Arquivo do mês: maio 2015

Hipérbole

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Até o fim do mundo, com cães nos calcanhares e fogo pelos ares ele iria atrás do amor dela. Nadando através dos frios mares, correndo pelas florestas escuras, enfrentando toda sorte de desastres, ele perseguiria com ardor o restante precioso do pouco que provou. Gelo, neve, tempestades. Nenhuma fúria divina seria capaz de detê-lo em sua odisséia pela Helena de seus sonhos, amada Dulcinéia, terna e casta Cleopátra cigana. Fechada a porta atrás de si, armas em punho para a busca, ele põe o pé direito rua a fora. O sinal estava vermelho. Foi quando viu, pelo canto do olho desatento, uma bela cabeleira loira se agitar com o vento. E de repente a aventura de um amor indefinível ficou esquecida na sarjeta da calçada enquanto os passos incertos dele seguiam um aroma provocantemente desconhecido. O amor é, por vezes, só uma história exagerada.

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Para além da sala de aula

Estou numa aula em que o professor faz questão de fazer a chamada. Sou a terceira da lista, então, minha liberdade chega mais cedo. Mas, não. Haverá outra chamada, ao fim da segunda aula. Não estou mais no colégio, mas o professor não percebeu.

O nível de atenção é baixo, quase inexistente. De alma presente mesmo, talvez nem o mestre, que no momento está concentrado como nunca em cantar a sequência de nomes: Beatriz, Bernardo, Denis, Delcídio, Dione, Estela, Fabio…

Antes de voltar a pegar no sono na carteira, eu checo a previsão do tempo no celular. Amanhã vai fazer mais frio. Estarei de folga, mas quem disse que sairei debaixo dos lençóis? O colega está com o laptop aberto e de tempos em tempos digita freneticamente. No Facebook. Do seu lugar, atrás da mesa, o professor imagina que o cidadão toma notas – quem dirá que ele está de todo errado?

O intervalo chega, afinal. Além do café mal-passado na cantina com o pão de queijo frio, todos evitam o mestre no desjejum. Ele senta-se sozinho com os livros, apostilas e testes e nem um puxa-saco que seja o procura. Todos já pagaram sua cota de pecados quando soou o sinal das nove horas.

Nove e meia o sinal bate novamente. A turma volta a se reunir. Um professor de camisa desgastada, bermuda cargo e chinelos havaianas tem a palavra. A turma interage, toma notas, tira dúvidas do trabalho e quase que impede o legítimo direito daquele trabalhador da educação de almoçar. É sábado, mas quem se lembra? Também ninguém, seja mestre ou alunos, propõe que se faça a chamada.

O profissional do primeiro horário não acredita que isso aconteça de verdade – se acontece, é porque o outro professor fica contando piadas, causos, certamente não está cumprindo o conteúdo. O primeiro também está convencido de que conseguiu impedir que os alunos fraudem, e isso é muito importante, a presença no curso. A universidade concorda, para ela a lista basta – aliás, a lista e a prova com a nota igual a média já é o suficiente.  Se ninguém tira nota acima da média é porque não se esforça e se há tantos que conseguem na aula seguinte é porque o colega é um irresponsável e um permissivo – que também entrega a lista de presença, pro-forma, que seja, mas é o suficiente pra secretaria da faculdade.

A gente sai da escola, mas a escola não sai de nós. A lista de chamada (vulgo cartão de ponto), a média pra passar de ano (a.k.a burocracia diária) e a sensação de que ainda falta muito pra um recreio que mal começa e já termina.

 

PS. Eu sei que ninguém precisa dos outros dizendo que as coisas não estão fáceis, mas é que por pra fora é preciso, minha gente.


Lira paulistana

E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminho sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muitos rostos e caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. Apenas os cruzamentos me traem: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou um quatrocentão, mais velho que os prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. E pensar que houve um tempo em que até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nem nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões e, para evitar que nos esmaguemos e pisemos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre na escada rolante. Jamais ocorreria pedir que não tivéssemos tanta pressa. Se assim fosse, acabaríamos atraídos pelas melodias de um pianista, inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço em um ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

De volta às ruas, tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Há sempre alguém querendo chegar a algum lugar que não sabe onde fica. Dirigem-se também a mim, que lhes apresento o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o uso para dispensar a garota que me oferece canetas e chaveiros para ajudar alguma causa. Acho muito caro e não compro. Mas tenho pena da garota que, no meio da praça pouco movimentada, arruma coragem para abordar aqueles que mais têm cara de cristãos – e eles não compram. E continuo meu caminho, somando esta às outras tristezas que carrego comigo.

Chego à Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em toda parte, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, meu trisavô, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar parece impossível. Aproveito para entrar na igreja e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham – sem dúvida, uma grande consolação.

Percebo, não sem satisfação, que em São Paulo a sombra é inevitável – os prédios a garantem. Está uma manhã de sol pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e descubro, meio contrafeito, que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, aguardo o primeiro pedinte, que já se aproxima.

Leia também: Pauliceia desvairada


Com a boca na botija – Parte 1

A sensação que tenho é que fui escolhido para ser a única criança no mundo a ser pega em flagrante delito. É verdade: bem sabemos que um ou outro guri volta e meia é pego. Então digamos que a minha sensação seja a de que nunca me safei de um crime. Nunca. E para não dizer impossível, creio que este seja um fenômeno dificílimo de ocorrer. Creio profundamente.

