Eu no divã

divã

Inspirado na crônica da semana passada da colega Bia e nos seus respectivos comentários, resolvi tornar pública minha única (e espero que última) experiência com a psicoterapia.

Em determinada fase da minha vida, as pessoas que orbitavam em meu redor decidiram pela minha necessidade de tratamento. Um cerco se formou e eu me sentia como o doente que é o único a negar a própria doença. Como alvo de todo cerco, ou você capitula (como no cerco a Constantinopla), ou você vence pela resistência (como no cerco a Viena). Eu fui Constantinopla. E derrotado, deitei no divã.

Deitar no divã é modo de falar, pois na primeira consulta (uma avaliação gratuita do meu caso) eu já deixara bem claro a minha opção pela poltrona. E nesse dia de estreia, desfiando meu rosário, acabei lagrimando, e percebi que isso empolgou a analista, embora ela não soubesse que eu chore por besteira e não chore em casos sérios. Isso ela não sabia e nunca veio a saber.

Bastaram três ou quatro sessões para eu despejar nos ouvidos aquiescentes da analista tudo o que eu julgava importante (não sei se para ela, para mim, ou para ambos). Portanto, em apenas um mês, eu não tinha mais nada a falar, e poderia ter sido em menos tempo ainda, pois meu caso, segundo ela, demandava duas sessões semanais. Porém negociamos e chegamos, em comum acordo, a conclusão de que uma sessão semanal seria suficiente – e cabia no meu bolso.

A partir de então, como ela seguisse uma linha passiva, nossos encontros adotaram a tônica do silêncio. Eu pensando na minha vida e ela na dela, pois seja lá no que pensemos, trata-se, direta ou indiretamente, de nossas vidas. Hoje, olhando para trás, eu creio que meu dinheiro não fora de todo desperdiçado. Eu pagava para ter tempo para pensar. Um artigo raro, afinal.

A monotonia das sessões enfim foi quebrada no dia em que comentei que estava lendo “O Suicídio”, de Durkhein (quando me via com um livro diferente, tinha a curiosidade, creio que profissional, de perguntar o título). Em dado momento, lembrei-me de um trecho interessantíssimo, que resumi para ela mais ou menos assim: “Todo grupo social tem o seu coeficiente de autoeliminação”. Fui incapaz de prever a consequência prática da minha citação: uma receita azul. Meu caso precisara, então, de um apoio farmacológico.

À época em que capitulei ao cerco, dei a palavra que seria submetido a pelo menos um ano de análise. De modo que, ao completar o tempo mínimo, dei-me alta do divã e do medicamento. Acreditei que me tornara uma pessoa melhor, mas não saberia dizer quanto o peso da conclusão do tratamento contribuía para o resultado. De um jeito ou de outro, tratado ou maltratado, faz um bom tempo que meu caso continua por aí, no meio da multidão.

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