Crônicas da Vagina – A ejaculadora em série

O que Ruth e Max mais gostavam naqueles encontros fortuitos das tardes de sexta-feira não era exatamente o sexo, mas o que vinha depois. Uma conversa que embaçava noções de intimidade, distância e anonimato. Ruth e Max falavam sobre seus pacientes, mas não como médicos falam de seus pacientes. As conversas eram sempre climáticas. Eles esperavam ansiosamente por aquele momento. O sexo era só parte das preliminares. O fetiche, a excitação estava em falar do desejo dos outros. De compartilhar segredos de alcova. Max era um sexólogo de certo prestígio na alta sociedade. Oito livros publicados, um até serviu de base para um filme argentino, coisa chique mesmo. Ele não atendia mais. Mas clinicou durante anos. Hoje, dava aulas e seduzia alunas que queriam ser seduzidas. Um clichê, mas um clichê bem resolvido. Ruth era terapeuta sexual. Sua rotina consistia em atender desde casais em busca de reascender a chama do casamento até ninfomaníacas, passando por pessoas com sintomas de frigidez, gays enrustidos, pessoas insatisfeitas com seus desempenhos sexuais e outros paradigmas tutelados por Freud e seus discípulos.

Naquela sexta-feira, Ruth provocou Max. “Duvido que você já tenha tratado de algo parecido com o que estou lidando agora”. Max ainda estava no chuveiro. “E eu duvido que você duvide que eu não tenha tratado”. Ela sentou-se na privada, ascendeu um cigarro e começou a contar.

“O nome dela é Marie. Pobrezinha. 19 anos. Tão francês, né?” E pausou como se esperasse uma reação de Max, que continuou a banhar-se. “Ela me procurou a coisa de três, quatro meses, mas eu estava esperando o caso amadurecer, se desenvolver para te contar. Marie poderia ser enquadrada em algum tipo de ninfomania. Ela gosta de sexo. Gosta muito. Mas não é algo que a domine, entende?”, Max acenou positivamente com a cabeça enquanto esticava o braço para pegar a toalha ofertada por Ruth.

“Marie assusta seus parceiros sexuais por gozar muito intensamente. Ela ejacula bastante e muitos homens não estão acostumados com isso”. Max, que furtava um cigarro do maço de Ruth enquanto ouvia seu relato, interrompeu. “Uma disfunção. Você me prometeu algo especial”. A mulher o abraçou pelas costas e sussurrou-lhe no ouvido para ter calma. Seguiu o relato.

“Marie” me procurou, compreensivelmente, para cessar as ejaculações. Mas então ela teve uma experiência homossexual, com outra paciente minha. Mais velha. Que nunca tinha gozado. Nunca Max. Você consegue imaginar? Aquela mulher simplesmente não tinha desabrochado. Aquela experiência, nova para as duas, modificou a percepção que as duas tinham sobre si. Mas nos atenhamos a Marie. Ela decidiu assumir-se como ejaculadora. Sentia certo prazer em anunciar para possíveis parceiros que gozava loucamente como eles jamais conceberiam e ir lá e gozar loucamente. De encarar a cama como algo para o prazer dela e não para o prazer deles sabe? “Aposto que isso não durou muito tempo”, introjetou Max que já calçava os sapatos. Do bidê, onde banhava seu sexo, Ruth continuou.  “Dura”. Ela faz sexo três ou quatro vezes por semana. Com parceiros diferentes. É impressionante como ela redescobriu a sexualidade. 19 anos. Tão bem resolvida que me inspira. Me excita. Max aproximou-se. “Está com tesão pela tua paciente, Ruth? Gostaria de ouvir sobre isso. Você está se tocando?”A pergunta foi respondida com um jato forte.

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Sobre Reinaldo Glioche


2 respostas para “Crônicas da Vagina – A ejaculadora em série

  • Oliveira Neto

    Reinaldo, quanta criatividade! Você já era ficcionista e eu não sabia, ou é sua primeira investida? Este conto, pra mim, o melhor até agora.

  • Reinaldo Glioche

    Muito obrigado pelo elogio e pelo entusiasmo. Fico realmente feliz. Já pincelei cá e lá na ficção, mas ainda sou um aprendiz. E vamos que vamos!
    Aquele abraço!

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