Arquivo do mês: abril 2015

O trabalho dignifica o homem

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Amanhã a maioria dos cidadãos deixará de lado suas atividades laborais. No dia do trabalho não se trabalha, comemora-se. Diriam os maledicentes que se comemora qualquer outra coisa, e não propriamente o trabalho. Duvido. O povo brasileiro tem por hábito, nos feriados, refletir sobre a causa.

Há muito tempo, na Era pré-Google, procurei na Internet o autor da frase “o trabalho dignifica o homem”. Como não identificasse a autoria, julguei se tratar de uma espécie de axioma milenar, uma proposição óbvia que não necessitasse de provas, uma sentença proveniente da cabeça de algum filósofo da Antiguidade.

Lembro que a frase me veio à mente para servir de contra-argumento a um colega que estava lendo autores que questionavam a importância do trabalho. Ele andava desanimado com a profissão, como muitos hoje andam, e como eu mesmo já andei um dia – não ao ponto, é claro, de levantar bibliografia antilaboral. O fato é que o meu colega estava bem municiado do ponto de vista teórico, o que me obrigava, no mínimo, a conhecer a autoria da frase para me livrar de um vexame.

Em vez de entrar na discussão, resolvi calar e me peguei brincando em desfazer do meu próprio argumento. É verdade que muitas pessoas se dignificam com o trabalho. É verdade que outras tantas trabalham sem nenhuma dignidade. E também é verdade que outras mais não são nada dignas do trabalho que exercem. E ainda há aquelas cujo trabalho as tornam indignas. Eram tantas “verdades” que acabei rindo sozinho e desisti do embate, embora discordasse da disposição do meu colega e considerasse sua indisposição no mínimo interessante.

Mas hoje eu descobri o autor. E nada de Grécia Antiga! Nada de axiomas! Façamos uma viagem para mais de dois milênios e encontraremos Benjamin Franklin na América, em pleno Século das Luzes, publicando o “Almanaque do Pobre Ricardo”, que consiste, resumidamente, numa espécie de manual de conduta para se acumular fortuna num país capitalista, obra que imortalizou, além da frase título da crônica, muitas outras expressões, como a famosíssima “time is money”!

Eis uma sugestão para a reflexão de amanhã.


Interiores – tomo II

José encarava a garrafa de vinho e chorava por dentro. A face impassível não permitia que intuíssem o que estava sentindo. Mas não impedia que especulassem a respeito. “Ele vai abrir a garrafa”, observou o sobrinho. “Não, ele só está olhando para ela para reforçar sua força de vontade”, devolveu o irmão mais velho de José. “Ele deveria beber. Ele tem esse direito”, lamuriou a esposa em meio às lágrimas que escorriam silenciosas.

A garrafa de vinho havia sido comprada 30 anos antes e José prometera que ela, fruto de seu primeiro salário, seria um dia de seu filho. Filho este que José se debatia com um câncer para poder ver nascer.

Dois primos resolveram apostar no que José faria. Eles colhiam as apostas pelo hospital. Àquela altura, a história de José era o evento do mês no Hospital do Câncer e todo tipo de passatempo era bem vindo por ali. José acenou para um dos primos em questão. Inclinou-se ao ouvido dele, murmurou algo. O primo acenou positivamente com a cabeça. José então pediu que todos deixassem o quarto.


Saudade

lion dandelion

Saudade: S. f. Do latim, saudos. Do grego, saudilos. Do bom português, aquilo que aperta o coração quando a mente não deixa ir embora uma lembrança bonita.


Coloque o título aqui

cxa musica

Se a vida é mesmo uma caixinha de surpresas, talvez seja melhor cantar e dançar sobre um espelho a cada vez que a tampa se abrir. E aí deixar que a música toque ao ritmo do pulsar do coração, que a dança envolva cada passo rumo ao futuro. Ainda há muito o que se consertar mundo afora, mas antes disso é preciso que se conserte o que há por dentro, transformar as chances em oportunidade e fazer delas uma dança nova, uma música nova, e assim sucessivamente.

E se a vida não for, então, uma caixa de música com uma bailarina, façamos com que seja. Tudo então terá o ritmo que quisermos, será a nossa dança preferida que dominará o salão.

E aí não será preciso dar nomes para nada.


Por que os sinos dobram?

sino

Imaginem que existe uma igreja, igual a todas as igrejas, e que ela tem um sino, igual a todos os sinos – pessoalmente, jamais vi um sino de igreja, mas imagino que sejam muito parecidos entre si. E imaginem também que este sino, não sabendo fazer outra coisa, se põe a badalar várias vezes ao dia. Faz parte da ordem natural das coisas que exista uma igreja com um sino e que ele badale de vez em quando. Agora imaginem como pode ser aborrecido ouvir um sino badalando.

Tão aborrecido que um dia alguém resolveu escrever uma carta ao jornal reclamando daquele sino que, embora católico, produzia um barulho dos diabos. Queixava-se o sujeito da excessiva frequência com que aquele sino trabalha, não descansando nem mesmo nos feriados e dias santos. Às quatro horas, ele toca quatro vezes, uma atrás da outra. Depois de quinze minutos, volta a tocar uma vez. E faz o mesmo quando chega a meia-hora e depois os três quartos de hora. Repete isso na hora seguinte e em todas as outras por toda a eternidade – tal é a missão do sino.

