Crônicas da Vagina – Estavam desenhando vaginas na escola

Os pais estavam indignados. Havia muita agitação na sala. Todos falavam ao mesmo tempo e até indaguei a mim mesma se valia a pena tentar me acomodar naquela panela de pressão. Antes de elaborar qualquer resposta, uma senhora gorda, ofegante, mas muito bem vestida me abordou.

– É um absurdo! Estão desenhando vaginas nas salas de aula! O que é isso? Onde este mundo vai parar?

Ela não me deixou responder. Percebi que não se importava com qualquer resposta.

– A escola precisa tomar uma atitude. Não é possível que alguém continue fazendo esses desenhos obscenos impunemente.

Me afastei. Ela estava tão compenetrada em seu protesto que nem se deu conta. Aproximei-me de um grupo de pais. Eles estavam a falar.

– Não vejo grande problema nisso. E se fossem pênis que estivessem sendo desenhados nos quadros-negros, nas carteiras escolares? Estaríamos aqui para essa reunião?

A mulher parecia discordar do marido.

– Mas é diferente, amor, disse em meio a uma risada nervosa.

– Por quê?, perguntou outra mãe.

– Por que pênis não escandaliza?, provocou outra.

A senhora gorda levou seu protesto ao grupo. Resolvi afastar-me novamente.

– Mas eu acho que é preciso ter uma investigação. Afinal de contas, isto é uma escola. A exposição ao sexo precisa ser controlada, ordenada.

Me movia pela sala e ouvia todo tipo de indignação. Havia, ainda, quem não entendesse a razão para tanto alvoroço. Era uma panela de pressão e a diretora vinha com a tampa.

– Bom dia. Como vocês sabem, convoquei esta reunião porque nossa escola tem sido alvo de um ataque obsceno. Nas últimas três semanas, todas as dependências da escola têm sido alvo de um engraçadinho, ou engraçadinha, que tem feito desenhos de vaginas. A escola gostaria de solicitar aos pais que conversem com seus filhos a respeito.

– Mas vocês sabem quem fez os desenhos?

– Sabemos!

-Quem foi?

– Não iremos tornar pública essa informação. Conversaremos apenas com os responsáveis pelo aluno e ele será devidamente punido.

– É um menino então?

– Não podemos informar senhora. Dizemos aluno no sentido abrangente do termo.

– Mas nos chamou aqui para quê? Podia nos dizer para conversar com nossos filhos pelo telefone.

– A situação é suficientemente grave para justificar uma reunião extraordinária senhor.

– Grave?

– Gravíssima! Não me recordo de alguém desenhando vaginas em uma escola de nível fundamental antes.

– A senhora conversa com seus filhos?

-Senhores, por favor! O problema está em vias de ser resolvido. O responsável será devidamente punido. Peço apenas que conversem com seus filhos a respeito. Foram três semanas em meio a essa caçada humana.

Caçada humana. Eu juro que esse foi o termo usado por ela. Um homem aproximou-se de mim. Era um inspetor. A diretora me chamava para sua sala. Era chegada a hora. Ao que parece, Thabata havia desenhado as vaginas. Thabata tinha dez anos e estaria, segundo a psicóloga da escola, expressando a descoberta de sua sexualidade. Imaginei o que ela diria se a menina estivesse desenhando pênis. Talvez não dissesse nada.

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