A pequena dentista

Ela estava do outro lado da calçada quando chamou minha atenção. Não é todo dia que se vê uma criança colocar em si uma máscara de procedimento cirúrgico em pleno ponto de ônibus. Estava acompanhada da mãe e do irmão menor, assim eu supus. Em seguida calçou luvas, que, obviamente, lhe ficaram folgadas, mas não tanto quanto pensei que ficassem. Nada me demoveria daquela contemplação. O que se dava era tão interessante quanto um livro bom.

De repente pega a cabeça do irmãozinho e a projeta para trás, estendendo o pescoço. Ato contínuo ele abre a boca. Agora tudo faz sentido. Estou diante – uma avenida entre nós – de uma pequena dentista. Ela diz alguma coisa e seu paciente alarga ainda mais a abertura dos lábios. Agora é como se ela estivesse dando instruções, explicando o procedimento. Ele não deveria, mas parece aflito – quem sabe não está dando verossimilhança à brincadeira?

Lentamente a dentista introduz o dedo indicador – o obturador – na boca do paciente. O dente em questão parece de difícil acesso, creio que fosse um molar superior. Ela estende ainda mais o pescoço para melhorar seu campo cirúrgico. Ambos não parecem estar em posição confortável, exatamente como acontece nos consultórios. Levanta os olhos e diz alguma coisa a mãe, que lhe oferece um sorriso indulgente.

Agora sua mão vibra como deve estar vibrando o seu indicador no dente cariado. O paciente se afasta para trás e cospe a saliva acumulada. Nossa dentista parece novamente estar explicando o que será feito. O filho olha para a mãe que emite, quase simultaneamente, um monossílabo encorajador.

A boca está aberta outra vez, e agora o que se vê formado com os dedos polegar e indicador da dentista é o instrumento que eu conheci quando criança e que nutria desmesurado pavor: o boticão. Pelo visto não há remédio para o dente, o jeito é extirpá-lo. Os dedos em pinça desaparecem na cavidade bucal. Nossa heroína contrai os músculos da face e após um movimento brusco de retirada exibe orgulhosa para a mãe o dente imaginário. Desta vez o sorriso da mãe, além de indulgente, é triste. Um sorriso que assume a realidade das coisas, um sorriso resignado que a filha ainda não é capaz de entender. O ônibus passa levando consigo a mãe e seus dois filhos. Só então, pedindo a Deus, eu atravesso a rua. Pedindo tanto a Deus. Tanto.

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