O corcunda da sala

Nada como a crônica para despejar nossos traumas infantis. A começar pelo Rubem Braga, que escreveu sobre o vexame que passou por conta de uma redação escolar. Nelson Rodrigues falou sobre a inveja que sentia dos colegas que tinham pão com ovo como merenda. Carlos Heitor Cony narrou os episódios decorrentes da sua gagueira. Clarice Lispector contou sobre a menina que prometeu lhe emprestar “Reinações de Narizinho” e nunca emprestava. Não seria diferente comigo: também tenho cá os meus traumas, ou, pelo menos, a lembrança deles. E como é sinal de prestígio confessar ter sido vítima de bullying na infância, também eu quero fazer aqui o meu protesto, na esperança de que, futuramente, isso possa me trazer manifestações de solidariedade, ou mesmo de perdão, diante de alguma falta que por acaso eu vier a cometer.

Pois bem: acontece que tenho um problema na coluna, que não sei o nome e, honestamente, não me interessa saber – tenho, pois, o problema. Um dia o ortopedista me mostrou um raio X e provou por A mais B que a minha coluna era um S. E então sentenciou gravemente: “Trate de estudar bastante, para não precisar fazer trabalho pesado”. Ora, se havia uma coisa que eu sabia desde a minha mais tenra idade é que não me agradava fazer trabalho pesado. Passei a ter então uma recomendação médica para isso, coisa que venho respeitando com notável dedicação.

Mas isto, é claro, não resolvia o aspecto mais visível do problema, que era, e continua sendo, o de andar mais curvado que a maioria das pessoas. Como na escola qualquer pinta vira logo um caroço, é de se imaginar o destino que me coube: virei o corcunda da sala. Contribuiu para isso a péssima ideia da Disney em fazer uma versão em desenho do Corcunda de Notre Dame, uma história que, no original de Victor Hugo, sequer leva o corcunda no título. Crianças que, até então, jamais souberam o que era um corcunda, passaram a identificar no pobre Quasimodo características que já haviam visto em mim. Trataram de exagerá-las e estava feito meu apelido.

Chamavam-me, portanto, de corcunda. Alguns refinavam um pouco mais a maldade e falavam que eu tinha uma barriga nas costas. Havia mais algumas variações que não me recordo. Eu nem ao menos podia me vingar arrumando apelidos para as outras crianças, e por dois motivos: primeiro que dificilmente eles seriam tão acertados quanto o meu; e segundo que eu não era mau o bastante para isso. Devia até retrucar de vez em quando, mas na maioria das vezes ficava calado. Sofria, naturalmente. Pisava em ovos: qualquer bobagem que eu dissesse ou fizesse, lá vinha alguém lembrar da minha triste condição: “Ê, Corcunda de Notre Dame!”.

Foi assim enquanto éramos crianças e ainda falávamos o que pensamos uns dos outros. Depois crescemos e aprendemos com os adultos a dissimular, a criar apelidos apenas na ausência das pessoas. Talvez eu ainda sofra reflexos daquele tempo, embora não guarde nenhuma espécie de mágoa e não tenha nenhum desejo de vingança – portanto, não esperem que um dia eu volte ao colégio para matar todo mundo. Em geral, essas crianças se vingam nelas mesmas. E o fato de virar um escritor introvertido não é prova de outra coisa.

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