A fita do jornalista

O trabalho da moça era transcrever fitas. Quer dizer, fita não tem mais já faz tempo. Eram arquivos de áudio. Mas o trabalho permanecia o mesmo. Tinha fita de estudante de medicina que preferia dormir na aula e pegar o conteúdo depois. Fita de sessão judiciária – era público e notório que as audiências sem júri eram uma chatice sem fim, Vossa Excelência. Fita de sessão parlamentar – sempre um parto para descobrir quem era o nobre deputado da voz esganiçada, o da voz rouca ou aquele que parecia pastor de periferia. E tinha as fitas dos jornalistas, as preferidas dela, Glorinha, porque pelo menos tinha um que falava claramente e outro que contava as barbaridades.

A fita não tinha nada de mais, era apenas a “Entrevista 03.05.mp3” numa pilha de pedidos para a próxima manhã. Coisa de seis a sete horas de áudio. Com a prática, ela demorava uma ou duas horas a mais que isso para concluir um arquivo de texto já inteiramente revisado. O tipo de luxo que custa caro para quem pede e rende pouco para quem faz.  Voltando ao nosso papo. A fita era de um jornalista, como não? Mas a voz marcante era a do interlocutor, um veterinário de cavalos que era um deleite. Suavemente áspera, de timbre seguro, jovem.

O dono daquela voz só podia ser um tipo espetacular. Moreno, de barba por fazer, olhos castanho-esverdeados, daqueles que ficam apertadinhos quando a pessoa sorri. Provável que não fosse solteiro, mas nesse caso, era só mudar de namorada – da outra para ela, Glorinha, obviamente. Nem o nome do entrevistado o relaxado do jornalista informou, fosse ao começo ou no fim da gravação!

Ela cogitou comprar a revista com a reportagem, não sabia quando seria publicada, mas isso era o de menos. Era só conversar com o senhor da banca, que ele guardaria um exemplar com a matéria daquele tal jornalista Renato Nero. Pena que assim, ela ia ter que ficar ouvindo apenas dentro do peito aquela voz narrando o que o jornalista selecionasse para o texto final.

Podia ligar lá na redação, também, e pedir o contato do tal veterinário selvagem, apelido íntimo que Glorinha dera ao futuro pretendente. Mas havia um problema: e se aquela grossura de fala fosse efeito do gravador? E, se pessoalmente, ele tivesse uma vozinha mais ou menos, como a de todo mundo?

Por via das dúvidas, ela salvou uma cópia do arquivo pra si. Até a matéria sair, ela podia bem ir se divertindo sozinha imaginando todas as sacanagens que ele ainda iria lhe dizer ao pé do ouvido.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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