenção do mundo para o meu próprio sofrimento. Era cometer suicídio com ele, entupir as veias de heroína, e ainda ficar vivo e limpo para ver como o mundo reagiria. Só que o mundo não estava interessado, pelo menos o meu professor de música não estava. Naquele fatídico 11 de setembro, eu não sabia tocar mais que o manjado solinho de “Come as you are”.

Minha aula começava às 10h e eu saí de casa meia hora antes. Mas primeiro dei uma passada na escala da semana. Não liguei a televisão porque ainda estava irritado com a discussão que tive com a minha mãe. Àquela altura, não podia haver nada de mais importante acontecendo no mundo. Cheguei à escola e naquele dia o professor me passou não apenas outra aborrecida escala, mas também uma música para que eu treinasse. Talvez não uma grande música, talvez apenas uma do Zezé di Camargo e Luciano, mas o essencial é que, daquela vez, não era KLB.

Na hora do almoço, eu estava de volta à minha casa, mas ainda não conversava com a minha mãe. Meu pai também não puxou muito assunto e a gente almoçou ao som do rádio. Lembro de ter ouvido alguma coisa sobre um avião ter caído ou batido em não sei o quê por aí, mas eu não prestei muita atenção. Até porque, eu precisava me arrumar para ir à escola. Lá eu veria colegas da oitava série que também tinham bandas imaginárias. Mas naquele dia não falamos muito sobre elas – parece que mais gente tinha ouvido algo a respeito da queda de uns aviões.

Aos poucos as informações foram se somando e em pouco tempo eu já tinha a forte suspeita de que havia acontecido alguma coisa extraordinária enquanto eu me preparava para sair de casa pela manhã – e não foi a discussão com a minha mãe. As imagens mesmo, essas eu só fui ver quando voltei para casa no fim do dia. Excitado com tudo aquilo, queria conversar com a minha mãe a respeito, mas a gente ainda não estava se falando direito. Esperei meu pai chegar e perguntei: “E aí, viu o começo da Terceira Guerra Mundial?”. Era impossível não ter visto.

Naquela noite, enquanto eu tomava banho, acabou a luz no condomínio. Ainda estávamos impressionados com os acontecimentos do dia e por um momento acreditamos que a queda de energia estivesse relacionada aos atentados. Com essa agitação, eu e minha mãe acabamos fazendo as pazes, pondo um fim no período de terror lá em casa. Mas não nas aulas de música: eu ainda aterrorizei muita gente até o final daquele ano, quando, enfim, pendurei o violão.

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