Hipérbole

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Até o fim do mundo, com cães nos calcanhares e fogo pelos ares ele iria atrás do amor dela. Nadando através dos frios mares, correndo pelas florestas escuras, enfrentando toda sorte de desastres, ele perseguiria com ardor o restante precioso do pouco que provou. Gelo, neve, tempestades. Nenhuma fúria divina seria capaz de detê-lo em sua odisséia pela Helena de seus sonhos, amada Dulcinéia, terna e casta Cleopátra cigana. Fechada a porta atrás de si, armas em punho para a busca, ele põe o pé direito rua a fora. O sinal estava vermelho. Foi quando viu, pelo canto do olho desatento, uma bela cabeleira loira se agitar com o vento. E de repente a aventura de um amor indefinível ficou esquecida na sarjeta da calçada enquanto os passos incertos dele seguiam um aroma provocantemente desconhecido. O amor é, por vezes, só uma história exagerada.

Para além da sala de aula

Imagem:  https://www.flickr.com/photos/aliarda/
Imagem: https://www.flickr.com/photos/aliarda/

Estou numa aula em que o professor faz questão de fazer a chamada. Sou a terceira da lista, então, minha liberdade chega mais cedo. Mas, não. Haverá outra chamada, ao fim da segunda aula. Não estou mais no colégio, mas o professor não percebeu.

O nível de atenção é baixo, quase inexistente. De alma presente mesmo, talvez nem o mestre, que no momento está concentrado como nunca em cantar a sequência de nomes: Beatriz, Bernardo, Denis, Delcídio, Dione, Estela, Fabio…

Antes de voltar a pegar no sono na carteira, eu checo a previsão do tempo no celular. Amanhã vai fazer mais frio. Estarei de folga, mas quem disse que sairei debaixo dos lençóis? O colega está com o laptop aberto e de tempos em tempos digita freneticamente. No Facebook. Do seu lugar, atrás da mesa, o professor imagina que o cidadão toma notas – quem dirá que ele está de todo errado?

O intervalo chega, afinal. Além do café mal-passado na cantina com o pão de queijo frio, todos evitam o mestre no desjejum. Ele senta-se sozinho com os livros, apostilas e testes e nem um puxa-saco que seja o procura. Todos já pagaram sua cota de pecados quando soou o sinal das nove horas.

Nove e meia o sinal bate novamente. A turma volta a se reunir. Um professor de camisa desgastada, bermuda cargo e chinelos havaianas tem a palavra. A turma interage, toma notas, tira dúvidas do trabalho e quase que impede o legítimo direito daquele trabalhador da educação de almoçar. É sábado, mas quem se lembra? Também ninguém, seja mestre ou alunos, propõe que se faça a chamada.

O profissional do primeiro horário não acredita que isso aconteça de verdade – se acontece, é porque o outro professor fica contando piadas, causos, certamente não está cumprindo o conteúdo. O primeiro também está convencido de que conseguiu impedir que os alunos fraudem, e isso é muito importante, a presença no curso. A universidade concorda, para ela a lista basta – aliás, a lista e a prova com a nota igual a média já é o suficiente.  Se ninguém tira nota acima da média é porque não se esforça e se há tantos que conseguem na aula seguinte é porque o colega é um irresponsável e um permissivo – que também entrega a lista de presença, pro-forma, que seja, mas é o suficiente pra secretaria da faculdade.

A gente sai da escola, mas a escola não sai de nós. A lista de chamada (vulgo cartão de ponto), a média pra passar de ano (a.k.a burocracia diária) e a sensação de que ainda falta muito pra um recreio que mal começa e já termina.

 

PS. Eu sei que ninguém precisa dos outros dizendo que as coisas não estão fáceis, mas é que por pra fora é preciso, minha gente.

