Com a boca na botija – Parte 2

Como disse no final da crônica anterior, estufei o peito e – acho agora que sem muita convicção – anunciei para os meus pares infantes: “estou preparado!” – para roubar uvas.

A rigor, eu não havia passado por nenhum treinamento, de modo que o estar preparado deve ser encarado tão somente como força de expressão, a qual fiei a partir das observações que fazia dos assaltos à parreira da vizinha. Bom, digamos que a minha preparação se assemelhava a dos suicidas: estava mentalmente preparado.

Delegaram-me a guarda do portão. Eu seria então o delator de qualquer movimento na varanda da casa. Seria uma estreia prudente, natural, mas eu queria mais, e, portanto, declinei a função. Como exibia uma magreza fragorosa, beirando o raquitismo, duvidaram que tivesse força suficiente para os “pezinhos”. Em contrapartida, ser arremessado sobre o muro seria de uma facilidade extrema. A gurizada vacilou, mas eu não: “estou preparado!”

Hoje, escrevendo essa crônica, penso no que estaria pensando naquele momento decisivo. Queria eu saldar com a gurizada uma dívida que se arrastava há tempos? Ou todo menino que vence o medo se torna um maluquinho estouvado? Seja como for, uma coisa era certa: eu estava disposto ao máximo risco.

“Mina de ouro! Mina de ouro!”, gritavam os guris de cima do muro, apontando um cacho de uva acolá, que eu, já no pátio sob a parreira, deveria seguir a direção e apanhá-lo; eu era magro, porém alto. No saco que levara deveriam caber uns seis a sete cachos, e minha intenção particular e heroica era capturar, no mínimo, um para cada membro. Lá pela tantas – faltava ainda um cacho -, os gritos “mino de ouro” foram substituídos por outro, um pouco mais distante: “Ei, boleta! Ei, boleta!” Petrifiquei-me. Não tive reação de fuga. Os gritos alertas ficando mais próximos, mais próximos, até que cessaram e passos pesados ressoaram atrás de mim. Mantive-me atônito, olhando para cima, para aquele céu verde que já havia impregnado minhas retinas. Com a alma gelada de quem é pego com a boca na botija e não tem espírito suficiente para fugir, minha única reação foi voltar em direção aos passos gordos, esticar o braço e, por educação, perguntar: “A senhora aceita uma uva?”

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Uma resposta para “Com a boca na botija – Parte 2

  • José Borges

    Deve ser de família a questão então. Eu também me considero uma pessoa extremamente “flagrável”. Hoje agradeço, pois creio que essa sensação me transformou numa pessoa mais sensata e consequente. Ou seria puro cagaço também? Rs
    Filosofando, eu poderia até chegar à conclusão que o cagaço é a base da honestidade…

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