Análise

Girl (4-6) with plaster on knee, close-up of knee (B&W)

Feche os olho, sinta o ar e não analise… Não entendo porque não sigo tais idéias simples. Insistindo em pensar, articular, projetar. Como todos? Como tudo? Por medo de ficar junto? Ou Sozinho? Estranho. Eu praticamente faço uma tradução livre da música que ouço, me esquecendo de direitos autorais como me esqueço de prender meus pés na cama quando durmo, para não voar para muito longe. Sempre vou longe demais. Enquanto os outros ficam aqui e acenam para mim. Problema meu? Deles? Sou simplória ou maliciosos eles?

Mudo? Como sempre, penso nisso.Seja em mudança ou silêncio. Como sempre, sei que não vou. Seja mudar ou calar. Feche os olhos, feche os olhos. Eu gosto mesmo é de deixar minha imaginação andar, solta e descalça, por aí…

É como diz o ditado…

Das vezes que a vida nos surpreende, sempre tem aquelas pelas quais ficamos mais satisfeitos com o futuro que nos aguarda. Parece estranho pensar que uma tristeza possa gerar felicidade, mas o ditado mesmo já diz que há males que vem para o bem e, portanto, cabe a cada um estar disposto a entendê-lo.

Mais difícil do que entender, é esperar. Engraçado como tempo ficou escasso e soa hoje como artigo de luxo, que só os mais abastados podem desfrutar dele. Para muitas coisas, só o tempo resolve e é preciso saber esperar. Um dia escutei que quem espera sempre cansa, mas eu prefiro a versão original do ditado e continuar alcançando.

Tudo é uma questão de sensatez – artigo difícil de ser encontrado nas pessoas hoje em dia. Saber entender e questionar não andam mais de mãos dadas e, portanto, não propiciam mais a formação de opiniões a partir do contexto para, então, gerar ações sensatas. Parece que a pré-concepção virou padrão e as ações, que deveriam ser as últimas a chegarem, cheias de razoabilidade, passam a ser as primeiras, mas vazias!, e é quando contrariamos o velho conselho de não botar os pés pelas mãos…

Há tempos que levanto a bola do egoísmo que impera no mundo, praticamente pandemia! É um tal de “eu” daqui, “pra mim” de lá, “meu” acolá que somos até obrigados a lutar pra garantir aquilo que já era um direito individual adquirido, e assim entrar em outro ditado, aquele do “cada um por si…”: todos defendem o seu em detrimento do outro. É, Maquiavel… triste meio para justificar um fim.

Mas enquanto tomarmos por máxima o ditado mais conformista que já existiu, continuemos fracos para lutar contra aqueles com os quais, em tese, não podemos. E se dizem por aí que uma andorinha só não faz verão, eu digo que ela abre as portas para que venham outras. Isso serve para mim, para você, para nós porque, entenda, não estamos sozinhos no mundo, nem mesmo estamos nele por um acaso.

Postura difícil de aplicar, confesso! Mas entendê-la traz clareza de vida, traz até mesmo um coração mais leve de rancores e pré-conceitos que, muitas vezes, sequer temos o direito de criá-los. Filosofias à parte, sempre é hora de fazer diferente e, pelo ditado, nunca é tarde pra começar.

up

Sermão do Planalto

E Jesus, vendo a multidão, foi até o Planalto Central e, assentando-se, aproximaram-se deles os moradores de todo o DF. E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo: Bem-aventurados os moradores de Brasília, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram esperando atendimento nos hospitais da cidade, porque eles serão consolados; bem-aventurados os passageiros que aguardam mansamente um ônibus que já vem lotado, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça e a cada quatro anos elegem um salvador da pátria, porque eles serão fartos; bem-aventurados os que tiverem misericórdia dos pedestres, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os que sofrem com a alagação das ruas, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os moradores do Entorno que levam mais de duas horas para chegar ao trabalho, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os funcionários públicos que sofrem perseguição política, porque deles é o reino de Deus; bem-aventurados vós, que agora chorais por não ter passado em um concurso público, porque haveis de rir; bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por causa da má fama dos políticos que vêm a Brasília. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus. Mas ai de vós, políticos! Porque já tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora riem com dinheiro público, porque vos lamentareis e chorareis. Ai de vós quando todos os homens, querendo algum benefício, disserem bem de vós. Acautelai-vos dos políticos que vêm até vos vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má arvore que dê bom fruto. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.