Lira paulistana

E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminho sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muitos rostos e caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. Apenas os cruzamentos me traem: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou um quatrocentão, mais velho que os prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. E pensar que houve um tempo em que até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nem nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões e, para evitar que nos esmaguemos e pisemos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre na escada rolante. Jamais ocorreria pedir que não tivéssemos tanta pressa. Se assim fosse, acabaríamos atraídos pelas melodias de um pianista, inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço em um ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

De volta às ruas, tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Há sempre alguém querendo chegar a algum lugar que não sabe onde fica. Dirigem-se também a mim, que lhes apresento o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o uso para dispensar a garota que me oferece canetas e chaveiros para ajudar alguma causa. Acho muito caro e não compro. Mas tenho pena da garota que, no meio da praça pouco movimentada, arruma coragem para abordar aqueles que mais têm cara de cristãos – e eles não compram. E continuo meu caminho, somando esta às outras tristezas que carrego comigo.

Chego à Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em toda parte, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, meu trisavô, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar parece impossível. Aproveito para entrar na igreja e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham – sem dúvida, uma grande consolação.

Percebo, não sem satisfação, que em São Paulo a sombra é inevitável – os prédios a garantem. Está uma manhã de sol pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e descubro, meio contrafeito, que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, aguardo o primeiro pedinte, que já se aproxima.

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Com a boca na botija – Parte 1

A sensação que tenho é que fui escolhido para ser a única criança no mundo a ser pega em flagrante delito. É verdade: bem sabemos que um ou outro guri volta e meia é pego. Então digamos que a minha sensação seja a de que nunca me safei de um crime. Nunca. E para não dizer impossível, creio que este seja um fenômeno dificílimo de ocorrer. Creio profundamente.

Costumava declinar das ousadas tramas infantis. Meu negócio era brincar dentro dos limites da lei – mesmo não sabendo exatamente do que tratava a lei. Hoje penso que minha postura talvez tivesse a ver com a ética e a moral. Às vezes repenso e concluo que fosse produto de puro cagaço. Ética ou paúra ou as duas coisas juntas, o fato é que em todas as vezes que me juntei ao bando, me dei mal sozinho. Nesse sentido, tenho algumas desventuras para contar, crônicas para escrever. Hoje confessarei o primeiro crime que me vem à lembrança: roubar uvas na parreira da vizinha.

A partir do despontar do primeiro cacho, estava aberta a temporada de furtos. Num primeiro momento, a gurizada subia no muro e arrancava as frutas lá de cima. Então esgotadas, invadiam a propriedade alheia para ter a acesso à totalidade da parreira. Eu diariamente era assediado para fazer parte do esquema. Era tudo muito bem planejado, desde os olheiros que tomavam conta das portas laterais, passando por aqueles que faziam o “pezinho”, e terminando com os apanhadores de cachos. Plano executado, os membros da quadrilha se reuniam para repartir os suculentos cachos de uva verde, pequenina, deliciosa. Eu observava tudo, babando. Um ou outro guri se sensibilizava e me dava a sua metade. Hoje penso se tal conduta não seria um rodízio para me subornar, fechar meu bico.

Um belo dia – esses dias são sempre belos, ou até por isso mesmo – acordei com uma resolução inabalável: “vou trepar no muro, pular para o interior do pátio, e limpar a parreira! Ah, se vou!” Saí à rua e contei a novidade aos guris. “Ora, ora, Netinho, que bicho te mordeu?” Eu preferiria que não fizessem gozação, mas a verve infantil é consagrada e infalível. Assimilei as piadas o melhor que pude e decretei, peito estufado: “estou preparado!”

Desenlouquecendo

Quando comecei meus atrevimentos de escrita, não entendia bem o que aquilo significava – para mim e para as outras pessoas ao meu redor, nem mesmo enxergava onde gostaria de chegar com tudo o que fazia. Passei por muitas palavras desacreditadas, tratei a mim mesma como segundo plano. Ser chamada de escritora sempre foi um disparate no meu ponto de vista, estando eu na posição em que estava: de escrever amadoramente.

Até o dia em que me perguntaram por quê eu escrevia, se havia tantas coisas mais visadas e que interessavam e que davam mais dinheiro. Se eu era uma secretária tão boa, por que resolvi escrever?

