Sua cama me declarou guerra

A relação com Mariana evoluía maravilhosamente bem. Já era aquele momento de um dormir na casa do outro. Resolvemos, no improviso dos apaixonados, de que desvirginaríamos a cama dela primeiro. Coisas desse mundo pós-feminista em que o homem decidiu decidir menos.

A primeira noite na casa de Mariana foi assaltada pelos temores habituais. Nada que o dengo e a boa vontade dela não fossem capazes de sublimar. O sexo foi maravilhoso e a geladeira estava a meu dispor. O que mais eu poderia querer?

Uma cama mais amistosa. Para o leitor entender, não desvirginamos a cama de Mariana, mas dormiríamos nela. Bem, Mariana dormiu. Pensei em ir embora. Mas talvez mandasse a mensagem errada. Não para a cama, mas para Mariana.

Virei de costas para Mariana na expectativa de recuperar certa privacidade. A cama, afinal, era macia, king size, e amansada por um edredom super delícia. Talvez fosse eu. Não a cama. Não podia ficar virando de um lado para o outro sob pena de ser sumariamente deportado. Nenhuma primeira vez merece tal desfecho.

Fui ter com a geladeira que me parecia muito mais receptiva. No caminho, flertei desavergonhadamente com o sofá, que se anunciava com a sensualidade dos móveis bem resolvidos. Optei pela fidelidade à cama de Mariana naquela primeira noite. Que mensagem eu enviaria a dona da cama se não fosse embora, mas me aboletasse no sofá? Amigo com benefícios? Não era uma ideia de todo ruim, mas eu já procrastinava a fim de evitar meu retorno para a cama.

O relógio do celular marcava cinco e cinco da manhã. O digital no criado mudo era mais desaforado. Nem cinco da manhã sinalizava. As taças de vinho já pesavam e a cama de Mariana, inabalável, não dava trégua. Nunca uma cama tão insinuante se provara tão indomável.

Seis e meia da manhã e a cama emite uma espécie de alerta para Mariana, que se vira para mim irresistível como só ela e pergunta: “dormiu bem?”. Minto ou não minto?, pensei. “sua cama me declarou guerra, mas acho que poderíamos decretar aqui e agora a paz”. Ela sorriu e me vinguei da cama superprotetora.

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