Arquivo do mês: julho 2015

Melancolia do fim de domingo

Quando o domingo se aproxima do fim, quando voltamos para casa depois de termos nos divertido bastante, quando as preocupações do dia seguinte começam a ocupar a nossa mente, quando sentamos diante da televisão e nos damos conta de que mais um final de semana terminou, é que costumamos sentenciar gravemente: “Como são melancólicas essas horas!”. E, por mais razões que essa exclamação encerre, quer me parecer que há certo exagero, sobretudo se compararmos essas horas que passamos em casa, ao lado da família, da geladeira e do computador, com aquelas outras que passam, sozinhos, os seguranças de um prédio comercial.

Ora, uma coisa é ser segurança de um prédio desses de dia, durante a semana, cercado de gente andando para lá e para cá. Outra, bem diferente, é ser segurança de noite, em um domingo, quando todas as lojas do prédio estão fechadas e mal se consegue enxergar uma pessoa na rua. Em geral, o segurança tem a companhia de um rádio, onde escuta todos os comentários sobre os jogos da rodada, ou uma televisão, onde assiste aos mesmos programas que nós em casa – mas como devem soar mais tristes para ele! Ali, ali sim, é que se pode falar honestamente na melancolia do fim de domingo.

Às vezes estou na rua e avisto um desses seguranças dentro do seu prédio. Imagino que ele preferia estar em casa. Deve ter família, quem sabe tenha filhos. Talvez quisesse ir à igreja, as pessoas também vão às igrejas no domingo à noite. Mas terá que passar a noite ali, tomando conta de um prédio que não é seu, e unicamente porque não se pode confiar no ser humano, não se pode deixar um prédio dando sopa.

Talvez o cenário não seja tão triste assim. É possível que, indagados a respeito, os seguranças dissessem que já estão bem acostumados com esse jeito solitário de passar as noites de domingo. Isso, sem dúvida, tranquilizaria a nossa consciência. Mas ainda é com ternura que penso na situação deles. Tanto que nunca mais reclamei da musiquinha do Fantástico.

Anúncios

Faixa Viva

Reprodução Internet

Reprodução Internet

A prefeitura de Santos comemora este ano o quarto aniversário da implantação da campanha Faixa Viva, e para tal distribuiu faixas pela cidade – não de pedestres, mas daquelas que vão de um poste a outro. O que será que estão comemorando? – me perguntei. Não é possível que comemorem o cumprimento dos objetivos últimos da campanha – estamos longe disso. E portanto meus aplausos vão apenas para a iniciativa do projeto, e não para as velinhas de aniversários – ainda não há motivo para festa. A saga que vou resumir faz parte do atual cotidiano do trânsito santista nos horários de pico, onde todos, pedestres e veículos, têm pressa.

O cidadão se aproxima da faixa e exibe um olhar desolador para o afluxo maciço de carros, motos e bicicletas. Ato contínuo, pisa na faixa e mantém uma distância mínima dos carros para que possa ser mais bem visto sem ser atropelado. Aqui, normal e primeiramente, o pedestre aposta na boa vontade: quem sabe a sua necessidade de chegar ao destino sensibilize os motoristas que lhe tiram um fino? Constatando que a sincronização dos semáforos não lhe permite uma brecha e que o trânsito gentil é um mito, alguns corajosos – com um gesto orientado pela prefeitura –, esticam o braço para o interior da pista para sinalizar aos condutores que a faixa é viva, vivíssima!

Nesses casos, algumas vezes os carros da faixa de rolamento mais próxima ao cidadão gesticulador desaceleram, mas os que vêm na faixa ao lado quase sempre continuam velozes, pois não viram o sinal pedinte. De modo que o pedestre agora se encontra à frente de uma fileira de carros parados, aflito, acenando para que a segunda fileira se comporte como a primeira, o que felizmente ocorre, cedo ou tarde. Mas se engana quem acha que então tudo está resolvido. Nem tudo. Pois agora precisa se certificar que não há perigo vindo do corredor, que não há uma motocicleta buzinando freneticamente em sua direção. Se houver, novamente arriscará seu braço, que vale mais que um retrovisor.

Assim, vencida a epopeia, enfim nosso herói atinge o outro lado da rua e confirma o comemorado sucesso da Faixa Viva!


Pequena (grande) guerra conjugal

Roberto e Eliene vão comprar uma nova geladeira. Mas não é tão simples assim. Eles são os únicos na família e no círculo de amigos que ainda não tem uma geladeira duplex de inox e frost free, esse tratado da era moderna do consumismo. Não ter uma geladeira dessas pós-IPI reduzido é considerado uma derrota pessoal para Eliene, que evitava tocar no assunto explicitamente com Roberto.

Roberto não queria uma geladeira com filtro. Eliene insistia que o custo-benefício era muito grande para ser desprezado. Roberto sempre brincava com o questionamento: “O que é grande? O custo ou o benefício?”

