Agora eu era o herói

Foto: Letícia Moreira/Folhapress

Foto: Letícia Moreira/Folhapress

Às meninas é fácil saber quando se tornam moças. Há um divisor de águas, de sangue – um rito de passagem fisiológico que rege a concórdia entre as mulheres neste tema. E quanto aos meninos? Quando se tornam rapazes? Ao questionar os antigos, ouvi algumas respostas na ponta da língua: “quando traguei um cigarro”, “minha estreia num bordel”, “os primeiros fiapos do bigode”, e outras mais que também não me enquadrei, provavelmente por questão de gerações.

Puxei da memória e encontrei um beijo aos doze anos. Foi breve, um estalo, mas produziu a única vertigem que experimentei na vida. O problema é que me senti envergonhado e até certo ponto ridículo diante dos amigos que souberam do meu quase desmaio, sensações nada compatíveis com a transformação viril de que trata esta crônica.

Mais atrás, lá pelos meus míseros oito anos, protagonizei uma história que, se rigorosamente não cabe aqui, ao menos é coerente ao título e vale a pena contá-la.

Então morava em São Borja, cidadezinha do interior gaúcho, terra buena de homem bagual. Como de costume, cheguei da escola à tardinha. Parecia, estranhamente, não haver ninguém em casa. Perdi um bom tempo apertando a campainha, rodeando a casa e batendo em todas as portas e janelas até concluir que, realmente, a casa estava trancada e vazia. Inédito. Hoje sei que a tenra infância não me permitiu cogitar desgraças para explicar a ausência coletiva: nem pai, nem mãe, irmãos e empregada. De início fiquei aborrecido, mas não tardou e a chateação cedeu lugar a uma agitação de espírito. Olhei a cerquinha frontal, os muros laterais baixos, as taquaras mal amarradas limitando o quintal, e no centro do terreno a nossa casinha de madeira pintada de azul. Sim, eu estava sozinho, ao mesmo tempo dentro e fora da minha casa indefesa.

Instintivamente, acredito eu, decidi confeccionar um bodoque (também conhecido como estilingue). Trepei na goiabeira do quintal e arranquei com as mãos a forquilha que melhor se apresentava para o fim. Extraí duas tiras elásticas de uma câmara de pneu com a tesourinha que levava no estojo escolar, a mesma que cortou um resto de couro de sofá que serviu para acomodar os projéteis. Com empenho e paciência uni as partes que resultaram num todo bonito e eficaz. Testei a empunhadura e amaciei os elásticos. Catei as pedras apropriadas e realizei os primeiros testes de tiro, mirando em alvos próximos e distantes. Quando aprovei o bodoque e guardei as melhores pedras no bolso, a noite começou a cair lentamente. Fui à soleira da porta principal e montei guarda. Um rapaz? Fiz melhor: agora eu era o homem da casa, armado e tudo.

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