Arquivo do mês: agosto 2015

Rusga

peace

Sentada, emburrada, na quina da calçada, ela pensa ressabiada em todos aqueles disparates. Fechado em um silêncio casmurro, olha de rabo de olho a quietude magoada. Ela, calada, parece considerar os desditos sem fim. Ele, amuado, não sabe voltar atrás para pedir o sim. Ouve um suspiro e percebe na sua mão fria o calor acolhedor de outros dedos. Sente o sorriso que faz o coração amolecer. Com o abraço partido uma vez colado, respiram ambos aliviados. “Porque a calmaria da minha inconstância vem de você.”

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Frases soltas à guisa de crônica

* Bom dia! (Caio Fernando Abreu)

* Tu te tornas eternamente responsável pelo carrinho que deixas na fila do caixa.

* Era uma mulher linda e encantadora. Até jogar uma latinha pela janela do ônibus.

* “Horário de almoço” é como as pessoas chamam aquele período que passam na fila das Americanas comprando guloseimas.

* “Inclusive” é uma palavra que nos tira do foco para nunca mais voltar.

* “Empatia” é uma palavra que criamos depois de desvirtuar o sentido de amor.

* A solução para as minorias na China é se mudar em massa para qualquer outro país, onde serão imediatamente maiorias.

* Não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até o último instante o seu direito de citar essa frase atribuída a Voltaire como se fosse inédita.

* Vi uma notícia falando em “casamento coletivo”. Gente, onde vamos parar? Casamento é com uma pessoa só.

* Não sei vocês, mas eu acho esse negócio de chamar prédio de “Le Chateau”, “Mon Chateau” e “Grand Chateau” muito chato.

* Como nos parecem sensatas as pessoas que concordam conosco!

* Acredite: é possível que uma pessoa inteligente e honesta intelectualmente chegue a conclusões totalmente opostas às suas.

* Há problemas que cultivamos com tanto afeto que nos veríamos desorientados se pudéssemos resolvê-los.

* Nem todo restaurante que coloca o preço do almoço logo na entrada é barato. Mas nenhum dos que não colocam é.

* Há pedestres que mereciam passar por algumas aulas de caminhada defensiva.

* Todo mundo é a favor de uma nova política, mas ainda não vi ninguém prometendo ser uma nova pessoa.

* E tem aqueles sites que expiram a sessão enquanto você lê os termos de uso.

* Duas razões me levam a não olhar para uma pessoa vestida de forma chamativa. A primeira é que talvez ela não queira ser olhada. A segunda é que talvez ela queira.

* Não me preocupo mais com a cacofonia desde que li o Fernando Pessoa começando um poema com o verso “quando eu não te tinha”.

* A próxima vez que eu não tiver grana para viajar de Brasília para Curitiba, vou dar um jeito de ser citado na Lava Jato.

* Não gosto de generalizações. Mas não vou generalizar: há algumas generalizações que eu gosto.


