Na loja de toalhas feitas à mão

De costa ela parecia mais jovem, talvez a roupa a deixasse assim, ou os trejeitos, ou a voz limpa. De perfil, a outra, mais próxima de mim, parecia mais velha, talvez uns pés de galinha a deixasse assim, ou o nariz adunco, ou a voz áspera. Pensei: deve ser mãe aqui e filha lá, ou o contrário. “Filha, já estamos escolhendo a um tempão, já decidiu?”, perguntou a que parecia mais jovem, esclarecendo o pequeno mistério do meu silencioso joguinho de quem é quem que ali me distraía. “Ai, mãe, é um saco ter que escolher!” A jovial, ou seja, a velha, virou-se e exibiu a face vincada pelo tempo. Pensei: putz!, esta outra aqui perto realmente é a filha. “Pronto, mãe, resolvido: vou levar as duas toalhas!”, e encaminhou-se ao balcão estendendo o braço: “No cartão.” Pensei: em casos de indecisão e folga no orçamento, comprar as duas peças acaba sendo uma boa solução. “Infelizmente não trabalhamos com cartão”, lamentou a vendedora. “Nem débito?” Outra negativa. “Céus! Onde estou?” A velha que trajava roupas descoladas cogitou sair à rua e sacar o dinheiro em um dos inúmeros caixas eletrônicos da movimentada avenida. Pensei: o saque é a única solução. “Não quero mais. Não vou levar nenhuma”, decidiu a jovem dos pés de galinha. “Leve ao menos uma, minha filha.” Pensei: nem além e nem aquém é uma boa solução. “Já disse: nenhuma!”, e deu as costas a todos. Pude reparar sua cifose e escoliose ao deambular. Apesar de velha, a mãe lepidamente consegui alcança-la na saída da loja em tempo de ouvi-la esbravejar: “Um absurdo! Em pleno século XXI!” Abri a carteira e paguei minha toalha. Pensei no troco. Eu penso demais. E a vendedora, enquanto contava as notas, disse constrangida, como se me devesse alguma explicação: “Aqui não temos maquininha, sabe?” “Sei, sim”, respondi, embora ela não desejasse necessariamente uma resposta. Isso tudo é um absurdo, pensei.

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4 respostas para “Na loja de toalhas feitas à mão

  • José Borges

    Também tenho a sensação de que tem ficado mais difícil reconhecer mães e filhas ultimamente, rs. Acerto quando concluo que a dúvida é o assunto principal da crônica, e que percebeste que o acontecimento na loja é potencialmenre um dos episódios do estilo de vida de cada uma que levou ao desenvolvimento da dúvida?

  • Elder

    Vemos hoje em dia que os jovens estão cada vez mais velhos e os velhos mais jovens, reflexo da vida ativa na juventude e do sedentarismo atual.
    Já em relação ‘a maquininha, até o pipoqueiro tem hoje a modernidade.

  • Reinaldo Glioche

    Muito bom! É um tudo um absurdo mesmo! hehe
    grande abraço!

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