Agora eu era o herói

Foto: Letícia Moreira/Folhapress
Foto: Letícia Moreira/Folhapress

Às meninas é fácil saber quando se tornam moças. Há um divisor de águas, de sangue – um rito de passagem fisiológico que rege a concórdia entre as mulheres neste tema. E quanto aos meninos? Quando se tornam rapazes? Ao questionar os antigos, ouvi algumas respostas na ponta da língua: “quando traguei um cigarro”, “minha estreia num bordel”, “os primeiros fiapos do bigode”, e outras mais que também não me enquadrei, provavelmente por questão de gerações.

Puxei da memória e encontrei um beijo aos doze anos. Foi breve, um estalo, mas produziu a única vertigem que experimentei na vida. O problema é que me senti envergonhado e até certo ponto ridículo diante dos amigos que souberam do meu quase desmaio, sensações nada compatíveis com a transformação viril de que trata esta crônica.

Mais atrás, lá pelos meus míseros oito anos, protagonizei uma história que, se rigorosamente não cabe aqui, ao menos é coerente ao título e vale a pena contá-la.

Então morava em São Borja, cidadezinha do interior gaúcho, terra buena de homem bagual. Como de costume, cheguei da escola à tardinha. Parecia, estranhamente, não haver ninguém em casa. Perdi um bom tempo apertando a campainha, rodeando a casa e batendo em todas as portas e janelas até concluir que, realmente, a casa estava trancada e vazia. Inédito. Hoje sei que a tenra infância não me permitiu cogitar desgraças para explicar a ausência coletiva: nem pai, nem mãe, irmãos e empregada. De início fiquei aborrecido, mas não tardou e a chateação cedeu lugar a uma agitação de espírito. Olhei a cerquinha frontal, os muros laterais baixos, as taquaras mal amarradas limitando o quintal, e no centro do terreno a nossa casinha de madeira pintada de azul. Sim, eu estava sozinho, ao mesmo tempo dentro e fora da minha casa indefesa.

Instintivamente, acredito eu, decidi confeccionar um bodoque (também conhecido como estilingue). Trepei na goiabeira do quintal e arranquei com as mãos a forquilha que melhor se apresentava para o fim. Extraí duas tiras elásticas de uma câmara de pneu com a tesourinha que levava no estojo escolar, a mesma que cortou um resto de couro de sofá que serviu para acomodar os projéteis. Com empenho e paciência uni as partes que resultaram num todo bonito e eficaz. Testei a empunhadura e amaciei os elásticos. Catei as pedras apropriadas e realizei os primeiros testes de tiro, mirando em alvos próximos e distantes. Quando aprovei o bodoque e guardei as melhores pedras no bolso, a noite começou a cair lentamente. Fui à soleira da porta principal e montei guarda. Um rapaz? Fiz melhor: agora eu era o homem da casa, armado e tudo.

Só…

Chegar como intrusa e ficar como convidada. Contradição suprema que parte transformada. Reinventa-se para manter seu ciclo, em um ritmo de abnegação que só combina com solidão.

Apaixonar-se é flutuar só em meio à multidão. É padecer do juízo alheio e buscar amparo em queda livre. É rir sozinho, chorar à toa, responder qualquer coisa.

É vibrar com o sol, comemorar a chuva e estar só, mesmo acompanhado. Apaixonar-se é prescindir de legitimidade. É entregar-se ao desconhecido, esse velho conhecido. É desmerecer a tragédia da rotina e remodelar a pobreza da existência. É estar só… finalmente só

Se apaixonar é um ato solitário, fantasioso, idílico, nostálgico. Quase errático. É aceitar a solitude. Pelo menos até estar apaixonado. Aí, não estamos mais sós.

Cala-te boca

O silêncio pode representar muita sabedoria. Como pode representar totalmente o contrário. Quem silencia em geral consente. Mas ficar quieto zera o risco de dizer besteira ou engolir algum inseto intruso. Pois bem, é chegada a hora da razão. A razão não tem umbigo preso nem com o silêncio e muito menos com o barulho. A razão não está nem para o carro de som, como a publicidade, e nem para leitura, com a biblioteca. Ela está para ser usada.

Pois bem! Vejo que o Brasil vive um momento único em sua história. Aqui cabe uma ressalva: claro que na minha única e exclusiva, até agora, opinião. Sim, o país pela primeira vez, em sua história, não precisa que seja exigido de seu povo educação, mas sim razão. Razão na medida certa para cada um. Em cada momento, agir com razão. Praticamente uma ética coletiva.

Como tenho ouvido muita gente expressar seu ódio, de direita ou de esquerda, a fim de silenciar a opiniões alheias, me resta dizer: cala-te boca! Deixe a educação de lado e aja com razão. É isso!

