Inquietações de ordem metafísica

Tornei-me existencialista aos oito anos de idade. Foi quando me surgiu à mente, pela primeira vez, todo o absurdo da existência humana. Isto é, o que as coisas seriam se nada fossem? Onde estaria eu se não houvesse nascido? O que seria do mundo se não houvesse vida? E, no entanto, eu podia constatar, abismado, que havia vida, eu havia nascido, e as coisas eram realmente coisas. Essas questões me assaltaram antes mesmo que eu me perguntasse como é que os bebês vinham ao mundo – o que explica muita coisa da minha vida adulta. Um dia um amigo, dois anos mais experiente, explicou que os bebês nasciam em consequência de uma coisa muito inusitada que os pais faziam, ou seja, transar. Eu nunca havia ouvido essa palavra antes. Fui olhar no dicionário, mas ninguém aprende a transar pelo Aurélio. E este amigo também não estava muito seguro do que dizia, pois não podia garantir que os seus pais haviam efetivamente transado para que o seu irmãozinho nascesse – “Só sei que nasceu”, dizia.

Minhas inquietações, pois, eram de ordem mais metafísica. Ao tomar consciência do absurdo, fiz o que Camus mais censura, ou seja, dei um salto de fé – pareceu-me melhor do que ficar chafurdando em cima do problema, como ele faz tão bem. Acreditei que, de alguma maneira, as coisas teriam explicação. Poderia ser uma explicação racional, pois também é preciso fé para acreditar que a razão explica tudo. Só que eu acreditava em Deus, acreditava temerosamente em Deus. Havia decidido que a última palavra que eu pronunciasse na terra, antes de morrer, seria “Deus” – queria com isso, com essa prova de fé no momento derradeiro, aliviar um pouco a minha barra. Eu carregava, afinal, pecados terríveis, com muitas respostas enviesadas aos meus pais. E, além do mais, achava que estava sempre perto de morrer, ou por algum ladrão que entrasse em casa ou por alguma cobra escondida no matagal nos fundos da casa.

Um dia eu quis tirar essa história a limpo: Deus existe ou não? Não me ocorreu jeito melhor de resolver a questão do que escrever um bilhete ao próprio Deus. Não queria nenhuma resposta grandiloquente, pedia apenas que ele assinasse aquele papel – e deixei um espaço para que Deus escrevesse o seu próprio nome. Fiz o bilhete e coloquei na gaveta da minha escrivaninha, embaixo de outros papéis, afinal, eu não queria que meus pais vissem e me pregassem uma peça. Além do mais, sendo onipresente e onisciente, Deus não teria dificuldades para encontrá-lo. Fiz o bilhete e fui para a escola. Quando voltei, corri à gaveta e encontrei o papel intacto, sem assinatura. Não lembro como interpretei isso, mas não foi suficiente para duvidar de sua existência. Ora, podia ser que Deus não havia encontrado uma caneta, a gente nunca encontra uma caneta quando precisa.

Se houvesse mesmo uma assinatura, é provável que eu não fizesse alarde, que sequer contasse aos meus pais. Deus existia, e isso me bastava. Eu ficaria mais confiante, menos medroso. Por outro lado, seria grande a minha responsabilidade. Que tipo de vida não deve levar quem está convicto da existência de Deus! Mas Deus não assinou, e o menino cresceu – e, a menos que volte a ser como ele, de modo algum entrará no reino dos céus.

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