Vocação feminina

Eu ainda não sou quem eu sempre quis ser. Falta escrever o meu livro para chamar-me de escritora. Falta viajar mais, para merecer o título de conhecedora do mundo. Falta, ainda, voltar a reportar o que vale a pena conhecer para quem tem tão pouco ou menos tempo do que eu. Falta ter o filho e plantar a árvore. Falta aprender a nadar e andar de patins.  E para isso tudo eu tenho, em graus variados, preguiça e falta de tempo, ao mesmo tempo, possuo a certeza de que um dia chegarei nesses platôs que eu demarquei.

Hoje sou jornalista, namorada, filha, tia e mulher – afinal, tudo que poderia ser flexionado no período anterior, foi posto no feminino. Mas mulher eu nasci e é condição que define várias das minhas escolhas, assim como não interfere em nada em outras – embora haja quem duvide.  Ser mulher define a maneira como as pessoas se relacionam com nosso corpo, nossa forma de pensar (de ‘menininha’) e como calculam o pagamento dos nossos salários (sempre para baixo, admitem as pesquisas), etc. Está aí o movimento feminino para provar que nada está garantido só porque alguém pôs lá “igualdade de direitos” na constituição.

Daí, na reunião a que compareci na última semana, entra uma mulher de branco, alta, poderosa, de cabelos esvoaçantes e salto absurdo e se dirige para o fundo do auditório. Está atrasada, todos poderiam notar, mas os olhares questionam quem ela pensa que é para andar daquele jeito. Ela deveria virar homem, afinal é o que ela é, ou foi, parecem pensar. Convidada a assumir um lugar na mesa de encontro, ela recusa, mas após a insistência da organizadora do evento, acede.

Para a plateia afirma que está lá para representar os direitos da mulher trans, da mulher lésbica, da mulher negra, da mulher de periferia. Mulheres, que como ela, diariamente lutam palmo a palmo pela liberdade que algumas recebem de berço.  Impossível não se emocionar com seu tom seguro. A moça, ao meu lado, sussurra que ela foi a primeira transgênero a ter o nome social reconhecido no Diário Oficial – não dá tempo de perguntar qual DO, mas enfim, que mulher!

Mulher trans. Para uns, de ‘transgênero’. Para outros, de ‘transgressão’. Que homem abdicaria da masculinidade pra ser mulher? Um ser humano de segunda categoria aqui e em tantos lugares? “Uma aberração”, a definiria, no dia seguinte, um colega homem presente ao evento.

Não sou capaz de captar toda a complexidade que ser mulher trans abarca, confesso. Por outro lado, acho impossível não admirar a coragem daquela moça de romper com todo o estigma, todo o preconceito, para ser ela mesma.  De batom vermelho e salto alto. Ela me representa.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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