Mero expectador

Sentado no café, o velho e seu cappuccino observam os jovens que tomam suas bebidas nas mesas da calçada.  “Aquele é um solteirão engraçado: de tanto recusar o amor, diz que é capaz de reconhecer a faísca quando ela atinge outra vítima. Ele diz que tem um para-raios especial. Vai ver é o chapéu”, comentou a garçonete da noite com a moça do dia, que já se ia.

Se real ou imaginado, o fato é que o senhor com chapéu de cowboy acreditava ter esse dom. Duas ou três vezes por semana, ele pedia um cappuccino duplo com a atitude de quem pede um dry martini mexido, não batido, e lançava seus olhares aos demais clientes.

Aquele não seria um dia infrutífero. Até alguém que não possuísse um talento tão específico notaria que a menina de cabelos curtos, sentada com a perna direita dobrada sob os quadris, enquanto apoiava com a outra o pé no assento, era uma armadilha para quem tivesse o peito aberto.

A garota não era de uma beleza de revista, mas todo o corpo dela parecia convidar que alguém se sentasse e a ouvisse embasbacado. Ela vestia uma roupa dessas de balé, uma calça colada, top e uma regatada decotada. Não estava sozinha, o que era perfeitamente lógico para o idoso.  Conversava com uma amiga, uma menina de cabelos compridos e óculos quadrados, que vestia um conjunto de moletom com três vezes o tamanho dela. Skatista talvez, especulou o homem.

Sarah, a de cabelos curtos, gesticulava enquanto falava. Inclinava o corpo pra frente para que a outra entendesse melhor seu ponto de vista. A garota não tem consciência de que faz isso sempre quando quer enfatizar um ponto, e a outra, Carmela, inconscientemente também, se tornava mais suscetível aos argumentos. Daí, se aproximava mais da mesa e descruzava os braços, totalmente entretida.

Um rapaz chega e cumprimenta as meninas, sentando-se junto com elas. Traz um copo de alguma bebida natural, de coloração verde escura. O outro, que vê através do vidro, despreza aquilo, suco era bebida para sujeitos fracos, que não tomaram biotômico Fontoura na infância. Tenta se fazer de educado, dando atenção às duas, logo distrai-se do papo, enquanto toma aquela gororoba. Algo na conversa o chama à terra, e ele olha perdidamente para a garota de cabelos curtos.

O trio recolhe o lixo da mesa porque a peça no teatro experimental ao lado já vai começar. Tanto a menina de cabelos compridos quanto o rapaz parecem querer que o outro desapareça.  Difícil avaliar se a garota de cabelos curtos não nota, ou finge não notar essas reações.

O velho, do seu lugar de observação, lamenta. Talvez ele nunca saiba qual dos dois (o rapaz ou a moça) se deu melhor naquela noite em que o dado da paixão parecia ter caído de quina na calçada.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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