Arquivo do mês: junho 2015

Agenda de papel

Preciso voltar a montar agendas de papel.

Não daquelas cheias de desenhos, que eu fazia aos doze anos de adolescência, colando papéis de balas Icekiss, bilhetes trocados no meio da aula. Essas agendas são divertidas, cheias de alegria… É como um facebook, mas feito a caneta e cola. Eu preciso mesmo é daquelas chatas, cheias de números, cobranças, prazos, recados secos do tipo “ligar para o pedreiro sem falta”. Ou seja: agenda de adulto.

Ainda que eu prefira os momentos de soltar o lado criança, cheguei numa fase em que as obrigações apenas se multiplicam e que não há escapatória, obrigando-me (palavra de adulto) a cuidar de coisas de adulto quase que o tempo todo.

A cabeça já não acompanha mais tanta coisa: datas, nomes, dados, lugares… Minha idade não me condena ainda (só digo que assisti ao primeiro episósio de Castelo Rá-Tim-Bum), mas o cotidiano da terra da garoa nos impele uma carga exagerada de velhice antecipada que observamos pessoas de 21 anos dizendo “no meu tempo…”.

Então uma agenda de papel será útil para organizar alguns pensamentos que não devem se tornar perenes em minha mente e que não podem contaminar meu coração, por que serão mantidos fora de mim (ainda que seja apenas de forma metafórica). Não aderirei à tecnologia para esse caso, pois seria mais um forma de me tornar escrava dela que, por acaso, também é coisa de adulto.

E responsabilizo a própria tecnologia pela minha nova necessidade. Afinal, é por conta dela que este mundo está maluco, com os dias correndos bem mais rápido, a gente se virando nos trinta pra fazer cada vez mais em bem menos tempo. E pra finalizar todos os passos que ainda preciso dar para que eu possa mudar para a estradinha de tijolos de ouro, preciso de uma agenda de papel.

Talvez eu compre uma dos Minions.


Caídode

angel

A asa partiu-se na queda e o anjo, ralado além de decaído, olhou com compaixão e desespero ao seu redor. De todos os castigos divinos sabia ser este o mais temido ainda que no seu caso tenha sido uma escolha do mais puro livre arbítrio. Não que não tenha se considerado tolo após a queda. Mas resolveu enfrentar com caridade cristã o que lhe aguardava. Pobre diabo, ainda que seja a metáfora adequada, ruim foi a escolha de seu próprio destino. Se a pasmaceira do paraíso o irritava, a cegueira tépida dos homens e mulheres, errantes joguetes, o faria regurgitar lições de catecismo jamais digeridas. E lá se foi o anjo de asa partida. Deixou atrás de si um rastro imaculado de penas. E à sua frente caíam,  à semelhança de triste chuva fina, lágrimas divinas.


Selfie

Mônica arrombou a vitrine de uma loja. Pegou um vestido preto, com detalhes em renda na barra e paetê no busto. Totalmente o seu estilo. Fez isso porque mais tarde irá a uma festa. Na festa vai fazer várias selfies. Ela não tinha mais roupa nenhuma, quer dizer, quase nenhuma inédita, o que é praticamente a mesma coisa. Quem se lembraria de uma produção repetida? Qualquer um que abrisse seu perfil no Facebook. E tem quem faça isso? Mônica faz. E se ela faz, os outros também. A Alicia é uma que vive fazendo isso (repetindo roupa), muda o brinco, o sapato, faz do vestido blusa ao enfiá-lo por dentro da calça, mas é óbvio que dá pra reconhecer. As pessoas reparam, sim. E comentam como ela, Mônica, anda sempre bem vestida. A única roupa repetida que ela se permite é aquela legging preta, com a malha com capuz também preta que é capturada pela câmera do shopping – são peças exclusivas para os crimes fashion. Mas o retrato não é dos melhores, ela já estava com uma perna do lado de lá do muro. O coque do cabelo cacheado, preso sob o capuz, já soltava algumas pontas, mas ainda parecia um desleixado calculado.  Os policiais apreciaram o ângulo do flagra, admirando os glúteos da nova ladra da cidade. “Que flexibilidade!”, um deles comentou ao repórter do Diário. “São as aulas de ioga, seu lindo”, pensou Mônica ao ler a notícia. Pena é que não poderia usar o vestido rendado essa noite, daria muito na vista. A matéria sobre o furto estava sendo compartilhada por todos os conhecidos nas redes sociais, um saco. Só porque era uma loja Vip. Teria que vestir o outro vestido, um de couro, super sexy, que ela vinha reservando para uma ocasião de extrema necessidade, quando não tivesse um puto na conta ou não conseguisse dar algum pulo. Porque, sinceramente, quem consegue comprar tanta roupa trabalhando, né?


