Três de maio de 1808 em Madri

3 de maio

Na única vez que estive em Madri não deixei de visitar o Museu do Prado. Quem bem me conhece sabe que eu abriria mão de qualquer outro passeio para dedicar algumas horas do meu turismo aos museus da cidade. Um inominado personagem do Rubem Fonseca, num típico exagero rodriguiano, disse que uma cidade sem museu não é uma cidade. Sem exagerar, eu diria que uma cidade sem museu se torna desmemoriada e insensível. Também visitei, em Madri, o Museu Reina Sofia. No entanto, o que de interessante aconteceu comigo começou no Prado.

Lá estão expostas, sobretudo, as obras dos espanhóis Goya e Velázquez, embora também contenha em seu acervo, por exemplo, italianos renascentistas. Sou um entusiasta, mas meu conhecimento acerca da pintura não vai longe, dá uma meia dúzia de passos e estaca. De modo que contemplava as obras de arte sem tê-las apreciado previamente, como em um livro de arte, por exemplo.

Lá pelas tantas, tímido e contemplativo, deparei-me com uma tela que particularmente me impressionou. Primeiro foi o brilho, um clarão que emana do centro da pintura e que, logo em seguida, direciona o olhar do observador para os braços abertos de um homem moreno. Detive-me na expressão daquele homem, nos seus traços suplicantes, derradeiros. Seu peito indefeso e franqueado é alvo, a curta distância, da mira de fuzis empunhados por soldados perfilados. Por detrás e ao lado dos seus braços em crucifixo – seu último gesto –, almas apavoradas esperaram o pior, enquanto outras jazem sobre o sangue. Não se podem examinar as faces dos soldados, ocultas pela perspectiva adotada, embora eu creia que carreguem o semblante frio da indiferença. Voltei a perscrutar a magnética expressão do cristo moreno. Havia nela algo de estoicismo? Gastei um par de minutos na tarefa de decifrá-la e não cheguei a uma conclusão segura. Contemplei novamente o brilho que, agora reparei melhor, irradia de uma fonte quadrangular e ilumina a noite escura, deixando na penumbra uma edificação ao fundo que lembra uma igreja. Mais ou menos assim aconteceu comigo. Decorei o nome da obra a fim de pesquisá-la posteriormente. Mas poucos dias depois, como eu adiava a pesquisa, acabei esquecendo.

O tempo passou e meu segundo encontro com a tela – obviamente uma réplica do original – se deu no saguão de uma pousada em Punta del Este. Quedei-me feliz diante da imagem. Ainda curtindo o agradável reencontro, voltei-me a uma senhora uruguaia que parecia ser a dona do lugar, e, como se contemplasse a obra pela primeira vez, perguntei mais por curiosidade:

– Que tela é essa?

– Ah, Los Fusilamientos! Uma belíssima e famosa pintura de Goya!

Muitas obras de arte dispensam aqueles que as apresentariam como primas.

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