Arquivo do mês: setembro 2015

O elogio do amor

Um ataque cardíaco recepcionou Elza em casa. Era seu cãozinho Tite que desfaleceu de felicidade. Muitos cães são ansiosos e reagem muito forte emocionalmente à chegada de seus donos. Tite sentia falta de Elza. Elza não ia para casa há muito tempo. Estava enamorada de Joaquim. Tite estava meio que sob os cuidados da dona Joana, que passava no apartamento todas as manhãs e todas as noites.

Sem Joaquim, Elza retornou ao apartamento. Em lágrimas, de ressaca e sentindo-se miserável. Infeliz que era, matou o único ser vivo que lhe amava incondicionalmente.

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Conveniências

The leftovers of a wedding decoration lies on a bridge across the River Rhine in Duesseldrof, Germany, 21 February 2013. Photo: Martin Gerten

Photo: Martin Gerten

“Pela lei, os declaro marido e mulher.”
Nem mesmo se entreolharam. Engoliram em seco. Ele fingiu ocupar-se da caneta. Ela levou a mão à fronte numa alusão febril. Do modo que entraram, saíram e ainda que o peso do estado civil tivesse mudado, lá fora a vida parecia continuar clara e comum como antes. Apertaram-se as mãos e sorriram aliviados. Afinal então a obrigação com um mundo que não era deles, não causaria tanto estrago assim.

Limite

Mariane queria ele fosse feliz depois que eles terminaram o namoro.  Feliz mesmo, de verdade. Só que felicidade de ex precisa ter limites, né? Quem quer ver o sujeito dando pulinhos de alegria logo depois de a relação ter terminado?

Era o que ela pensava.  Não era justo e sequer era saudável ver o outro publicar fotinhos com a nova companhia na Disney, cozinhando juntinhos, correndo no Ibirapuera. E mesmo que as fotos fossem só dele malhando sorridente, ou caindo na balada com a turma, também não era legal. Tinha que haver um período de luto, até uma psicóloga dizia isso num site.

Ela sim, ainda estava assimilando a nova fase de vida, revendo quais amigos ainda iriam falar com ela depois de três anos de namoro perdidos com aquele infeliz, em qual curso ela iria se matricular pra manter a mente ocupada e, principalmente, para onde iria viajar pra não ouvir a mãe a acusando mais uma vez pela escolha errada, que a enterrou ainda mais baixo no buraco das encalhadas.

E o sujeito estava lá, com o sorriso Colgate. Felizão. Nem parecia que tinha sofrido uma perda tão grande. Afinal, deixar de namorar com ela, uma moça bonita, trabalhadora, boa cozinheira e disposta a tentar manobras da revista Nova (e até da Vip) na cama, era sem dúvida, uma baita perda, né?

Olha, feliz, tudo bem, mas daquele jeito já era afronta, disse Mariane à única amiga que a visitou na clínica. Sim, agora ela estava numa clínica para pessoas que amam demais. Tudo porque ela havia ameaçado Gus, o ex. “Só ameacei, minha gente, não significa que eu fosse fazer nada, né?”, disse ela ao diretor do manicômio, perdão, da clínica.

Ameaçou mesmo. De mutilação física. Mais especificamente, da ferramenta que mais proporcionava alegria ao cidadão que ela mesma havia dispensado.  Tudo flagrado pelas câmeras do prédio deles, aliás, dele, agora que ela havia saído de casa.

Dispensou porque ele a traiu com a recepcionista do escritório, aquela peituda nojenta com as pernas coalhadas de celulite. Ela pegou os dois em flagrante. Ela era a vítima! Era ela quem estava traumatizada. E agora ela estava enquadrada na Lei Maria da Penha. Tinha que fazer tratamento e tal. Só que Mariane nunca o amou demais. “Nunca amei demais aquele desgraçado, que fique bem claro! Eu gostava dele e só. O que ele fez depois foi uma puta falta de respeito. Falta de respeito, viu?!”, disse à amiga. Lidiane não contou nada às outras sobre a visita. Porque, no fundo, ela apoiava a atitude da amiga. Era melhor não dar na vista.


Ler na própria livraria

Ultimamente dei para ler na própria livraria. Isto é: ler o livro todo, sem comprar nem nada. Já fazia isso há alguns anos, quando não tinha mesmo dinheiro suficiente para comprá-los. Agora a coisa já melhorou um pouco e, vez ou outra, eu até consigo pagar por um livro. Acontece que a vontade de ler continua muito maior do que o dinheiro que eu posso gastar, então sempre há aqueles livros que eu gostaria muito de ler, mas que não posso comprá-los, sob pena de provocar um rombo no meu orçamento. Mas como eu tenho um tempinho livre na hora do almoço, e como há uma livraria perto do meu trabalho, e como há algumas mesas que estão lá justamente para que eu faça isso, eu aproveito para ler alguns livros na própria livraria.