Na loja de toalhas feitas à mão

De costa ela parecia mais jovem, talvez a roupa a deixasse assim, ou os trejeitos, ou a voz limpa. De perfil, a outra, mais próxima de mim, parecia mais velha, talvez uns pés de galinha a deixasse assim, ou o nariz adunco, ou a voz áspera. Pensei: deve ser mãe aqui e filha lá, ou o contrário. “Filha, já estamos escolhendo a um tempão, já decidiu?”, perguntou a que parecia mais jovem, esclarecendo o pequeno mistério do meu silencioso joguinho de quem é quem que ali me distraía. “Ai, mãe, é um saco ter que escolher!” A jovial, ou seja, a velha, virou-se e exibiu a face vincada pelo tempo. Pensei: putz!, esta outra aqui perto realmente é a filha. “Pronto, mãe, resolvido: vou levar as duas toalhas!”, e encaminhou-se ao balcão estendendo o braço: “No cartão.” Pensei: em casos de indecisão e folga no orçamento, comprar as duas peças acaba sendo uma boa solução. “Infelizmente não trabalhamos com cartão”, lamentou a vendedora. “Nem débito?” Outra negativa. “Céus! Onde estou?” A velha que trajava roupas descoladas cogitou sair à rua e sacar o dinheiro em um dos inúmeros caixas eletrônicos da movimentada avenida. Pensei: o saque é a única solução. “Não quero mais. Não vou levar nenhuma”, decidiu a jovem dos pés de galinha. “Leve ao menos uma, minha filha.” Pensei: nem além e nem aquém é uma boa solução. “Já disse: nenhuma!”, e deu as costas a todos. Pude reparar sua cifose e escoliose ao deambular. Apesar de velha, a mãe lepidamente consegui alcança-la na saída da loja em tempo de ouvi-la esbravejar: “Um absurdo! Em pleno século XXI!” Abri a carteira e paguei minha toalha. Pensei no troco. Eu penso demais. E a vendedora, enquanto contava as notas, disse constrangida, como se me devesse alguma explicação: “Aqui não temos maquininha, sabe?” “Sei, sim”, respondi, embora ela não desejasse necessariamente uma resposta. Isso tudo é um absurdo, pensei.


A bunda de Joana

Marcelo acordou com a imagem da bunda de Joana em sua mente. Com tantas bundas no mundo, ele não aceitava que fosse a de Joana a invadir sua libido matinal. Foi ao psicólogo e alarmou-se. O psicólogo, muito calmamente, disse que aquela imagem tão excitante quanto preocupante de sua irmã não denotava um interesse por uma relação incestuosa.

Marcelo resistiu ao diagnóstico. A imagem era recorrente nas manhãs do rapaz e ele se flagrava mais desesperado a cada sessão. A pauta ocupava a terapia com força e aos poucos o psicólogo, de vertente junguiana, conseguiu descortinar o significado daquela recorrente imagem em um estado de semiconsciência de Marcelo. Tratava-se, afinal, de uma preocupação latente do rapaz com a própria ausência na rotina familiar e de como ele estava atrás de Joana na interação com os entes queridos.

Um ano depois, Marcelo levou ao seu terapeuta outra inquietação. Acordara com a imagem de Joana escovando os dentes. Ele não parecia tão preocupado com o significado daquela visão, mas aí o doutor veio com um “veja bem…”


A caixa com o carneiro dentro

Não havia dúvida de que eu assistiria à nova filmagem do meu clássico predileto, “O pequeno Príncipe”. Mas havia, sim, a dúvida que vinha lá do coração e que corroía o peito de querer saber se ele atenderia às minhas expectativas.

Claro que não atendeu e foi por culpa minha. E se o amigo leitor passou por esse mesmo sentimento, de não ter sua expectativa atendida, eu vou lhe dizer o que não aconteceu aí no seu coração e que a culpa também é toda sua.

Bom, assim que o filme começa surge a pergunta: mas cadê o príncipe?? Pois é, amigos, a animação não fala dele, muito menos tem o Príncipe como personagem principal. Admita que isso te chocou, por que eu mesma fiquei tentando entender o motivo disso.

Com o decorrer do filme, a gente vai se encantando, mas na verdade é mais por que reconhecemos dentro do roteiro o livro de Exupéry do que pela intencionalidade que há nele: vão aparecendo as frases de efeito, os personagens clássicos… Um segundo susto para os tradicionalistas de plantão é ver o Príncipe crescido, sem memórias de quem um dia foi. Tem quem achou despropositado, tem quem não entendeu, tem quem deixou passar em branco todo o filme por que achou que “o livro é sempre melhor”.