Impressão

warm-bed

Vejo você sorrir e sorrio junto, aspirando teu cheiro que perfuma o travesseiro. Aconchego meu rosto na palma da sua mão quente enquanto sinto seu braço firme enlaçando minha cintura. O aperto suave de outro abraço espalha em mim o calor vivo do peito seu. E ainda que o tempo não passe, quando acordo apenas me resta a lembrança sentida no sonho. Mais cinco minutos de olhos fechados fico, para sentir outra vez seu corpo impresso no meu.

Murilo, o Arguto

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Feito de pétalas rasgadas e sons estúpidos, Murilo me oferecia seu amor oco e disforme. Quando éramos ambos crianças, brincávamos com as bolhas de sabão que saíam de nossas bocas escancaradas e ríamos. O crescimento dos corpos nos tirou a diversão para trazer a aflição dos desejos luxuriosos. E nos braços de todos, hora eu, hora Murilo, éramos para um e outro cada vez mais intangíveis.

Viajei assim, com uma mala vazia e um batom de quinta, lançando olhares a todos os pares de calças do trem. Sentia que Murilo comia com os olhos quaisquer pernas roliças que visse. E ainda que tenhamos comprado destinos separados, nos vimos sozinhos no sopé da mesma serra, de mãos dadas frente à mesma porta azul onde uma cama de casal nos esperava desfeita.

Ele, contrito, me deu mais uma vez aquele amor esfrangalhado. Eu, arrependida, lhe ofereci meu colo usado. E enquanto a lua subia fina e fria no céu ainda claro, a estrela mais brilhante gargalhava ensandecida, achando graça daquele casal tão perdido e só.

Marina, a Intangível

Da observação estática da vida

Viver a vida em câmera lenta é desafiador.

Quando estamos no olho do furacão, parece impossível ser capaz de sair dele, respirar fundo e olhar ao redor com olhos de observar. Tudo parece enredado de uma forma a não nos permitir outra escolha senão continuar, continuar e continuar.

E pior: não só o tal furacão nos consome como a vida ao redor nos leva cada vez mais para dentro, envolve o passado, presente e futuro, envolve o pensamento, as ações, as pessoas ao redor parecem mesmo que não percebem a ventania e então a gente continua.

Parece até música de Chico Buarque, que se repete ao infinito e além.

Mas às vezes a gente passa por umas brincadeirinhas da própria vida, uma pegadinha que ou a gente usa daquela malandragem nata do ser humano para achar a saída (ou ainda que seja um mero atalho) para o país das maravilhas: saímos da maluquice para apenas observá-la e nos arrependermos de não ter feito isso antes. E então tudo parece não fazer sentido, como se estivesse fora do lugar – bobos, olhos de acomodados – e comparando, parece mesmo que estamos em câmera lenta, mas não! Daqui e dali vemos a vida retomando sua forma, agora mais sã, menos perturbadora, mais leve.

Maconha? Alucinógeno?

Não, basta apenas um torcicolo.

Inocência e castigo

fernanda

“Falta muito para que a inocência tenha tanta proteção quanto o crime” (La Rochefoucauld)

Um dia alguém pensa assim. “Vou à manifestação de domingo só para mostrar uns malucos e provar que tem muita gente lá que não entende nada de política”. E realmente vai, e começa a entrevistar algumas pessoas, de preferência aquelas que mais contribuem para o propósito de desqualificar a manifestação. Lá pelas tantas, dá de cara com Fernanda – a simpática Fernanda, de 17 anos, e que trabalha em um escritório.

Ora, esta é a primeira manifestação de Fernanda. Os olhinhos dela chegam a brilhar quando conta isso – inocente, parece esperar que celebrem o fato com ela. Mal sabe ela dos objetivos da entrevista. Primeiro perguntam por que exatamente ela está protestando. Fernanda diz que quer um Brasil melhor, porque ela é o futuro do país – e não diz muita coisa mais do que isso. Quando termina de responder, parece dizer com os olhos: “É só isso que querem de mim?”.

Mas tem mais, claro. É preciso saber se ela apóia o impeachment da presidente, e quem deveria entrar no lugar dela – pergunta que já esconde uma cilada. Mas a inocente Fernanda nada percebe, e confessa, toda sem jeito, que é uma pergunta difícil, que não entende muito dessas coisas, e que nunca votou para Presidente. Perguntam então se ela é de esquerda ou de direita, e Fernanda responde, sem nenhuma convicção, com medo de errar: “de direita”.

A essa altura já está claro que Fernanda não entende de política, mas é preciso praticar mais uma maldade: “Por que de direita?”. E Fernanda ri de nervosa, não sabe o que responder, e pede ajuda para a mãe que está ali por perto: “Mãe, por que a gente é de direita mesmo?”.