– Porque sim.

– Porque gosto.

– Porque eu quero.

– Não te interessa.

Essas eram respostas plausíveis para o momento, mas não me fiei a nenhuma delas porque, no fundo, nenhuma dizia exatamente a verdade. Pensei em quantas coisas eu já realizava e em como elas eram densas, que não havia, na verdade, algo que me fizesse sorrir de maneira pura e – por que não? – brilhar meu próprio brilho. Descobrir as palavras que brotavam em mim foi o primeiro passo para entender que não aquilo fazia parte de mim, mas como eu também fazia parte daquele todo.

Então entendi qual era a resposta correta a se dar e a partir de então tudo passou a fazer mais sentido: é preciso fazer algo que nos deixe sãos, por que o mundo se encarrega de nos enlouquecer gratuitamente.

Partitura

Gustave_Courbet_-_Le_Désespéré_(1843)

Ele chegou em casa certa tarde como as outras. Pegou o violão e sentou se aos pés da cama sem pensar. Quando posicionou-se pensando em Villa Lobos percebeu que não sabia o que fazer. Franziu o cenho e mudou o instrumento de posição. Nada lhe era familiar. Entre incompreendido e horrorizado, esticou as mãos frente aos olhos, tentando encontrar sinais de degeneração. Pensando em tratar-se de um pesadelo irreal, foi ao banheiro e lavou o rosto na água fria. Ao olhar-se no espelho constatou abismado que suas órbitas estavam ocas e seus ouvidos começavam a sumir.

Pai, reforça em mim esse cale-se!

Sempre que falo às pessoas que não assisto tevê, não vejo ou leio jornais, uma cara de espanto surge quase de imediato. “E você não se informa?”, é a pergunta que aparece logo em seguida, enquanto a cara desacreditada cria raízes no meu interlocutor.

Dentro da minha cabeça as palavras voam de vontade de serem ditas, um furacão de respostas nasce e tenta devorar todo o meu bom senso e educação.

– Tá maluco?? Faz muito tempo que tevê e jornais não são fontes de informação confiáveis a ponto de viver com base apenas no que elas dizem! Uma boa conversa hoje em dia diz muito mais sobre a nossa sociedade, sobre o nosso futuro do que um programa televisivo, em que pautas são escolhidas, estudadas, modeladas para que então a minha cabeça seja escolhida, estudada e modelada. Não! Não assisto tevê, não escuto rádio, não leio jornais ou revistas, sejam elas de direita ou esquerda e, diga-se de passagem, esse é o exato motivo pelo qual não me valho de nenhum deles para formar minha opinião: em sua grande maioria são laterais e oportunistas, jogam de acordo com o que lhe dá mais retorno e não com o que é justo por definição. Aliás, veja outro motivo que me afasta cada dia mais desses meios de comunicação: conceitos como justiça e igualdade são tratados desvirtuadamente, enganando os interlocutores com discursos pomposos e vazios. Não vejo tevê porque só mostram o que lhes interessa, ressaltam as desgraças que já vejo todos os dias mas sob um olhar cotidiano, porque é assim que tratam os problemas: como só mais um. Eu vou atrás do que traga resposta às minhas dúvidas, solução reais e possíveis para os problemas e, sinceramente, não é uma equipe de redação que fará isso…

Mas então respondo que “não, eu me informo pela internet…”

Grandes Sertões: Taubaté

taubate

É sabido que uma das mais nobres funções dos imperadores era a de dormir nas cidades por onde passavam. Assim fez Dom Pedro I em Taubaté, por uma única noite, em agosto de 1822, poucos dias antes de proclamar a Independência do Brasil. Modéstia à parte, eu estou em vantagem, pois, em duas passagens pela cidade, já somei sete noites dormidas. Verdade que não proclamei coisa alguma depois de sair de lá, mas é preciso que se diga que também não havia mais o que proclamar.

