À porta dos “entas”

reprodução / Internet

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Encontro-me às vésperas dos meus 40 anos de idade com a sensação de metade do caminho percorrido. E creio que o culpado por este sentimento não seja propriamente o número 40, mas o 80 – um número que, convenhamos, é revestido de plausibilidade e aceitabilidade sem maiores revoltas.

No entanto, segundo o IBGE, que calculou a expectativa média de vida do brasileiro em 74,9 anos, pode-se dizer que do ponto de vista estatístico eu já esteja mais pra lá do que pra cá. E se tomarmos apenas o estado do Maranhão, que detém a pior média (69,7 anos) – e eu nasci ali ao lado, no Pará -, estou mais próximo ainda de lá do que de cá.
Por sorte a curva histórica da expectativa de vida tem aumentado cerca de quatro meses a cada dois anos, de modo que a cada ano vencido ganho mais uns dois meses de vida – embora sempre caminhando para lá; é inelutável.

Ah, mas eu pretendo contrariar as estatísticas! Já sabemos que ser brasileiro me confere a “garantia” de quase 75 anos, pois daí eu pergunto ao leitor: quanto projetar para mim, que não fumo, não bebo, prefiro alimentos orgânicos e sou sexualmente ativo? – já li muitas matérias que afirmam que sexo é saúde. Hem, quanto?

Bom, é certo que minha saúde carrega algumas debilidades. Trata-se de umas três patologias potencialmente cirúrgicas que vou levando como se fossem bichinhos de estimação – despejem a máxima ironia na expressão. Apesar disso, não creio que essas moléstias subtraiam algum naco da minha jornada – elas estão mais para a aporrinhação que para a letalidade. Em tempo, infelizmente é só nessas horas que lembro que esqueço o uso do protetor solar.

Em uma tentativa chistosa de me tranquilizar, algum engraçadinho poderia alegar que minha vida já estaria completa: plantei uma árvore no trote ecológico da faculdade, tenho uma filha linda e maravilhosa e já escrevi um livro, ou melhor, três. Além de gozador, um engraçadinho sagaz, pois teria captado a motivação principal desta crônica: o desespero de tentar me convencer de que a sensação de estar no meio do caminho é falsa, de que seguramente ainda estou mais pra cá do que pra lá.

Céus! Céus! Eu tenho tantos livros para ler antes de morrer!!!

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7 respostas para “À porta dos “entas”

  • Andrea Borges

    Xiiiiissss! Tu estás mais para cá do que para lá, pode ter certeza! ☺

    E amanhã será o grande dia. Todos os anos é o grande dia, pois foi nele que você nasceu.
    É uma data muito especial porque você é um ser humano diferenciado em tudo que faz. Médico exemplar; escritor de qualidade, pai maravilhoso, marido companheiro.

    A única diferença é que aos 40 está mais charmoso 😉

    Te amo muito!!! ❤

  • Henrique Fendrich

    hahaha… uma vida é muito pouco tempo para ler todos os livros mesmo.

    Esse negócio de levar patologia como se fosse bicho de estimação me lembrou o Nelson Rodrigues comentando sobre a sua úlcera;

    “Eu tenho, se assim posso dizer, uma úlcera amestrada, que dói na hora certa. Nunca houve uma lesão duodenal tão adulada. E, assim, com papinhas analgésicas, minha úlcera vive a vida que pediu a Deus. Boa, excelente ferida. Mais do que um martírio, é um hábito. Sinto falta de sua dor e, quase diria, saudades de sua acidez”.

    Longa vida aos poetas!

  • Bia Bernardi

    E que a legalidade da vida lhe conceda bons dias, sobretudo!

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