Eu fiquei, confesso, um tanto quanto pensativa enquanto as letras subiam – e também durante as várias horas que se seguiram. Mastiguei as lembranças, juntei com as leituras, inseri nessa massa todas as conversas que um dia tive a respeito das mensagens do livro e voltei então para as cenas do filme. E foi só aí, quando o filme terminou que eu percebi o quão incrível tinha sido a proposta. E caí de amores por Mark Osborne.

carneiro_caixa_principe

Felizmente não temos mais uma filmagem simples do livro, o que nos arranca do “mais do mesmo”; felizmente temos alguém que compreendeu verdadeiramente o que as frases mais famosas – e algumas até que nem tanto – trazem em seu profundo. O roteiro tem, sim!, um poço escondido e só quem sabe onde encontrar o essencial é que pode enxergar, por que enxerga com o coração. Enxergar com o coração é ter o amor acima de tudo, e essa versão é puro amor.

Talvez poucas pessoas tenham percebido, então, que o mais importante não é, de fato, o personagem Príncipe, mas a pureza Príncipe, a criança Príncipe, o princípio Príncipe. E talvez ainda menos pessoas tenham notado como a proposta de roteiro se fez incrível: trazendo as filosofias escondidas no livro para uma realidade mais factível, possível até de comparar com o nosso cotidiano.

É por isso, caro leitor, que a culpa de achar ruim que o diretor “não tenha sido fiel ao livro” é só nossa: não vimos com o coração, crescemos e esquecemos quem fomos, vimos apenas o chapéu, deixamos de lado a beleza dos desertos por que não buscamos seus poços, não ouvimos os risos das estrelas e aceitamos a mentira de que as rosas são todas iguais.

Devemos é agradecer ao Mark por não ter apenas reproduzido a história em sua literalidade. Ele nos trouxe muito mais do que um roteiro adaptado, ele nos trouxe a caixa .

Achou o carneiro?


Amanhecida

ray of light

Crédito da imagem: Maria Gvedashvili

Ao chegar ao cume da colina, sentou-se exausta e dolorida, livre de objetivos mas vazia de perspectivas. Era ainda madrugada e os pés machucados da caminhada impediam o frio de ser sentido. Abraçou os joelhos e respirou profundamente sentindo mais do que nunca a real liberdade de estar só… de aceitar-se só e perceber na solidão o encontro de uma busca. Sorria, de alívio e de elevo por acreditar que nunca mais lágrimas noturnas viriam assombrar seus medos. Repleta de si, levantou a cabeça e divisou na silhueta de seus dedos os primeiros raios do amanhecer.


Sonora

Delícia é quando a gente lembra exatamente como o outro fala. É como se o áudio ligasse na nossa cabeça e a mensagem ou o e-mail fossem sendo lido como nas cartas mágicas do Harry Potter.

É ver os “hehehe” de um amiga, antiga chefe minha, nas mensagens que ela envia de Olinda, pra querer rir junto só de lembrar a risada dela, engraçadíssima e contagiante.

Outro manda mensagem no celular e lá estou eu novamente feliz, como se estivéssemos juntos no pátio da escola, eu abraçada, recebendo cafuné, ouvindo os acontecidos e fazendo planos.

Tem a voz da minha mãe, que não é particularmente bonita nem sonora, mas me acompanha há tanto tempo, que só de ouvir já parece que o peito acalma e as coisas vão se resolvendo como se fossem simples como na infância. Sim, porque infância qualquer assunto se resolve com um beijo da mãe e uma noite bem dormida. Mas ela não me escreve pois tem pavor de celular e internet. É uma pena, pois já não acordo com os bilhetes dela, na mesa da cozinha (“Filha, fui ao médico. Já comprei pão. Faça arroz pra gente almoçar e não perca a hora de ir pro colégio. Beijos, mamãe).

Não sei se quando escrevo consigo transmitir isso aos outros. Sequer sei se tenho uma linguagem que soe mais minha do que o tagarelar das outras gentes. Também não sei se tem alguém que realmente goste tanto assim da minha voz para querer que eu atinja essa transcendência literária. Mas, sim, me escrevam, escrevam sempre.