Um ano antes da vinda do imperador, o francês Arnaud Pallière desenhou um mapa da cidade. É a ele que recorro na tentativa de identificar a antiga Rua do Meio, onde meus ancestrais moravam nos anos 1700. Chamava-se assim porque, nos primórdios da povoação, eram apenas cinco as ruas, e uma delas havia, forçosamente, de ficar ao meio. É pouco provável que, com tão poucas ruas, os taubateanos daquele tempo se dedicassem a acalorados debates sobre mudanças de mão, como ocorre hoje em dia.  Com o tempo surgiram novas ruas e a Rua do Meio, não ficando mais ao meio, teve seu nome alterado para Rua do Comércio. É um nome bem expressivo e revelador do que se deve esperar da rua, mas não é um nome que lisonjeie ninguém, de modo que foi preciso alterá-lo novamente, dessa vez para Duque de Caxias, que é como a rua é conhecida até hoje, embora, à boca pequena, seja a Rua das Noivas.

Nessa rua, minha não-sei-quanto-avó Catharina Garcia de Unhatte tinha “dois lanços de casa de taipa de pilão de telha”. Custo a acreditar que algum dia tenha existido algo assim, na Rua do Meio ou em outra parte de Taubaté. Não sei em que altura da rua ela morava, mas sei onde os seus restos mortais continuam morando: no Convento de Santa Clara, que é aonde se chega ao terminar de percorrer a rua.

Tentei de todos os modos ingressar no Convento, se é que vocês me entendem, mas as portas estavam fechadas. Resolvi fazer uma visita então ao cemitério logo ao lado, até para descobrir qual é a menina morta na flor da idade que se venera como santa em Taubaté, pois cada cidade deve ter a sua (chama-se Olga Guedes Tavares). Em frente ao Convento encontrei um busto em homenagem “ao inesquecível Josef Studenick, pioneiro industrial no Vale do Paraíba”, e que, não obstante essa inscrição, já está praticamente esquecido, a julgar pela quantidade de galhos de árvores que lhe cobrem a fronte.

Ao voltar para a parte mais central da cidade, descobri a Rua Bispo Rodovalho, coisa que me pareceu muito estranha, pois o Bispo Rodovalho continua bem vivo em Brasília e, além do mais, sequer existe uma igreja Sara Nossa Terra em Taubaté. De lá alcancei a igreja de São Francisco das Chagas, a primeira da cidade, cujo interior se destaca pela profusão de imagens e ventiladores. Vi, enternecido, muitas manifestações de fé, mas o diabo, que anda em derredor bramando como leão, soprou-me no ouvido que aquela era a terra em que o Verissimo botou uma velhinha que, de tão crédula, acreditava até no governo. Depois procurei uma tal de Bica do Bugre, pois quem bebe de sua água voltará um dia a Taubaté. Não encontrei, como o próprio Dom Pedro não deve ter encontrado, mas dou como cumprido o seu vaticínio.

Esses dois… Vou te contar!

Há alguns anos venho convivendo com dois tipos curiosos. Não posso dizer que tenha sido uma convivência das mais amistosas, entretanto está bem longe do que se poderia chamar hostil. E, além do mais, com o passar do tempo fui conhecendo melhor a essência de cada um, seus fortes e fracos. Embora nós três exerçamos a mesma profissão, nos conhecemos fora do ambiente profissional, mas ainda assim dentro de um ambiente de trabalho, trabalho duro.

O primeiro, com exceção da cor dos olhos, é fisicamente bem parecido comigo: branco e magricela. E, assim como eu, tolera baixas temperaturas sem outras proteções que não o exíguo panículo adiposo. O frio, até certo ponto, é psicológico – concordamos. O segundo, apesar dos meus 1,84 m, olha-me de cima para baixo: trata-se do popularmente conhecido como dois de altura por dois de largura, um negro musculoso de rosto fino. Sua manopla cinge completamente meu pescoço, capaz de pulverizar minhas vértebras cervicais com a mesma facilidade com que eu quebro um palito de dentes.