A nossa miséria

Escrevo sob o impacto da leitura de “Os Miseráveis”, o clássico de Victor Hugo que me acompanhou nos últimos dois meses e que provavelmente me acompanhará por toda a vida. Não vi nenhum filme sobre a história, nem mesmo aquele musical, e também não li nenhuma adaptação, certamente bastante injustas com a obra. Dispus-me a ler porque me interessa de modo particular o tema dos miseráveis. Eles são presença constante em meus textos, pois ainda não consegui me justificar diante do incômodo que eles causam, e nem deixei de reconhecer as contradições que eles revelam em nós, que levamos vida mais confortável. Pouca gente me censuraria se eu fosse indiferente, mas eu ainda sinto compaixão.

“Leva para casa”, diria alguém. Sobretudo porque não é raro que exista entre esses miseráveis aqueles que em algum momento entraram em conflito com a lei. “Não é porque é pobre que precisa ser bandido”, argumentaria esse alguém. Jean Valjean, o herói da história, foi pobre e foi bandido. A monstruosidade é que, não obstante, também foi bom e venerável. É por não conseguir aceitar a imprecisão dos contornos que separam uma pessoa boa de uma pessoa má que o intransigente inspetor Javert sofre. Se me fosse possível enviar um exemplar à Rachel Sheherazade, eu lhe recomendaria: “Concentre-se no Javert”.

Mencionaria também o bispo de Digne, cristão que vivenciava o Evangelho de uma maneira muito distinta de alguns dos nossos formadores de opinião. Foi precisamente por agir assim que causou a comoção interior de Jean Valjean. Com gestos inesperados em favor de quem se reconhecia não merecedor, o bispo de Digne conseguiu o efeito predito por Salomão em um dos seus provérbios: amontoou brasas sobre a cabeça de Jean. Disso resultou a sua transformação, que só não foi completa porque ainda lhe impunham os estigmas do seu passado. Nem por isso tinha menos direito à salvação, e talvez tivesse até mais: não é senão pela consciência da nossa miséria que se pode pensar na ideia de Deus.


Dos de fora de Tijarri

Eis uma compilação a partir das minhas impressões confirmadas por todos aqueles que também estiveram em Tijarri, lugarejo para o qual certamente ainda voltarei:

“Tijarri é sonho de menino, tanta emoção, de pés no chão, eu curtiria a infância solta nas asas de Tijarri.

Tijarri é lugar de gente honrada, que luta, que labuta, sempre a sorrir durante as prosas nas esquinas de Tijarri.

Tijarri tem o solo fértil, das mangas, das goiabas, e dos caquis, e tudo o mais brota do chão de Tijarri.

Tijarri é a inefável natureza, onde canta, e encanta, o bem-te-vi, entre os rios e a flores de Tijarri.

Em Tijarri não faz calor nem faz frio, e sopra o vento, que a todo momento, se faz sentir, e cai chuva que lava a alma de Tijarri.

Tijarri não tem delegacia, não há policiais, nem marginais, por aqui, ninguém é assaltado nem é preso em Tijarri.

Tijarri embala nossos sonhos, o céu estrelado, com agrado, nos faz dormir à luz da lua que acalenta Tijarri.

Tijarri é meu futuro, jamais se apagará da memória, da minha história, do que eu vivi. E antes que as minhas primaveras acabem e eu cerre meus olhos àquela linda cidade, declaro meu amor por ti, Tijarri.”