Eliene nunca achava graça.

Aos poucos, amigos e familiares foram tomando parte. As mulheres mais velhas do clã achavam que Eliene estava certa em se mostrar irredutível. Na avaliação delas, a esposa de Roberto já havia sido complacente demais com o atraso do marido. As amigas de Eliene ressalvavam se não havia outro eletrodoméstico mais premente em demanda na casa ou se não seria possível, afinal, abrir mão do refrigerador com filtro por uma duplex de inox frost free convencional. “Se é que podemos chamá-las assim”, atentou uma.

Eliene era refratária às tentativas de demoção.  Mais ou menos como Roberto que achava um absurdo, confidenciava a quem tivesse a infelicidade de perguntar por que ele andava tão pensativo, pagar R$ 6 mil, R$ 7 mil em uma geladeira com filtro. Na lógica de Roberto, era possível comprar uma frost free (não haveria necessidade de ser duplex), um filtro e até uma cervejeira e sobrar um troquinho.

A discórdia era tamanha que Roberto e Eliene passaram a dormir em fusos diferentes. Uma intervenção foi convocada. Uma assembleia composta por familiares e amigos mais próximos tentaria se incumbir de resolver aquele imbróglio que começou como uma quizumba familiar e já ganhava contornos de pré-divórcio.

Depois de muitos desentendimentos e discussões entre quem não tinha nada a discutir, convencionou-se que aqueles ali reunidos vão presentear o casal com um refrigerador duplex de inox frost free. Mas sem filtro. Caro demais para um presente. Roberto riu por dentro. Eliene disfarçou, mas chorou tão logo pôde.


Metaforizando para entender

Estamos no meio do furacão.

Há quem não tenha percebido, por que apenas está sortuda e momentaneamente nos arredores, sentido uma leve brisa no rosto e em seu status. Há quem esteja de costas, por opção ou por ter sido induzido inconsciente por outros que não querem ver que o caos está a caminho.

Então o problema não é apenas o bendito tornado, que em sua tendência apenas cresce e se espalha, mas também daqueles que o observam parados, pseudo-incólumes às iminentes consequências, achando que ao ignorar estão se salvando da desgraça, mas não percebem que assim apenas postergam, e até pioram, a situação que está por vir. E depois dizem que a maré é que não está para peixe.

Acontece que estamos todos juntos, no mesmo barco no meio do mar, balançando sob as mesmas ondas e também sob a mesma ameaça de sermos tragados em uma tempestade de furacões. O que dá pra fazer? Morrer afogado ou nadar contra a maré? Se apenas um bater os braços e pernas não recuaremos em nada. Mas se todos remarem, se todos pensarem “continue a nadar” a situação tende à mudança e tudo pode ser diferente.

Apenas reclamar do mau tempo se não não há controle sobre as nuvens não funciona. E o tempo virá, temos que estar dispostos a remar independente de chuva. Agora a situação é mais pesada, o temporal já começou, os furacões já estão na nossa rota e fugir não é a solução mais adequada. Antes que venham os tubarões, antes que o barco vire, antes que o sol rache nossa cabeça, vamos nadar.

E que essa grande metáfora chacoalhe alguém por aí. Que chacoalhe muitos!


Verter

Werther

E quando não se quer enfrentar o amanhã? Quando tudo parece sempre no mesmo lugar e um dia é só outro dia, mas se outro dia amanhecer outra vez a gente vai se despedaçar tal qual a madrugada ante os raios do sol que nasce? Pior que esse medo do imutável que não controlamos é a feitura de se fazer simplório para não atormentar quem a gente ama. Deus, como dói viver.


Mero expectador

Sentado no café, o velho e seu cappuccino observam os jovens que tomam suas bebidas nas mesas da calçada.  “Aquele é um solteirão engraçado: de tanto recusar o amor, diz que é capaz de reconhecer a faísca quando ela atinge outra vítima. Ele diz que tem um para-raios especial. Vai ver é o chapéu”, comentou a garçonete da noite com a moça do dia, que já se ia.

Se real ou imaginado, o fato é que o senhor com chapéu de cowboy acreditava ter esse dom. Duas ou três vezes por semana, ele pedia um cappuccino duplo com a atitude de quem pede um dry martini mexido, não batido, e lançava seus olhares aos demais clientes.

Aquele não seria um dia infrutífero. Até alguém que não possuísse um talento tão específico notaria que a menina de cabelos curtos, sentada com a perna direita dobrada sob os quadris, enquanto apoiava com a outra o pé no assento, era uma armadilha para quem tivesse o peito aberto.

A garota não era de uma beleza de revista, mas todo o corpo dela parecia convidar que alguém se sentasse e a ouvisse embasbacado. Ela vestia uma roupa dessas de balé, uma calça colada, top e uma regatada decotada. Não estava sozinha, o que era perfeitamente lógico para o idoso.  Conversava com uma amiga, uma menina de cabelos compridos e óculos quadrados, que vestia um conjunto de moletom com três vezes o tamanho dela. Skatista talvez, especulou o homem.

