Preparado para assimilar o Golpe?

Nasci em 1975. Minhas primeiras lembranças políticas se remetem ao Figueiredo e às Diretas Já. Quando alguém me explicou que o movimento lutava pelo direito do povo de eleger diretamente o presidente, sem intermediários, achei um absurdo que assim ainda não fosse. Explicaram-me – eu então criança -, que antigamente o voto era direto, mas uma ditadura militar o havia extinguido. Compreendi, portanto, a magnitude da gana em prol do movimento. Era justo. Justíssimo.

Passados pouco mais de vinte anos, eis que a corrupção na democracia brasileira consegue uma façanha. Convenhamos: não é qualquer governo cujo desempenho atinge o prodígio de instigar uma parcela da nação a pedir uma intervenção militar – para ficar na brandura dessa impossibilidade constitucional, posto que qualquer intervenção no poder executivo por parte dos militares se tratará de um Golpe de Estado.

Impressionado com essa semente estúrdia que brotou no seio da nação brasileira, resolvi coletar opiniões daqueles que viveram os anos da ditadura escancarada. No meu trabalho, dou liberdade para assuntos aleatórios – tática que descontrai e ameniza a ansiedade. Procurei ao máximo não deturpá-los:

– “Antes dos militares, eu estava encostado, sem trabalhar. Quando aquele Castelo assumiu, botou todo mundo de volta pro trabalho.” – “Então o senhor não deve ter gostado, né?” – “Hoje eu vejo que foi bom, eu podia mesmo trabalhar.”

– “Era ruim na época dos militares, não era?” – “Era bom!” – “Era mesmo?” – “Ô, se era! A gente podia dormir na rua que não acontecia nada. Era melhor do que hoje.” – “Nunca fizeram nada contra o senhor?” – “Só dispersavam a gente. Grupinho de três não podia. Santos era uma cidade vermelha.” – “Entendi.” – “Mas eles também meteram a mão no Brasil. Não eram santinhos.”

– “Amigos meus do sindicato apanharam que só. Outros desapareceram. Eles faziam greve e iam pra rua virar carros.”     – “Carros de quem?” – “De qualquer um. Eles paravam os carros na rua. Tinha até gente dentro.” – “O senhor se envolvia?” – “Eu não. Nem cá, nem lá. Eu tava no meio da balança. Era o fiel.”

– “Dois amigos de escola morreram numa barricada da polícia. Estavam num fusca e furaram. Foram metralhados na hora.” – “Por que furaram a barricada?” – “Ou estavam bêbados, ou queriam só afrontar, ou queriam jogar uma bomba, vai saber. O duro era a família ver a polícia chegar pra entregar os corpos, um deles tinha dezessete anos.” – “O senhor se envolvia com isso?” – “Nunca. Eu só queria saber de estudar e frequentar bailinhos. Adorava dançar.”

– “Foi a época em que mais ganhei dinheiro na vida. Comprei meu apartamento.” – “O senhor fazia o quê?” – “Trabalhava como funcionário numa empresa. O Castelo era um analfabeto, mas foi um grande presidente. O senhor sabe, né? Ele não morreu num acidente. Mataram ele.”

– “Eu tinha professores que nem davam aulas, eram só palestras sobre ideologias. Eles queriam formar células.” – “Ah, é?” – “Sim. E ninguém sabia quem era infiltrado. De vez em quando algum aluno parava de frequentar as aulas.” – “O que mudou pro senhor?” – “Minha vida não mudou nada com esses militares. Nunca me meti nisso. Continuou tudo igual.”

Sabe-se de outra crônica que sou politicamente volúvel. No entanto, neste caso, ainda não vacilei. A culpa não é da democracia, mas do germe que infecta o nosso regime democrático: a impunidade política – este “bem” tutelado de forma aguerrida pelos nossos representantes. As nações menos corruptas são aquelas que fiscalizam e punem os criminosos que sangram o Estado. A realidade do Brasil tem tudo a ver com aquela velha história do anel de Giges narrada por Platão: já que ninguém vê, já que ninguém faz nada… E viva a Grécia Antiga! Viva a democracia!

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3 respostas para “Preparado para assimilar o Golpe?

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