Meu Deus, a personagem perfeita! Junta-se então o seu depoimento com o de mais alguns tipos bizarros e está feito um vídeo para circular na Internet. E lá está Fernanda, exposta ao ridículo e ao vitupério nas redes sociais. E lá está a doce Fernanda, para sempre culpada de ser inocente em tempos de guerra.

Verás um filho teu

Foto: Ricardo Matsukawa/Veja.com
Foto: Ricardo Matsukawa/Veja.com

Acompanhei os protestos do último dia 15 pela televisão. Não que eu tivesse premeditado tal conduta. Ao contrário – politicamente volúvel que sou -, minha primeira decisão foi incorporar uma espécie de patriota estouvado. Que após ouvir comentários que previam desfechos nefastos para as marchas, tornei-me um indeciso: ir ou não ir – eis a questão. A partir da daí, quanto mais o dia 15 se aproximava, mais o desânimo me dominava. Até que às vésperas eu já estava tão convencido a não sair às ruas que cheguei ao cúmulo de me envergonhar daquele patriotismo inicial.

Apesar de, no âmbito da política, me considerar um cidadão leviano, carrego uma única convicção: apesar de termos a idade do Canadá, jamais chegaremos aos pés deste país antes do final dos tempos. Para mim, o Brasil é um caso perdido, um paciente incurável, daqueles que só a aniquilação total é capaz de libertar. Excluindo esta certeza, minhas opiniões políticas são tão estáveis quanto bolinhas de gude empilhadas.

Confesso que me surpreendi positivamente com as imagens da Avenida Paulista. Se para alguns – sobretudo para os detentores do poder – não contou como manifestação de amor à Pátria, é inegável que foi um exemplo de civilidade, diferentemente das manifestações de 2013. A massa de um milhão de pessoas abarrotando o cartão-postal paulistano se comportou como se fosse treinada por monges tibetanos. A paz, enfim, foi ubíqua. E – pasmem! – isto me tocou muito mais do que as cores nacionais, os cartazes e a irmanação dos meus concidadãos em torno de um nobre propósito.

Não acho que a nossa presidenta se sensibilize. Falando a verdade, acho que ela é incapaz de palpitar, marejar os olhos, arrepiar os pelos, enfim, de liquidificar seus sentimentos a ponto de produzir um caldo de compaixão. Ninguém se engane: ela não deixará o poder por nada deste mundo – bem diferente do Jânio Quadros, que, para tanto, bastaram forças ocultas.

Eu não teria escrito esta crônica não fosse a paz reinante nos protestos Brasil afora. Orgulhei-me deveras. E foi o espírito pacífico – e tão somente ele – que de fato mexeu comigo. Obviamente que este fenômeno não interferiu no meu pessimismo em relação ao país, mas fez com que eu viesse aqui admitir o arrependimento de não ter aspirado uma fração do ar puro da civilização.

A revolução das panelas

Zé Carlos vendia panelas. Era uma coisa que fazia muito enfastiado, contra vontade. Ali naquele lugar em que Judas perdeu as botas vender panela era a mesma coisa que não vender nada. E Zé Carlos não vendia nada. Um belo dia, um homem aproximou-se dele. “Tenho uma ideia”, cochichou-lhe ao ouvido para estranheza de Zé Carlos que não era chegado nessas intimidades. Zé Carlos insinuou as orelhas. Afinal, dinheiro é a maior convenção de intimidade que há. O homem disse que iria começar a espalhar no Whats uma ideia de bater panela, um tal de panelaço, e que isso valorizaria o mercado de panelas. Zé Carlos olhou de rabo de olho e riu por dentro. “Pode ser por qualquer motivo. Mas eu acho que se for algo contra a Dilma é melhor”. Zé Carlos estapeou o homem! “Como pode?”, pensou enquanto dava outro tapa no infeliz que já considerava retribuir o gesto.

O homem fez um gesto como se quisesse cochichar mais. Zé Carlos assentiu com a cabeça e tornou a insinuar as orelhas. “Tu não quer vender panela? Vai por mim!”

“Mas a Dilma é uma santa! Como alguém pode bater panela contra ela?”, indignou-se o pobre homem. “Mas quem disse que seria contra?”, retrucou o homem com visível empolgação. “É tudo pelas panelas!”.

Zé Carlos sorriu. Concordou com o homem e eles combinaram de manter contato.

No dia seguinte, antes mesmo de Zé Carlos encontrar aquele que viria a chamar de seu anjo da guarda, ele já havia vendido todo o seu estoque de panelas. Estava eufórico. Não renovava o estoque há oito meses. Dilma era ainda mais santa aos olhos de Zé Carlos.