O magrelo detesta literatura. Tentar puxar assunto com ele nesse sentido é perda de tempo. Prefere passar boa parte do tempo fechado em seus pensamentos, em filosofias. Eu confesso: também penso bastante; mas como um artista, um cronista, não um filósofo. Ah, gosto de vê-lo fumar. O manejo do cigarro e os modos de tragar trazem uma elegância que me lembra dos meus idos tempos de tabaco. Satisfaço-me em vê-lo manusear o cigarro e estou imune à tentação, pois, além de ter uma filha para criar, tenho uma pilha estratosférica de livros a ler antes de morrer – preciso de tempo. Ademais, identifico-me com uma certa melancolia que traz no espírito, e com alguma coisa mal resolvida na sua infância.

O fortão é poeta, músico e fisiculturista. Posso dizer com segurança que temos gostos literários afins e que nossa poética se mostra convergente. Somos, no mesmo grau extremo de submissão, escravos da boa literatura – bibliófilos em estado patológico. Confessou-me, certa vez, que estava escrevendo um romance, mas que não seria possível sua publicação por motivos que a princípio não queria expor – ao confessar, suas pálpebras tombaram sob o peso da consternação e da resignação. Pobre coitado. No mais, nunca formaríamos uma dupla musical; e halteres, definitivamente, jamais fizeram a minha cabeça, nem meus músculos.

Bom, o primeiro chama-se Paolo, o segundo, Antônio. E se eu continuar nessa toada e me aprofundar em suas naturezas – sobretudo na do poeta Tony Goldman –, fatalmente me tornarei um spoiler do meu próprio romance.

www.clubedeautores.com.br
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“Mad men” está morta. Vida longa a “Mad men”

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Gosto de séries americanas. Já gostava delas antes mesmo da TV americana se transformar na mais exponencial e ungida forma de arte contemporânea. Naturalmente, passei a gostar mais das séries americanas a reboque dos novos tempos.

No último fim de semana, acabou a série que é, mais para o bem do que para o mal, o cartão postal desta nova era de ouro da TV americana. Após sete temporadas, “Mad men”, chegou ao fim. Você já deve ter ouvido falar da série. Se não ouviu. Vá atrás. Não é uma série para “guilty pleasure” ou para “se conhecer”. É uma série que referenda a alcunha de arte que andam aferindo à TV americana. “Mad men”, em termos de sinopse, retrata a América da década de 60 por meio da efervescência da publicidade, que marcou a época e redefiniu valores. Nos detalhes, é muito mais do que isso. É uma vigorosa crônica dos costumes americanos de então e de hoje. É, também, uma análise demorada, desromantizada e algo soturna do sonho americano, do “self made man”.

“Mad men”, ao longo de seus sete anos, se firmou como um testamento do fomento da sociedade que formamos hoje. É, em seus episódios e no todo, uma aula de como se servir da ficção para esmiuçar a realidade. Visitar o passado e estudá-lo, de forma minuciosa e imaginativa.  A série virou uma inusitada coqueluche. Do culto a Don Draper, o protagonista vivido pelo excelente Jon Hamm, aos figurinos, passando por tornar a publicidade, e os anos 50 e 60, sexy novamente.

O último episódio, como não poderia deixar de ser, foi uma aula de dramaturgia. Teve jeitão de fim da novela das nove, mas com mais sofisticação e divagação do que a comparação enuncia. Foi um fim que legitima o todo construído pelo roteirista, criador e showrunner Matthew Weiner. Mas acima de tudo foi o fim de algo que ainda não podemos mensurar. “Mad men”, mais do que qualquer outra série, elevou a TV à forma de arte.  Um legado e tanto e que, em um desses paradoxos que embelezam a vida, fica a perigo com sua despedida.

