O instrumento que luzia

O baterista estava despejando toda a sua fúria nas baquetas quando avistamos a banda do outro lado da avenida. Mais um guitarrista e um baixista, todos na calçada rodeados por uma numerosa plateia. Do pouco que ouvi, tocavam um bom pop rock. Tivemos vontade de atravessar a Paulista para apreciar de perto os músicos, mas nosso destino tinha hora certa para fechar as portas.

Mais adiante, um jovem com um violão elétrico representava muito bem o estilo Emmerson Nogueira de se apresentar. Traje, repertório (ouvi o final de uma música e o início da seguinte), as redondinhas de acordes, tudo me fez crer que se tratasse de um cover. E um excelente cover, diga-se de passagem, posto que até as contrações faciais se assemelhassem.

Seguimos em frente e nossos ouvidos foram invadidos pela estridência do metal pesado. Passei ao largo para que os decibéis elevados às últimas consequências nos causassem o mínimo de lesão auditiva possível. Não consegui identificar quantos eram e se tocavam mais algum instrumento além da guitarra. Tanto poderia ser um único instrumento como a fusão de vários, meus ouvidos apenas se defendiam.

Estávamos quase chegando, quando o som inconfundível de um arco ferindo cordas nos atraiu, magneticamente, para baixo de uma marquise. Um senhor negro, cabelos grisalhos, decerto aparentando menos idade do que realmente tinha, usava um paletó marrom puído, uma calça de algodão que não harmonizava e um par de tênis que menos ainda. Ouvimos, em silêncio respeitoso, as melodias desferidas pelo mavioso violino. A cada música ficávamos cada vez mais juntos, abraçados e acomodados entre os poucos que timidamente paravam para escutar o velho violinista. Ela quebrou o silêncio:

– Luiza.

– Quem? – perguntei.

– Luiza. Essa música.

Caminhei em direção ao artista e deitei dois reais no interior do seu decrépito chapéu panamá. Ao fim da música seguimos calmamente para o nosso destino, que já estava fechado.

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3 respostas para “O instrumento que luzia

  • Henrique Fendrich

    Tenho tido cada vez mais apreço pelo som de instrumentos como o violino, e cada vez mais resistência aos barulhos da nossa música moderna. Uma coisa que me toca muito em São Paulo é aquele piano na Estação da Luz.

  • Andrea Borges

    A Paulista é realmente uma mistura de tudo. Lamento ao constatar que a música clássica é pouco apreciada pela maioria.

    Mas como soa bem ao nossos ouvidos! ☺

  • Deboá

    Muito interessante o conteúdo dos textos, que prendem a atenção e estimula a imaginação frente ao fato narrado.

    Parabéns ao Oliveira Neto

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