O homem disse que Zé Carlos deveria cobrar mais por suas panelas, mas menos do que nos supermercados da cidade. Zé Carlos concordou prontamente. Sem tapas. As panelas de Zé Carlos vendiam como água na seca. Ele estava regozijante.  À noite, se alegrava de ouvir os sons de suas panelas e entendia que estava contribuindo para o País. Não era em todo o lugar que as panelas de Zé Carlos ecoavam, mas ele não se importava. A revolução tinha apenas começado.

A fita do jornalista

Imagem: https://www.flickr.com/photos/ncalzas/
Imagem: https://www.flickr.com/photos/ncalzas/

O trabalho da moça era transcrever fitas. Quer dizer, fita não tem mais já faz tempo. Eram arquivos de áudio. Mas o trabalho permanecia o mesmo. Tinha fita de estudante de medicina que preferia dormir na aula e pegar o conteúdo depois. Fita de sessão judiciária – era público e notório que as audiências sem júri eram uma chatice sem fim, Vossa Excelência. Fita de sessão parlamentar – sempre um parto para descobrir quem era o nobre deputado da voz esganiçada, o da voz rouca ou aquele que parecia pastor de periferia. E tinha as fitas dos jornalistas, as preferidas dela, Glorinha, porque pelo menos tinha um que falava claramente e outro que contava as barbaridades.

A fita não tinha nada de mais, era apenas a “Entrevista 03.05.mp3” numa pilha de pedidos para a próxima manhã. Coisa de seis a sete horas de áudio. Com a prática, ela demorava uma ou duas horas a mais que isso para concluir um arquivo de texto já inteiramente revisado. O tipo de luxo que custa caro para quem pede e rende pouco para quem faz.  Voltando ao nosso papo. A fita era de um jornalista, como não? Mas a voz marcante era a do interlocutor, um veterinário de cavalos que era um deleite. Suavemente áspera, de timbre seguro, jovem.

O dono daquela voz só podia ser um tipo espetacular. Moreno, de barba por fazer, olhos castanho-esverdeados, daqueles que ficam apertadinhos quando a pessoa sorri. Provável que não fosse solteiro, mas nesse caso, era só mudar de namorada – da outra para ela, Glorinha, obviamente. Nem o nome do entrevistado o relaxado do jornalista informou, fosse ao começo ou no fim da gravação!

Ela cogitou comprar a revista com a reportagem, não sabia quando seria publicada, mas isso era o de menos. Era só conversar com o senhor da banca, que ele guardaria um exemplar com a matéria daquele tal jornalista Renato Nero. Pena que assim, ela ia ter que ficar ouvindo apenas dentro do peito aquela voz narrando o que o jornalista selecionasse para o texto final.

Podia ligar lá na redação, também, e pedir o contato do tal veterinário selvagem, apelido íntimo que Glorinha dera ao futuro pretendente. Mas havia um problema: e se aquela grossura de fala fosse efeito do gravador? E, se pessoalmente, ele tivesse uma vozinha mais ou menos, como a de todo mundo?

Por via das dúvidas, ela salvou uma cópia do arquivo pra si. Até a matéria sair, ela podia bem ir se divertindo sozinha imaginando todas as sacanagens que ele ainda iria lhe dizer ao pé do ouvido.

Filhos

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Em uma certa esquina, próxima à igreja de Santa Cruz dos Enforcados…
– Moça, me compra um leite para eu dar pro meu filho? Ele está faminto, sou pobre, mas desculpe interromper seu café da manhã assim viu moça. Eu não tenho onde morar, nem o que comer, minha esposa está comigo nessa estrada sem teto, mas vivemos assim em paz ainda que imundos, se humilhando aqui e ali, passando por ladrão ou drogado, os dois quem sabe… mas o que a gente tem mesmo é fome, moça. Eu tenho dezoito anos, ela dezesseis, o menino não fez nem um ano mas não era mesmo nem pra ter nascido, um peso nessa vida nossa que já era difícil… ele faz aniversário no mesmo dia da Xuxa, veja você! Hoje tem essa manifestação aí, andamos uns 5 quilômetros pra poder pedir pra essas pessoas de amarelo, afinal é gente brigando pelo país né, moça, e eu sou filho da pátria também né, quem sabe alguém não resolve brigar por mim…. Não quero muito mais nada da vida não, eu já até me cansei de pedir pra Deus, por isso to aqui pedindo pra senhora, pro meu filho hoje ter o que comer. Então moça, será que pode me dar um quilo de leite ninho?

Tenha compaixão de todos nós.