Sarah, a de cabelos curtos, gesticulava enquanto falava. Inclinava o corpo pra frente para que a outra entendesse melhor seu ponto de vista. A garota não tem consciência de que faz isso sempre quando quer enfatizar um ponto, e a outra, Carmela, inconscientemente também, se tornava mais suscetível aos argumentos. Daí, se aproximava mais da mesa e descruzava os braços, totalmente entretida.

Um rapaz chega e cumprimenta as meninas, sentando-se junto com elas. Traz um copo de alguma bebida natural, de coloração verde escura. O outro, que vê através do vidro, despreza aquilo, suco era bebida para sujeitos fracos, que não tomaram biotômico Fontoura na infância. Tenta se fazer de educado, dando atenção às duas, logo distrai-se do papo, enquanto toma aquela gororoba. Algo na conversa o chama à terra, e ele olha perdidamente para a garota de cabelos curtos.

O trio recolhe o lixo da mesa porque a peça no teatro experimental ao lado já vai começar. Tanto a menina de cabelos compridos quanto o rapaz parecem querer que o outro desapareça.  Difícil avaliar se a garota de cabelos curtos não nota, ou finge não notar essas reações.

O velho, do seu lugar de observação, lamenta. Talvez ele nunca saiba qual dos dois (o rapaz ou a moça) se deu melhor naquela noite em que o dado da paixão parecia ter caído de quina na calçada.


Amar como Platão amou

Se eu me atrasar, um minuto que seja, não a vejo mais. Isso significa um dia triste, um dia ruim no trabalho, um dia perdido, sem avançar um centímetro sequer. É assim desde que percebi que você faz o mesmo trajeto que eu, todos os dias, mais ou menos no mesmo horário. Acho pouco provável que você também não tenha me percebido, mas só perceber não quer dizer nada. Pode até ser que fique aborrecida quando me vê e pense “esse cara de novo!”, mas a verdade é que a maior parte das vezes que nos encontramos foi por mero acaso. Isto no começo, é claro: agora eu tento não me atrasar, um minuto que seja, senão não a vejo mais. Às vezes dá certo, às vezes eu a vejo caminhando à minha frente, mas só vejo, não confesso o que penso a seu respeito.

Amo-te, mas amo-te como Platão amou, o que é quase não amar, ou, pelo menos, é um nunca ficar satisfeito por amar. A razão brada: – É impossível! E eu abaixo a cabeça e concordo: é mesmo impossível. Mas isso apenas quando eu não a vejo, quando não caminha à minha frente, quando eu não estou observando todos os seus movimentos na expectativa de que alguma coisa extraordinária aconteça. Porque neste momento eu duvido da razão, eu duvido da lógica, e acredito no impossível, no imponderável, no inimaginável, em qualquer coisa ainda melhor do que as previsões mais otimistas. Eu acredito que você irá olhar para trás, acredito até o último momento que você irá olhar para trás, e será de propósito, será um sinal que você sabe que eu estou ali, que você consente que eu esteja ali, e talvez sinta alguma coisa parecida com o que eu sinto, e então, ah, então, então pode ser que as coisas deem certo mesmo. Mas – ai de mim! – você não olha para trás, e mesmo se olhasse pode ser que fosse por acaso, pode ser que eu ficasse em dúvida se foi para mim mesmo que você olhou, e não tem nada pior do que ficar em dúvida nessas questões de amor – mesmo este amor que não chega nem a sair do peito.

O diabo é não ter um nome, um nome para sussurrar, para rabiscar nos cadernos, para gritar nos momentos de desespero. É preciso analisar atentamente as suas mãos, descobrir se por acaso não existe algum tipo de anel, um anel que me desautorize a ficar olhando, insistindo e criando expectativa, mas como, como é que se olha para as mãos de uma pessoa que apenas caminha à sua frente? De vez em quando passa a mão pelo cabelo, ajeita a bolsa, tira o celular do bolso da calça, mas isso dura tão pouco tempo que eu mal posso estar certo do que eu vi ou deixei de ver. É estatisticamente provável que haja um anel, que haja uma história, mas eu já dei a entender que, quando te vejo, passo por cima de probabilidades, tendências e possibilidades: amo-te.

Bem, talvez não ame, talvez apenas queira amar, talvez eu nem saiba que você é muito diferente de mim, que você odeia ler, que é fã de sertanejo universitário – vai saber. Às vezes eu penso em alcançá-la na faixa de pedestres, ficar lado a lado, puxar assunto, falar alguma coisa, essas que saem tão naturalmente da boca dos outros, da boca de quem nunca teve um amor escondido, de quem nunca viu motivo para esconder. E às vezes eu penso que a culpa é toda de Platão.