Costumava declinar das ousadas tramas infantis. Meu negócio era brincar dentro dos limites da lei – mesmo não sabendo exatamente do que tratava a lei. Hoje penso que minha postura talvez tivesse a ver com a ética e a moral. Às vezes repenso e concluo que fosse produto de puro cagaço. Ética ou paúra ou as duas coisas juntas, o fato é que em todas as vezes que me juntei ao bando, me dei mal sozinho. Nesse sentido, tenho algumas desventuras para contar, crônicas para escrever. Hoje confessarei o primeiro crime que me vem à lembrança: roubar uvas na parreira da vizinha.

A partir do despontar do primeiro cacho, estava aberta a temporada de furtos. Num primeiro momento, a gurizada subia no muro e arrancava as frutas lá de cima. Então esgotadas, invadiam a propriedade alheia para ter a acesso à totalidade da parreira. Eu diariamente era assediado para fazer parte do esquema. Era tudo muito bem planejado, desde os olheiros que tomavam conta das portas laterais, passando por aqueles que faziam o “pezinho”, e terminando com os apanhadores de cachos. Plano executado, os membros da quadrilha se reuniam para repartir os suculentos cachos de uva verde, pequenina, deliciosa. Eu observava tudo, babando. Um ou outro guri se sensibilizava e me dava a sua metade. Hoje penso se tal conduta não seria um rodízio para me subornar, fechar meu bico.

Um belo dia – esses dias são sempre belos, ou até por isso mesmo – acordei com uma resolução inabalável: “vou trepar no muro, pular para o interior do pátio, e limpar a parreira! Ah, se vou!” Saí à rua e contei a novidade aos guris. “Ora, ora, Netinho, que bicho te mordeu?” Eu preferiria que não fizessem gozação, mas a verve infantil é consagrada e infalível. Assimilei as piadas o melhor que pude e decretei, peito estufado: “estou preparado!”


Desenlouquecendo

Quando comecei meus atrevimentos de escrita, não entendia bem o que aquilo significava – para mim e para as outras pessoas ao meu redor, nem mesmo enxergava onde gostaria de chegar com tudo o que fazia. Passei por muitas palavras desacreditadas, tratei a mim mesma como segundo plano. Ser chamada de escritora sempre foi um disparate no meu ponto de vista, estando eu na posição em que estava: de escrever amadoramente.

Até o dia em que me perguntaram por quê eu escrevia, se havia tantas coisas mais visadas e que interessavam e que davam mais dinheiro. Se eu era uma secretária tão boa, por que resolvi escrever?

– Porque sim.

– Porque gosto.

– Porque eu quero.

– Não te interessa.

Essas eram respostas plausíveis para o momento, mas não me fiei a nenhuma delas porque, no fundo, nenhuma dizia exatamente a verdade. Pensei em quantas coisas eu já realizava e em como elas eram densas, que não havia, na verdade, algo que me fizesse sorrir de maneira pura e – por que não? – brilhar meu próprio brilho. Descobrir as palavras que brotavam em mim foi o primeiro passo para entender que não aquilo fazia parte de mim, mas como eu também fazia parte daquele todo.

Então entendi qual era a resposta correta a se dar e a partir de então tudo passou a fazer mais sentido: é preciso fazer algo que nos deixe sãos, por que o mundo se encarrega de nos enlouquecer gratuitamente.


Partitura

Gustave_Courbet_-_Le_Désespéré_(1843)

Ele chegou em casa certa tarde como as outras. Pegou o violão e sentou se aos pés da cama sem pensar. Quando posicionou-se pensando em Villa Lobos percebeu que não sabia o que fazer. Franziu o cenho e mudou o instrumento de posição. Nada lhe era familiar. Entre incompreendido e horrorizado, esticou as mãos frente aos olhos, tentando encontrar sinais de degeneração. Pensando em tratar-se de um pesadelo irreal, foi ao banheiro e lavou o rosto na água fria. Ao olhar-se no espelho constatou abismado que suas órbitas estavam ocas e seus ouvidos começavam a sumir.


Pai, reforça em mim esse cale-se!

Sempre que falo às pessoas que não assisto tevê, não vejo ou leio jornais, uma cara de espanto surge quase de imediato. “E você não se informa?”, é a pergunta que aparece logo em seguida, enquanto a cara desacreditada cria raízes no meu interlocutor.

Dentro da minha cabeça as palavras voam de vontade de serem ditas, um furacão de respostas nasce e tenta devorar todo o meu bom senso e educação.

– Tá maluco?? Faz muito tempo que tevê e jornais não são fontes de informação confiáveis a ponto de viver com base apenas no que elas dizem! Uma boa conversa hoje em dia diz muito mais sobre a nossa sociedade, sobre o nosso futuro do que um programa televisivo, em que pautas são escolhidas, estudadas, modeladas para que então a minha cabeça seja escolhida, estudada e modelada. Não! Não assisto tevê, não escuto rádio, não leio jornais ou revistas, sejam elas de direita ou esquerda e, diga-se de passagem, esse é o exato motivo pelo qual não me valho de nenhum deles para formar minha opinião: em sua grande maioria são laterais e oportunistas, jogam de acordo com o que lhe dá mais retorno e não com o que é justo por definição. Aliás, veja outro motivo que me afasta cada dia mais desses meios de comunicação: conceitos como justiça e igualdade são tratados desvirtuadamente, enganando os interlocutores com discursos pomposos e vazios. Não vejo tevê porque só mostram o que lhes interessa, ressaltam as desgraças que já vejo todos os dias mas sob um olhar cotidiano, porque é assim que tratam os problemas: como só mais um. Eu vou atrás do que traga resposta às minhas dúvidas, solução reais e possíveis para os problemas e, sinceramente, não é uma equipe de redação que fará isso…

Mas então respondo que “não, eu me informo pela internet…”