Cores de uma nova canção

Bogota por Hache
Imagem por Hache Ortiz Pics

Pisei num país florido ao ouvir da boca de um desconhecido as cores vivas com que pinta um lugar mal dizido. Fechei os olhos e aspirei o aroma quente das pessoas sorridentes ainda que sofridas. Senti na pele a efervescência dos sons que cantam a melancolia dos olhos e ressaltam a força dos acuados que não deixam de sonhar. Encantada e sorrindo, abracei Bogotá.

quem vai, quem fica

Milhares de pessoas nos cercam, e outras milhares nunca teremos a chance de conhecer, nem mesmo cruzando a rua às pressas. Não sabemos a quê elas vêm, porque elas se vão. Muitas vezes não percebemos se estão felizes, tristes, satisfeitas ou na deprê. Também sequer nos importamos…

Algumas são diferentes, brilham em dias nublados, chovem em tardes de sol: não fazem esforço pela nossa atenção, simplesmente são. E essas pessoas quando vem, raramente se vão, porque não é preciso esforço para cultivá-las, elas florescem sozinhas e perfumam nosso dia.

E quando uma delas se instala em nossas vidas, é a glória da conquista do campeonato: invictos!, gritamos ao vento, loucos de alegria pelo presente dado gratuitamente, e no que depender de nós, eterno. Tenho muitas instaladas no meu passado, que passam pelo presente e que ficaram para o futuro.

Feliz sou eu.

Pauliceia desvairada

sao paulo

“Só se vê prédio e casa. De natureza mesmo, só tem as nuvens. E aquelas montanhazinhas”. Assim observou a adolescente sentada à minha frente enquanto nos preparávamos para pousar em São Paulo. Sem dúvida ela achou que seria uma condescendência muito grande incluir o rio Tietê, também visível ali de cima, entre as obras da natureza na capital paulista. Cheguei até mesmo a ouvir uma conversa questionando se era realmente água aquele negócio preto que enxergávamos lá embaixo. A adolescente reparou ainda na poluição. Fez questão de mostrar a névoa escura para sua amiga. Esta, limitou-se a responder: “Tenso, véi!”.

Eu chegava a São Paulo de passagem, pois pretendia seguir até o Tietê – o terminal, não o rio – e lá pegar um ônibus que me levasse até Taubaté, onde tenho um pai. Achei que fosse coisa simples ir de Congonhas para lá, mas a verdade é que não há nenhuma ligação via metrô. Animei-me a pegar um ônibus, e é preciso que se diga o que acontece em São Paulo aos recém-chegados que decidem pegar um ônibus. O primeiro desafio consiste em encontrar a parada, pois não existe um abrigo e nem uma placa indicando que se trata de uma parada. Para descobrir o local exato, é preciso ir até a Avenida Washington Luís – dou essa de lambuja: fica na Avenida Washington Luís – e identificar onde há uma maior concentração de pessoas se espremendo na calçada. Quando encontrei o lugar, deixei-me ficar encostado à parede de um comércio, para não atrapalhar a movimentação dos pedestres. Dali a pouco vieram me pedir uma licencinha, pois estavam pintando a parede. Coisas que acontecem a quem decide pegar ônibus.

Apareceu, pois, um ônibus e eu reparei que havia no itinerário o nome de uma estação de metrô, o que me fez subir e relaxar: mais cedo ou mais tarde ele chegaria a alguma estação. Mas o tempo foi passando, passando, o ônibus foi entrando por umas ruas estranhas, e nada de aparecer uma estação. Até que o ônibus estacou e o motorista anunciou, solenemente, que aquele era o ponto final. Tivemos que descer ali, eu e outros perdidos, o que fez diminuir um pouco a minha vergonha. Indicaram-nos outro ponto, e dessa vez eu peguei um ônibus em que estava escrito bem grandão “Metrô Jabaquara”. Perguntei ao cobrador quanto tempo levaria até lá. “Mais ou menos uma hora”, ele disse. Quase perguntei se era no fuso daqui ou no de lá.