Não qualquer livro, evidentemente. É melhor que sejam livros um pouco mais finos (e por livro fino entendam alguma coisa ali entre o nanoconto e Guerra e Paz). De preferência, gêneros breves, como o conto ou a crônica, textos que seja possível ler do começo ao fim ali mesmo, em uma única sentada, sem precisar voltar páginas para retomar o fio da meada. Até porque, em geral eu não passo mais que 15 ou 20 minutos por dia nessa leitura. Chego, pego o livro, que eu tive a cara de pau de deixar marcado na página que estava lendo, e vou me sentar.

Aí tem um problema, porque boa parte das livrarias não tem muito lugar para você se sentar, e por vezes acontece de estarem todos ocupados, inclusive por pessoas que não estão lendo coisa alguma, mas apenas tirando um cochilo, e às vezes até roncando. Mas com sorte você arruma um espaço e pode ler à vontade,  sem que ninguém venha tirar satisfação, pelo menos era assim comigo antes de escrever esse texto, vamos ver agora. Claro, isso não me exime do sentimento de culpa, eu me sinto dando um calote na editora e, pior ainda, no escritor, que ganha 10% por livro vendido, e ainda por cima vem um sujeito que lê o livro sem comprar. Mas puxa, eu faço propaganda do que leio, converso com meus amigos e tudo. Se eles vão comprar o livro… bão, aí já é outra história.


Curtinhas II

Aviso Um poeta que explica os seus poemas é um mágico que revela os seus truques.

Excesso de assunto A infinitude do universo e o mistério da vida são a matéria-prima de todos os poemas cantados pela humanidade; e por isso inesgotáveis.

Terceiro legatário Copio e assino a frase encontrada no velho Quintana, que a encontrou no velho Schopenhauer e a copiou: “A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa da sua capacidade mental”.

Não autorizada O maior insulto post-mortem que um poeta pode sofrer é a publicação da sua biografia.

De grão em grão O mundo deve mesmo estar dentro de uma ampulheta, posto que, de geração em geração, as pessoas dizem ter cada vez menos tempo.

Segundos de reflexão Evitar uma fina e transparente garoa é um capricho. Insultá-la, uma covardia.

Extemporâneo Hipócrates seria visto hoje, andando apressado pelas vielas da ilha de Cós, com um tablet debaixo do braço e, do outro lado, um talão de notas fiscais: “Humores Serviços Prestados à Humanidade LTDA.”

O poema fala Em minhas leituras, nunca houve um poema que não me deixasse uma sensação, seja qual fosse. Minha compreensão poética é como ouvir alguém falar… vai da lucidez à loucura.

Reflexão poética Jamais a humanidade morrerá asfixiada se parar mais vezes para suspirar.

Passando o bastão Grato ao Henrique Fendrich, pela concessão do espaço que, durante um ano, serviu para me disciplinar a escrever crônicas semanais, uma inédita e edificante aventura literária. Grato aos colegas de blog, pelo apoio e pelo rico intercâmbio diário. Grato aos meus leitores, sem os quais não faria o menor sentido tornar público meus textos. O motivo pelo qual estou passando o bastão? O mundo deve estar mesmo dentro de uma ampulheta.


Ela não falava meu nome

A ideia de tê-la afugentava a razão. Eu fingi a noite toda que não me importava com o fato dela estar me usando para mexer com o Beto. Eu já fizera isso antes. O Beto já fizera isso antes. Mas ali, já na cama, quando eu deveria estar comemorando, me peguei ensimesmado com o fato de que ela não pronunciava o meu nome. Aliás, não o pronunciara um momento sequer durante toda a noite.

Senti-me alijado de minha identidade.  Minha intimidade, usurpada por um desejo que não era meu. Performei surpreendentemente bem e pensei se ela ainda buscava o Beto em mim. Ao evitar meus olhos após a comunhão carnal, intui minha resposta. A desorientação era tanto minha como dela. Era nossa!


…por que metade de mim é o que eu penso…

O que você pensa sobre…?

O que você acha…?

Estou farta de perguntas assim, que me obrigam a rotular pessoas, situações, condições, futuros e passados. Tenho procurado não dar sequer nenhuma resposta que não seja uma retrucada com outra pergunta: e eu tenho que achar algo?

Não cabe a mim servir de guia ou de ponto de comparação para dizer se o outro está certo ou errado, menos ainda de efetuar qualquer julgamento crítico que induza outros pensamentos, que induzirão outras ações.

Prefiro calar, dizer que não acho nada, parafrasear Raulzito e sair tranquila.

Por que se metade de mim pensa, a outra metade obedece e se cala.