Interiores – tomo II

José encarava a garrafa de vinho e chorava por dentro. A face impassível não permitia que intuíssem o que estava sentindo. Mas não impedia que especulassem a respeito. “Ele vai abrir a garrafa”, observou o sobrinho. “Não, ele só está olhando para ela para reforçar sua força de vontade”, devolveu o irmão mais velho de José. “Ele deveria beber. Ele tem esse direito”, lamuriou a esposa em meio às lágrimas que escorriam silenciosas.

A garrafa de vinho havia sido comprada 30 anos antes e José prometera que ela, fruto de seu primeiro salário, seria um dia de seu filho. Filho este que José se debatia com um câncer para poder ver nascer.

Dois primos resolveram apostar no que José faria. Eles colhiam as apostas pelo hospital. Àquela altura, a história de José era o evento do mês no Hospital do Câncer e todo tipo de passatempo era bem vindo por ali. José acenou para um dos primos em questão. Inclinou-se ao ouvido dele, murmurou algo. O primo acenou positivamente com a cabeça. José então pediu que todos deixassem o quarto.

Anúncios

Sobre Reinaldo Glioche


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: