Arquivo do mês: março 2015

Análise

Girl (4-6) with plaster on knee, close-up of knee (B&W)

Feche os olho, sinta o ar e não analise… Não entendo porque não sigo tais idéias simples. Insistindo em pensar, articular, projetar. Como todos? Como tudo? Por medo de ficar junto? Ou Sozinho? Estranho. Eu praticamente faço uma tradução livre da música que ouço, me esquecendo de direitos autorais como me esqueço de prender meus pés na cama quando durmo, para não voar para muito longe. Sempre vou longe demais. Enquanto os outros ficam aqui e acenam para mim. Problema meu? Deles? Sou simplória ou maliciosos eles?

Mudo? Como sempre, penso nisso.Seja em mudança ou silêncio. Como sempre, sei que não vou. Seja mudar ou calar. Feche os olhos, feche os olhos. Eu gosto mesmo é de deixar minha imaginação andar, solta e descalça, por aí…


É como diz o ditado…

Das vezes que a vida nos surpreende, sempre tem aquelas pelas quais ficamos mais satisfeitos com o futuro que nos aguarda. Parece estranho pensar que uma tristeza possa gerar felicidade, mas o ditado mesmo já diz que há males que vem para o bem e, portanto, cabe a cada um estar disposto a entendê-lo.

Mais difícil do que entender, é esperar. Engraçado como tempo ficou escasso e soa hoje como artigo de luxo, que só os mais abastados podem desfrutar dele. Para muitas coisas, só o tempo resolve e é preciso saber esperar. Um dia escutei que quem espera sempre cansa, mas eu prefiro a versão original do ditado e continuar alcançando.

Tudo é uma questão de sensatez – artigo difícil de ser encontrado nas pessoas hoje em dia. Saber entender e questionar não andam mais de mãos dadas e, portanto, não propiciam mais a formação de opiniões a partir do contexto para, então, gerar ações sensatas. Parece que a pré-concepção virou padrão e as ações, que deveriam ser as últimas a chegarem, cheias de razoabilidade, passam a ser as primeiras, mas vazias!, e é quando contrariamos o velho conselho de não botar os pés pelas mãos…

Há tempos que levanto a bola do egoísmo que impera no mundo, praticamente pandemia! É um tal de “eu” daqui, “pra mim” de lá, “meu” acolá que somos até obrigados a lutar pra garantir aquilo que já era um direito individual adquirido, e assim entrar em outro ditado, aquele do “cada um por si…”: todos defendem o seu em detrimento do outro. É, Maquiavel… triste meio para justificar um fim.

Mas enquanto tomarmos por máxima o ditado mais conformista que já existiu, continuemos fracos para lutar contra aqueles com os quais, em tese, não podemos. E se dizem por aí que uma andorinha só não faz verão, eu digo que ela abre as portas para que venham outras. Isso serve para mim, para você, para nós porque, entenda, não estamos sozinhos no mundo, nem mesmo estamos nele por um acaso.

Postura difícil de aplicar, confesso! Mas entendê-la traz clareza de vida, traz até mesmo um coração mais leve de rancores e pré-conceitos que, muitas vezes, sequer temos o direito de criá-los. Filosofias à parte, sempre é hora de fazer diferente e, pelo ditado, nunca é tarde pra começar.

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Sermão do Planalto

E Jesus, vendo a multidão, foi até o Planalto Central e, assentando-se, aproximaram-se deles os moradores de todo o DF. E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo: Bem-aventurados os moradores de Brasília, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram esperando atendimento nos hospitais da cidade, porque eles serão consolados; bem-aventurados os passageiros que aguardam mansamente um ônibus que já vem lotado, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça e a cada quatro anos elegem um salvador da pátria, porque eles serão fartos; bem-aventurados os que tiverem misericórdia dos pedestres, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os que sofrem com a alagação das ruas, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os moradores do Entorno que levam mais de duas horas para chegar ao trabalho, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os funcionários públicos que sofrem perseguição política, porque deles é o reino de Deus; bem-aventurados vós, que agora chorais por não ter passado em um concurso público, porque haveis de rir; bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por causa da má fama dos políticos que vêm a Brasília. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus. Mas ai de vós, políticos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora riem com dinheiro público, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens, querendo algum benefício, disserem bem de vós. Acautelai-vos dos políticos que vêm até vos vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má arvore que dê bom fruto. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.


Agora eu era o herói

Foto: Letícia Moreira/Folhapress

Foto: Letícia Moreira/Folhapress

Às meninas é fácil saber quando se tornam moças. Há um divisor de águas, de sangue – um rito de passagem fisiológico que rege a concórdia entre as mulheres neste tema. E quanto aos meninos? Quando se tornam rapazes? Ao questionar os antigos, ouvi algumas respostas na ponta da língua: “quando traguei um cigarro”, “minha estreia num bordel”, “os primeiros fiapos do bigode”, e outras mais que também não me enquadrei, provavelmente por questão de gerações.

Puxei da memória e encontrei um beijo aos doze anos. Foi breve, um estalo, mas produziu a única vertigem que experimentei na vida. O problema é que me senti envergonhado e até certo ponto ridículo diante dos amigos que souberam do meu quase desmaio, sensações nada compatíveis com a transformação viril de que trata esta crônica.

Mais atrás, lá pelos meus míseros oito anos, protagonizei uma história que, se rigorosamente não cabe aqui, ao menos é coerente ao título e vale a pena contá-la.

Então morava em São Borja, cidadezinha do interior gaúcho, terra buena de homem bagual. Como de costume, cheguei da escola à tardinha. Parecia, estranhamente, não haver ninguém em casa. Perdi um bom tempo apertando a campainha, rodeando a casa e batendo em todas as portas e janelas até concluir que, realmente, a casa estava trancada e vazia. Inédito. Hoje sei que a tenra infância não me permitiu cogitar desgraças para explicar a ausência coletiva: nem pai, nem mãe, irmãos e empregada. De início fiquei aborrecido, mas não tardou e a chateação cedeu lugar a uma agitação de espírito. Olhei a cerquinha frontal, os muros laterais baixos, as taquaras mal amarradas limitando o quintal, e no centro do terreno a nossa casinha de madeira pintada de azul. Sim, eu estava sozinho, ao mesmo tempo dentro e fora da minha casa indefesa.

Instintivamente, acredito eu, decidi confeccionar um bodoque (também conhecido como estilingue). Trepei na goiabeira do quintal e arranquei com as mãos a forquilha que melhor se apresentava para o fim. Extraí duas tiras elásticas de uma câmara de pneu com a tesourinha que levava no estojo escolar, a mesma que cortou um resto de couro de sofá que serviu para acomodar os projéteis. Com empenho e paciência uni as partes que resultaram num todo bonito e eficaz. Testei a empunhadura e amaciei os elásticos. Catei as pedras apropriadas e realizei os primeiros testes de tiro, mirando em alvos próximos e distantes. Quando aprovei o bodoque e guardei as melhores pedras no bolso, a noite começou a cair lentamente. Fui à soleira da porta principal e montei guarda. Um rapaz? Fiz melhor: agora eu era o homem da casa, armado e tudo.


Só…

Chegar como intrusa e ficar como convidada. Contradição suprema que parte transformada. Reinventa-se para manter seu ciclo, em um ritmo de abnegação que só combina com solidão.

Apaixonar-se é flutuar só em meio à multidão. É padecer do juízo alheio e buscar amparo em queda livre. É rir sozinho, chorar à toa, responder qualquer coisa.

É vibrar com o sol, comemorar a chuva e estar só, mesmo acompanhado. Apaixonar-se é prescindir de legitimidade. É entregar-se ao desconhecido, esse velho conhecido. É desmerecer a tragédia da rotina e remodelar a pobreza da existência. É estar só… finalmente só

Se apaixonar é um ato solitário, fantasioso, idílico, nostálgico. Quase errático. É aceitar a solitude. Pelo menos até estar apaixonado. Aí, não estamos mais sós.


Cala-te boca

O silêncio pode representar muita sabedoria. Como pode representar totalmente o contrário. Quem silencia em geral consente. Mas ficar quieto zera o risco de dizer besteira ou engolir algum inseto intruso. Pois bem, é chegada a hora da razão. A razão não tem umbigo preso nem com o silêncio e muito menos com o barulho. A razão não está nem para o carro de som, como a publicidade, e nem para leitura, com a biblioteca. Ela está para ser usada.

Pois bem! Vejo que o Brasil vive um momento único em sua história. Aqui cabe uma ressalva: claro que na minha única e exclusiva, até agora, opinião. Sim, o país pela primeira vez, em sua história, não precisa que seja exigido de seu povo educação, mas sim razão. Razão na medida certa para cada um. Em cada momento, agir com razão. Praticamente uma ética coletiva.

Como tenho ouvido muita gente expressar seu ódio, de direita ou de esquerda, a fim de silenciar a opiniões alheias, me resta dizer: cala-te boca! Deixe a educação de lado e aja com razão. É isso!


Impressão

warm-bed

Vejo você sorrir e sorrio junto, aspirando teu cheiro que perfuma o travesseiro. Aconchego meu rosto na palma da sua mão quente enquanto sinto seu braço firme enlaçando minha cintura. O aperto suave de outro abraço espalha em mim o calor vivo do peito seu. E ainda que o tempo não passe, quando acordo apenas me resta a lembrança sentida no sonho. Mais cinco minutos de olhos fechados fico, para sentir outra vez seu corpo impresso no meu.