A nossa miséria

Escrevo sob o impacto da leitura de “Os Miseráveis”, o clássico de Victor Hugo que me acompanhou nos últimos dois meses e que provavelmente me acompanhará por toda a vida. Não vi nenhum filme sobre a história, nem mesmo aquele musical, e também não li nenhuma adaptação, certamente bastante injustas com a obra. Dispus-me a ler porque me interessa de modo particular o tema dos miseráveis. Eles são presença constante em meus textos, pois ainda não consegui me justificar diante do incômodo que eles causam, e nem deixei de reconhecer as contradições que eles revelam em nós, que levamos vida mais confortável. Pouca gente me censuraria se eu fosse indiferente, mas eu ainda sinto compaixão.

“Leva para casa”, diria alguém. Sobretudo porque não é raro que exista entre esses miseráveis aqueles que em algum momento entraram em conflito com a lei. “Não é porque é pobre que precisa ser bandido”, argumentaria esse alguém. Jean Valjean, o herói da história, foi pobre e foi bandido. A monstruosidade é que, não obstante, também foi bom e venerável. É por não conseguir aceitar a imprecisão dos contornos que separam uma pessoa boa de uma pessoa má que o intransigente inspetor Javert sofre. Se me fosse possível enviar um exemplar à Rachel Sheherazade, eu lhe recomendaria: “Concentre-se no Javert”.

Mencionaria também o bispo de Digne, cristão que vivenciava o Evangelho de uma maneira muito distinta de alguns dos nossos formadores de opinião. Foi precisamente por agir assim que causou a comoção interior de Jean Valjean. Com gestos inesperados em favor de quem se reconhecia não merecedor, o bispo de Digne conseguiu o efeito predito por Salomão em um dos seus provérbios: amontoou brasas sobre a cabeça de Jean. Disso resultou a sua transformação, que só não foi completa porque ainda lhe impunham os estigmas do seu passado. Nem por isso tinha menos direito à salvação, e talvez tivesse até mais: não é senão pela consciência da nossa miséria que se pode pensar na ideia de Deus.

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