Há um tempo para tudo, ensina o Eclesiastes, até mesmo para se chegar ao Metrô Jabaquara. De modo que cheguei lá e fui comprar um bilhete para o metrô. Encontrei uma fila tão grande que fui tomado por uma repentina saudade da roça. Comecei a questionar a minha decisão de viajar e murmurei palavras duras contra a cidade grande, e o que menos disse foi que aquilo era uma loucura. Mas comprei o bilhete, e com ele fiz outra viagem. Só fui chegar ao Tietê às quatro horas da tarde, morrendo de fome. Fui então a uma lanchonete e decidi pedir um prato completo. O atendente olhou-me com espanto e avisou: “Refeições, só a partir das cinco”. Dei então um daqueles suspiros como os da Hortênsia antes de arremessar a bola. E desejei ardentemente que o Vale do Paraíba ainda fosse conhecido como os sertões de Taubaté.

Procurando Kafka

Assim como Saramago foi a Praga imaginando encontrar uma cidade em preto e branco graças ao Kafka, eu também embarquei para a capital tcheca sob a influência do escritor judeu que nasceu no Império Austro-Húngaro e escrevia em alemão. Havia planejado uma curiosa e sigilosa missão: encontra-lo em algum lugar da cidade – coisa que nem eu sabia exatamente em que consistia.

Fui à sua casa natal, ou melhor, ao Café Kafka, onde há um busto do escritor. Solicitei um expresso curto, sorvi com indescritível prazer, mas ele não se encontrava lá. Depois a família se mudou para a Casa do Minuto, decorada com bonitos desenhos nas paredes. Neste novo lar nasceram as três irmãs mais novas do primogênito, então um guri, que caminhava todas as manhãs à escola primária alemã. Fiz e refiz o trajeto do pequeno Franz, mas não topei com ele no caminho. No térreo do atual palácio Kinsky funcionava o comércio do pai. Sabia que o filho poderia estar em qualquer lugar do mundo, menos ali.

Até se aposentar por doença, Kafka trabalhou em uma companhia de seguros, local onde hoje funciona um shopping, que passei ao largo. Quando morreu, Kafka morava com os pais na casa Oplet, local que denominou em seu diário de “quartel-general do ruído”. Por este motivo, durante um período de tempo, alugou um casebre na Ruazinha do Ouro, ao pé do castelo, com a nobre intenção de escrever em paz. Claro está por que não perdi meu tempo, ou meus ouvidos, indo a Oplet.

Antes de subir ao castelo, fui ao Museu Kafka. Conferi sua bonita caligrafia e permaneci um bom tempo contemplando a miniatura da máquina de tortura e execução humana da novela “Na colônia penal”, cuja leitura em público pelo próprio Kafka levou quatro damas ao desmaio. Foi uma adorável visita, mesmo ele não estando lá.

Por fim, subi a ladeira da Ruazinha do Ouro. Pintado em azul-claro, identifiquei o número 22 do casario pitoresco e geminado. Transpus a soleira com reverência e adentrei ao cubículo – um casebre é algo maior. O interior é tão exíguo e opressor que só pode ser aprazível para escritores. Atualmente o cubículo vende as obras de Kafka em várias línguas. Comprei “Um médico rural” em espanhol e subi rumo ao castelo sem encontra-lo, mas enternecido e desejoso de um lugar daqueles para criar.

Mas que raio de turista eu sou com essa ideia de procurar o Kafka?! O que eu queria? Uma epifania? Se eu contasse minha missão secreta a alguém, era capaz de me mandarem ao cemitério. E, afinal, foi justamente o que cheguei a pensar, pois passei em Praga tempo suficiente para me dar ao luxo de descansar recostado na lápide da família Kafka. Mas isso já seria demais.

No meu último crepúsculo em Praga, lendo “Um médico rural” às margens do Moldova, fui surpreendido por uma revelação: Kafka está justamente no lugar onde nada se encontra, onde as coisas estão perdidas para sempre, onde tudo se parece insolúvel. Gregor Samsa metamorfoseado: se parece e não se parece. O agrimensor K.: é e não é. O acusado e processado Josef K.: está e não está. Paradoxos que rompem as fronteiras de Praga e permitem que Kafka seja facilmente encontrado em qualquer parte do mundo nos labirintos de sua arte.