A água e o demônio

toneira

Hélio Pellegrino, o menos lembrado do grupo de escritores conhecido como “quatro cavaleiros mineiros do Apocalipse”, teria muito a dizer se ainda vivesse e testemunhasse a crise da água em São Paulo. Ele, que fazia uma admirável conciliação entre as ideias de Cristo, Marx e Freud, celebrava como autêntico milagre coisas – até então – corriqueiras como abrir a torneira e encontrar água jorrando. Há quase 30 anos, ele assim escrevia: “A cada manhã, ao abrir a torneira da pia, para lavar o rosto, presencio o milagre da água que jorra, prestativa, clara, generosa, modesta. É espantoso que haja água na torneira, a cada dia. Para que isto aconteça, é necessário que muita gente trabalhe, que muitos gestos se somem, que muitos músculos se articulem, desde a nascente da água até o metal da torneira de onde ela jorra, para desespero impotente do demônio – incapaz de anular a bondade que a faz jorrar”.

Essa singela experiência permite que Pellegrino se aproxime da própria natureza divina. Deus, para ele, tem a ver com a sua boca aberta, extasiada diante do mistério de uma flor, de um búzio do mar – ou da água que, milagrosamente, lhe jorra da torneira. E na multidão inumerável de bocas abertas, em êxtase, diante de um Universo que, por todos os tempos da história humana, sempre nos fez cair o queixo, é que a existência divina se lhe revela. “Se se quer amar a Deus, que se aprenda, com reverência, a chupar laranja e a beber água”, escreveu.

Estamos mergulhados no milagre, e mesmo assim nos fazemos de cegos – bocejamos diante de um campo de papoulas, um sorriso de criança, uma côdea de mar, uma fatia de granito, uma réstia de céu: “Só enxergamos as coisas através da mortalha mercantil com que as revestimos”. Ouvir e entender estrelas, além de vê-las, eis um programa que só interessa a uns poucos líricos desocupados como Pellegrino. Assim decreta a multidão dos sérios e ocupados.

Talvez isso ajude a explicar por que ultimamente o demônio tem sido bem sucedido.

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