O destino das malas

Reprodução / Internet

Reprodução / Internet

Minha mãe diz que quando uma coisa tem que acontecer, não tem jeito, ela acontece. Em parte, não compartilho desta opinião. A meu ver, não acho que nosso destino esteja inteiramente entregue nas mãos do Destino. Creio que nossas mãozinhas também somem forças para o empurrão – seja ladeira abaixo, seja ladeira acima. Exemplo: se eu me arrojar de paraquedas quatro vezes ao dia, claramente estou aumentando a probabilidade de sofrer um desastre. “Ah, meu filho, solte quantas vezes você quiser. Se tiver que acontecer alguma coisa, o teu destino poderá ser um atropelamento na rua.” Sim, é possível, sobretudo em nosso trânsito delinquente. Mas meu argumento é simples: o ato de atravessar uma rua não altera em nada as estatísticas do paraquedismo. E a negativa, segundo minha mãe, também é válida: se a coisa não tem que acontecer, não adianta, nada acontece. Pois não é que em um mesmo dia eu fiz quase tudo para que nossas malas fossem extraviadas, mas não foram.

Na rodoviária, as malas despachadas, aguardávamos negligentemente, do lado de fora do ônibus, a partida para Guarulhos. Distraímos conversando quando, num piscar de olhos, o ônibus já havia dado marcha a ré e embicado para a saída. Saí gritando como um louco para interceptar o veículo. Recebi de bom grado a justa reprimenda do motorista. Perdêssemos o ônibus, haveria outras maneiras de chegar ao aeroporto. Mas e as malas?…

Chegando cedo a Guarulhos, fomos matar o tempo enquanto não havia guichês responsáveis pelo nosso voo. Ainda que precária, uma bookstore de aeroporto é melhor do que nada. Em seguida, naturalmente, fui tomar um frappé de café e deixei o tempo passar imerso na minha leitura de então. Ao primeiro cochilo, levantei-me para despachar as malas. Que malas? Onde está o carrinho com as malas? Levaram daqui? Mas elas não estavam aqui… Corri à livraria e lá estavam elas na entrada, intactas. Nem o iPad me aliviaram.

Aterrissamos em Natal. Nossa aeronave era a única a taxiar no novíssimo aeroporto, um elefante branco no meio do nada, ou das dunas. Acostumado com o formigueiro de Congonhas e Guarulhos, foi uma experiência única ter um aeroporto inteiro praticamente só para mim. A meio caminho entre a aeronave e a esteira rolante, paramos para trocar a fralda de nossa filha. Demoramo-nos pouco tempo, mas o suficiente para um funcionário do aeroporto deduzir – sabe-se lá com que linha de raciocínio – que nossas malas eram extraviadas e deveriam ser recolhidas para averiguação. Impedi a ação a tempo e resgatei as malas.

Enfim, foi essa pequena sucessão de incidentes prosaicos que me fez ponderar a máxima da minha mãe (e de tantos outros). Tudo na vida já me estaria predestinado? Bom, de um jeito ou de outro, continuarei tentando interferir o máximo que posso. E que eu me livre dos paraquedas!

Anúncios

Uma resposta para “O destino das malas

  • Andrea Borges

    Hahahahaha…. Afff! Nem me lembra!!! Realmente não sei como não ficamos sem nossas malas nesse dia. Depois de tantos aperreios… rs.

    Também não acredito em destino pré traçado. Certamente existe um plano a seguir, porém o livre arbítrio é nosso. Portanto somos responsáveis pelas nossas próprias ações e consequências delas. 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: