Esquizofrenia política

Foto: Agência Brasil

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Morria alguém e as redes sociais convulsionavam com o meme “Enquanto isso o Sarney…”. No último domingo, em mais uma manifestação aparentemente coordenada sob uma mesma pauta, era possível ver faixas com os dizeres “Volta Sarney!”. A minoria que pede intervenção militar, dessa vez, viu um grupo dissidente pedir “intervenção militar temporária”, para o caso de qualquer mal entendido na pauta em questão.

Uma das belezas da democracia é permitir a efervescência de opiniões e visões conflituosas e dar ao tempo e aos players consolidados (governo, oposição, sociedade civil, mídia, etc) as condições de maturá-las e confrontá-las.

O que se vê no Brasil, no entanto, escapa ao formalismo das convicções políticas, ainda que seja passível de compreensão em uma esfera sociológica. Há, e ela é maior do que partidários do governo estão dispostos a reconhecer, uma insatisfação muito grande com a gestão de Dilma Rousseff. O desgaste do PT, há 12 anos no poder, é notável e compulsório. Há, também, um repúdio cada vez mais incendiário com os desgovernos da corrupção no Brasil, enfileirados em manchetes desavergonhadas em capitalizar na vergonha do país. O sentimento de estafa é maior, indubitavelmente, na classe média. Mas é uma classe média muito mais diversa e ramificada do que aquela que, para propósitos meramente ilustrativos, foi às ruas pedir a saída de Collor.

Peço a atenção para algo que talvez tenha escapado ao olhar do leitor. Alguns cidadãos de municípios no Paraná têm se levantado contra os valores pornográficos que vereadores de cidades de densidade inexpressiva recebem. Esses casos têm recebido atenção especial dos noticiários da Globo, que como se sabe é o principal veículo de mídia do país.

Esse parêntese se faz necessário para que grifemos no raciocínio aqui desenvolvido um movimento muito maior em decorrência na veia política do país do que o levante raivoso e desarticulado contra Dilma e o PT. Algo que a votação expressiva de Marina Silva, em 2010, e as passeatas de junho, em 2013, sinalizavam com agudeza, mas menos clareza. O brasileiro está profundamente angustiado com o estado das coisas na política. Outro dia um movimento monarquista, confesso que desconhecia sua existência até há pouco, disse que a República está com os dias contados. Não é para tanto. Mas eu, e talvez você, não sabíamos que um movimento monarquista habita em solo brasileiro.  Aécio Neves não integra nenhum movimento monarquista, mas age como se imperador fosse e demoniza instituições democráticas ao pedir que povo vá as ruas pedir a renúncia de Dilma e Temer. Não é assim que se constrói uma jornada para o Poder. Aécio é, sim, do time do “quanto pior, melhor”. Esse vale-tudo na política não é prerrogativa apenas do tucano e o divórcio entre políticos e sociedade jamais teve tanto relevo. Passa por essa descompressão, a esquizofrenia política que vivenciamos. Aqueles que colocavam Sarney no mesmo pinico de Dilma hoje pedem seu retorno, como se viável fosse. O que este pedido simboliza exatamente senão um gesto de desespero? Destempero? Desilusão? Há algum tempo criticávamos a incapacidade do brasileiro de se mobilizar politicamente. De ser proativo em um projeto de país. Por mais que as referidas manifestações tenham se transformado em uma espécie de circo, em que a irreverência se deve mais a uma selfie do que a uma crítica, os ventos da mudança mais do que estremecerem o país, burilam o mal-estar da nação.

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Sobre Reinaldo Glioche


Uma resposta para “Esquizofrenia política

  • Aline Viana

    É complicado, as pessoas querem reconstruir o país, mas com quem? Não há novas lideranças e desnorteadas elas buscam as antigas em busca de orientação e suporte. Sarney, sinceramente, jamais seria a minha escolha, mas eu, hoje, não vejo muitas opções para sugerir seja do governo ou da oposição. Esse é o momento para que surjam novas lideranças – vamos torcer para que elas não sejam fritas e abandonadas no calor dos acontecimentos como o primeiro-ministro grego.

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