Inferno astral

Sabe daquelas coisas que você não acredita, mas respeita? O conceito de inferno astral se encaixava nessa categoria para mim até algum tempo atrás. Mas de tanto respeitar, comecei a acreditar no dito cujo. Passei a me interessar por astrologia em geral a partir do respeito que o inferno astral foi amealhando de mim. Ano após ano.

Já o paraíso astral eu só fiquei conhecendo em uma busca no Google sobre inferno astral. Sintomático do estado das coisas ou não, me vejo compelido a acreditar no paraíso astral – que caso você esteja se perguntando acontece no início do sexto mês após o nosso aniversário.

É no inferno astral, porém, que tudo que dá errado na tua vida pode encontrar uma justificativa. Não uma justificativa qualquer. Uma justificativa astrológica, metafísica até. É um consolo nada desprezível. Ainda que a ciência do inferno astral remeta a tal energia negativa que ele discrimina. Posso estar mijando fora do pinico, como diriam uns filósofos cheios de humildade dos botequins tijucanos no meu Rio de Janeiro da memória afetiva, mas estamos diante do dilema do ovo e da galinha em proporções astrológicas. Metafísicas até.

Continue comigo, caro leitor. É claro, e você vai me corrigir, que o inferno astral continua existindo sem a ciência do infernizado, mas o que coloco é até que ponto o processo de consciência precipita o mármore do inferno, entende? Na linha “o que os olhos não veem o coração não sente” ou a “ignorância é uma benção”, como cunharam, cada qual a seu modo, Platão, Immanuel Kant e John Lennon.

Na dúvida, continue respeitando e mesmo que não acredite nessas “bobagens” de astrologia, procure conhecer. A ignorância pode ser uma benção, mas a cultura é diabolicamente recompensadora.


O mundo precisa de contextos

Estamos em maus lençóis.

A política, de fato, está capenga, mas não é só isso. A educação, saúde, transporte, saneamento e todas as outras vertentes que deveriam ser consideradas condições de base, também estão de mal a pior. Mas hoje o ponto ainda não é bem esse.

Acontece que o mundo está fora do eixo e quando digo mundo estou me referindo às pessoas que o fazem – por que o mundo, em si, estaria muito melhor sem a nossa estadia. As pessoas estão bagunçando tudo!, estão confundindo as coisas e fazendo tudo errado, pois quando é para brigar, se acomodam; quando é para cuidar, ignoram; quando é para receber… bem, as pessoas hoje em dia só querem receber…

Sendo bem clara, esse está bem longe de ser um discurso altruísta, já que esta que lhes escreve está fora dos padrões INMETRO para Madre Teresa. E não podemos nos deixar levar pelos ideais utópicos de sociedade, como pessoas se respeitando mutuamente, natureza acima de tudo, etcetera e tal, pois sabemos se tratar de, como já disse, utopia.

O problema, na real, é que o mundo está fora de contexto.

As pessoas levam tudo na maldade, como sacanagem, ou mesmo pelo lado vazio do copo. Não que estejamos numa situação de ver as coisas em cor-de-rosa, mas é preciso se situar. É preciso que cada um saiba, ao menos, o seu lugar no planeta, a sua responsabilidade (seria isso também utópico?) e a partir de então saberiam o lugar de cada uma das outras coisas e tudo seria diferente.

Parece que esquecemos a condição básica da vida, à qual todos estamos sujeitos, além de botar medo em qualquer peixe grande: as coisas tem começo, meio e fim; e mais: seus caminhos e resultados dependem diretamente do que lhes é posto como ponte para atravessar.

Não é a toa que Einstein é um gênio… relatividade é o conceito mais verdadeiro quando falamos de mundo e de pessoas, nada é tão exato, talvez nem mesmo as ciências exatas sejam! Cada um tem seu histórico de vida e é isso que vai definir o que vão fazer, pensar e sentir e a partir de cada pequeno resultado serão criados outros começos, outros meios e outros fins e a roda não para de girar.

“Nada acontece por acaso” é uma frase para ser tatuada no dedo indicador.

É preciso contextualizar a vida.