É provável que o homem que se queixa more perto da igreja e escute o sino tocando justamente nos horários em que pretendia descansar. É preciso dizer ainda que este sino, fiel cumpridor das tradições, também se põe a tocar desesperadamente às seis da tarde, na hora do Ângelus. Talvez toque também às seis da manhã, o que deve chatear alguns pobres cachorros que se queixam como podem – uivando –, além dos senhores de família que se queixam mandando cartas ao jornal.

No lugar onde minha mãe nasceu existe um sino que trabalha ainda mais. Se durante o dia ele começa a tocar de forma insistente, é um sinal inequívoco de que alguém morreu. E, ao ouvirem suas badaladas, os pacatos moradores do lugar puxam pela memória quem é que estava doente nos últimos dias e se perguntam se é por essa pessoa que o sino dobra. Ora, mas isso é no interior. Na minha terra o sino já não dobra por ninguém. A cidade cresceu tanto, e começou a morrer tanta gente, que o pobre sino precisaria passar o dia inteiro anunciando funerais – coisa que, por certo, resultaria no colapso da seção de cartas do jornal.

Também hoje, o sino deixou de regular as nossas horas. Houve um tempo em que se acertava o nosso relógio pelo relógio da igreja – que, aliás, se mantinha religiosamente atrasado. Há o sino da igreja, mas também há o relógio da igreja, no alto da torre. O relógio da igreja tem uma nítida vantagem em relação ao sino da igreja: ele não badala. Por outro lado, não é de todo lugar que se consegue enxergá-lo, e será preciso que, à noite, ele tenha algum sistema de iluminação interna. De todo modo, se ninguém mais acerta as horas pelo sino ou pelo relógio da igreja, que fique claro que não é por omissão deles.

Acontece que os tempos passaram, as cidades cresceram, as tecnologias evoluíram e nós até mesmo deixamos de ser católicos. Não é sintoma de outra coisa que o barulho nos incomode tanto. Quanto a mim, não ouço qualquer sino e não vejo qualquer igreja aqui da minha janela. Há até bastante silêncio, e talvez seja precisamente por isso que eu procure o barulho das páginas de um jornal.


Três minutos

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No terceiro andar do prédio em que trabalho, existe um saguão no qual uma janela sempre se encontra entreaberta, delimitando uma pequena fresta triangular. Vez por outra, vou lá observar como está o céu, o tempo. Aproveito o ensejo para contemplar um alto e vistoso pinheiro, que muito me agrada ainda que sua contemplação seja segmentar: do meio do seu tronco para cima. De lambuja, acabo agraciado também pela musicalidade de alguns pássaros.

Ontem o céu amanheceu nublado. E na primeira oportunidade, lá estava eu, na fresta, constatando que as nuvens não davam o menor indício de debandar. Como de costume, divisei o pinheiro, elevando gradativamente o olhar. Tomado pelo inesperado, em uma grata surpresa da natureza, avistei um passarinho que pousou sobre o último pedacinho do caule – o pináculo. Que beleza! Que capricho! Não eram mais um pinheiro e um pássaro isolados, mas sim uma linda conjunção. Ah, se eu tivesse uma câmera! Pensei melhor: tenho um celular… E então pensei ainda melhor: para quê? A cena já não está capturada?

Resolvi ficar mais um pouco à janela. Notei que não se tratava de um passarinho imponente. Seu peito não estava estufado e seu bico apontava para baixo. Segui para onde ele mirava e encontrei outro passarinho, uns cinco galhos mais abaixo, o bico erguido, como se acomodado em um ninho imaginário. Enquanto eu analisava os pássaros, estes se entreolhavam. Seriam macho e fêmea, enamorados? Sentindo-me como um detalhe ordinário e aquém da bela fotografia, eu admitia que não estivesse sendo visto. No entanto, como o passarinho mexesse rapidamente a cabeça, fiquei em dúvida, apesar da razoável distância.

Opa! A passarinha postada no galho de baixo voou. Nessas alturas, minha intuição já havia definido o sexo das aves. O macho, no ápice, continuava lá, mas agora já não olhava mais para baixo. Parecia aturdido, a cabeça oscilando, frenética. E de repente, sem me avisar, ele também voou. Riscou o vazio na mesma direção da passarinha. Agora, como de costume, eu e o pinheiro estávamos a sós, unidos pela cumplicidade. Céu nublado. Caiu uma garoa fina. Já se passaram os passarinhos. Já se foram… três minutos.


Interiores

Era uma quarta-feira cinzenta, daquelas que nos ameaçam com preguiça, chuva e devaneios. Era, também, o dia do retorno dela. Anos depois de ter partido. Ele não dormira e a quarta acinzentou-se diante de seus olhos. Levantou em um pulo. As costas reclamaram, mas ele não se abateu. A idade era um detalhe.

No carro ouvia “A thousand Miles”. Era uma música bobinha, mas o transportava para outro lugar. Para outro tempo. Para quando ela ainda não tinha partido.

No aeroporto, a informação de que o voo não só atrasara como fora transferido para outro aeroporto. E lá foi ele enfrentar a cidade chuvosa novamente. Mas era o dia do retorno dela.

Não há nada no mundo capaz de ofuscar o prazer de ouvir “papai” novamente. Parado no trânsito, em meio a buzinas e gritaria, ele sorria. Era o dia do retorno dela.