Verás um filho teu

Foto: Ricardo Matsukawa/Veja.com

Foto: Ricardo Matsukawa/Veja.com

Acompanhei os protestos do último dia 15 pela televisão. Não que eu tivesse premeditado tal conduta. Ao contrário – politicamente volúvel que sou -, minha primeira decisão foi incorporar uma espécie de patriota estouvado. Que após ouvir comentários que previam desfechos nefastos para as marchas, tornei-me um indeciso: ir ou não ir – eis a questão. A partir da daí, quanto mais o dia 15 se aproximava, mais o desânimo me dominava. Até que às vésperas eu já estava tão convencido a não sair às ruas que cheguei ao cúmulo de me envergonhar daquele patriotismo inicial.

Apesar de, no âmbito da política, me considerar um cidadão leviano, carrego uma única convicção: apesar de termos a idade do Canadá, jamais chegaremos aos pés deste país antes do final dos tempos. Para mim, o Brasil é um caso perdido, um paciente incurável, daqueles que só a aniquilação total é capaz de libertar. Excluindo esta certeza, minhas opiniões políticas são tão estáveis quanto bolinhas de gude empilhadas.

Confesso que me surpreendi positivamente com as imagens da Avenida Paulista. Se para alguns – sobretudo para os detentores do poder – não contou como manifestação de amor à Pátria, é inegável que foi um exemplo de civilidade, diferentemente das manifestações de 2013. A massa de um milhão de pessoas abarrotando o cartão-postal paulistano se comportou como se fosse treinada por monges tibetanos. A paz, enfim, foi ubíqua. E – pasmem! – isto me tocou muito mais do que as cores nacionais, os cartazes e a irmanação dos meus concidadãos em torno de um nobre propósito.

Não acho que a nossa presidenta se sensibilize. Falando a verdade, acho que ela é incapaz de palpitar, marejar os olhos, arrepiar os pelos, enfim, de liquidificar seus sentimentos a ponto de produzir um caldo de compaixão. Ninguém se engane: ela não deixará o poder por nada deste mundo – bem diferente do Jânio Quadros, que, para tanto, bastaram forças ocultas.

Eu não teria escrito esta crônica não fosse a paz reinante nos protestos Brasil afora. Orgulhei-me deveras. E foi o espírito pacífico – e tão somente ele – que de fato mexeu comigo. Obviamente que este fenômeno não interferiu no meu pessimismo em relação ao país, mas fez com que eu viesse aqui admitir o arrependimento de não ter aspirado uma fração do ar puro da civilização.

Anúncios

3 respostas para “Verás um filho teu

  • Henrique Fendrich

    Espero que a minha crônica de hoje não diminua suas impressões positivas.

    • Oliveira Neto

      Não diminuíram, não. Politicamente falando, sou um quase-Fernanda. Minhas impressões positivas nada têm a ver com consciência política, novos rumos e afins; mas tão somente com a inclinação pacífica que há muito não via no seio de uma massa de 1 milhão de pessoas.

  • Andrea Borges

    Ao contrário de ti, desde o princípio sempre quis ir às manifestações.

    Também não entendo muito de política. Me considero até um pouco alienada. No entanto cega não sou. E não dá para fechar os olhos diante do óbvio.

    Como cidadãos não apenas podemos como devemos lutar pelos nossos direitos.

    Mas em primeiro lugar sou mãe. E o medo de expor minha filha ao risco foi o que me segurou em casa…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: