Aqui se faz…

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Devemos todos acreditar em destino.

Não por intermédio de uma crença, não porque algo maior está observando nossos passos, muito menos porque já existe um futuro traçado para cada um – aliás, diga-se de passagem, a fé em qualquer que seja o nome dado não está em questão no momento.

O caso é que o destino tem seu lado intencional: para muitas pessoas ainda há a chance de escolha, seja de uma profissão, seja de uma outra pessoa, até mesmo de um estilo de vida. Pretende-se sempre alcançar um objetivo, almeja-se sempre subir novos degraus; outros talvez as escolhas sejam menores, menos decisórias, mas toda e qualquer opção feita sempre terá um caminho a ser trilhado.

Porém, o destino tem seu lado de acaso, mas ele costuma ser visto com maus olhos e entendido como algo completamente fora do controle e das previsões – e, de fato, essa é uma característica viva do destino. Tem gente que até chama essas situações de brincadeira, de piada e até de pegadinha (o tom irônico das palavras talvez seja para aliviar a tensão vivida). Há, claro, momentos em que se é pego de surpresa pelo simples fato de ser algo, muitas vezes, indesejado.

O que muitos não percebem é que, na realidade, o sobrenome do destino é consequência. E consequência é aquela história: ela sempre vem, quer você queira, quer não. Difícil mesmo é entender o que é essa tal de consequência; pior ainda é enxergar o porque ela veio, o que foi responsável por ela e que talvez não tenha mais solução.

Uma doença, uma demissão, uma perda, uma decepção: haverá sempre um fator gerador, um estopim que iniciará uma série de fatos, de condições, de momentos decorrentes de uma ação, de uma palavra. Casa escolha tem seu caminho, cada caminho tem atalhos, tem obstáculos. Filosofias à parte, tudo depende de nós.

“Quer casar comigo?” e a consequência será o casamento. Até aqui, parece tudo lindo e perfeito, pois há intencionalidade, o crime é culposo, portanto, sem intenção. “Depois vou ao médico, essa dorzinha não deve ser nada”, e a consequência é que a dor aumenta, o problema se agrava e o remédio não faz mais efeito. “Oh, destino cruel!”. Então eu pergunto: destino??

A copa de uma árvore está sempre firmada por um tronco, caminho de seiva, e por uma raiz, nem sempre visível. O destino até pode ser cruel, mas só porque foi torturado antes…

Nas mãos do cabeleireiro

Deus teve muitas ideias brilhantes, mas acho que dificilmente vou entender o que ele pretendia quando decidiu que nossos fios de cabelo não parariam de crescer nunca. Eu sei que o cabelo tem uma função, protege a cabeça contra os raios do sol e contra o frio, mas será que não dava para deixá-lo com o mesmo tamanho durante toda a vida? Por que justamente o cabelo deve crescer, e não, sei lá, as orelhas? Digo isso porque não me agrada ter que procurar a cada três meses um cabeleireiro (e se eu procuro é apenas porque a situação já se tornou insustentável e não existe mais pente que resolva). A isso se soma um cabelo naturalmente ruim e tem-se uma ideia do tamanho do desafio que eu deixo – a cada três meses – nas mãos do cabeleireiro.

Ou do barbeiro, pois eu corto o cabelo em uma barbearia. Ninguém vai lá para fazer a barba, embora ela também não pare de crescer (por que, meu Deus?), mas o lugar ainda se chama barbearia. É uma das mais tradicionais da cidade. Chego lá, pego o primeiro cabeleireiro que estiver livre, sento-me à cadeira, colocam-me um babador e oferecem-me revistas. Revistas! Já não se cogita mais que alguém passe um tempo entregue aos seus próprios pensamentos. Recuso, como também recuso o serviço de engraxate que oferecem para o meu All Star. O cabeleireiro pergunta como vai ser. Não rapando o meu cabelo, está valendo. Mas, por via das dúvidas, peço a máquina 5, e pediria a 6 se houvesse. E lá me deixo ficar enquanto ele corta.

Eu sei que é um trabalho sob encomenda, mas não deixo de pensar que, aos olhos do cabeleireiro, o que ele faz é uma obra de arte. Fico abismado com o cuidado que dedicam ao meu cabelo. Se eu não saio de lá mais bonito, realmente não é por falta de esforço da parte deles. E tudo isso a despeito da minha irresistível vontade de coçar o nariz ou espirrar tão logo eles comecem a cortar. Fico até sem jeito quando erguem aquele espelhinho e me pedem para avaliar o trabalho. Está ótimo, sempre está ótimo. Mas só por três meses.

Poesia distraída

Todo poeta é paciente. Talvez muitos não saibam, mas um bom poema é fruto de engenho, cálculo. O êxtase e a catarse não enganam mais ninguém. Servem, no máximo, para gerar matéria bruta. E às vezes tão ordinária que de tanto se lapidar não sobra nada. Mas sobre o que realmente eu quero discorrer é o inverso, também verdadeiro: todo paciente é poeta. E antes que a confusão ocorra, esclareço que me refiro àqueles pacientes que nem sempre são pacientes, ou seja, àqueles que, por alguma espécie de padecimento, procuram auxílio para a sua saúde.

há uma chapa ardente sob os meus pés,

e apenas embaixo deles, a brasa

Eu diria que todo paciente é um poeta incônscio, amador e lírico até as últimas notas do seu eu. Os versos, ainda que careçam de algum ajuste, são oriundos de uma espontaneidade exemplar e comovente. Alguns, notavelmente, chegam a declamar um pequeno poema.

a cabeça vive em estalos,

estalos,

pulsando como se uma febre ardesse somente dentro dela

Algum poeta disse que a poesia não deve ser entendida, mas sentida. É justamente o que faço com boa parte da poesia improvisada dos pacientes: senti-la – visto que muitas vezes a maneira de expressar um sintoma não é exatamente como está descrito nos tratados. E não adiantar lamentar o desencontro. Adianta muito sentir.

Meu coração parece um gato possesso arranhando meu peito

Ó Musa Maior dos Poetas, responda-me: é você mesma quem, à espreita nos consultórios, salva da morte prematura lindos arpejos dedilhados em liras queixosas, para depois soprá-los no ouvido dos poetas desesperados?

Crônicas da Vagina – A perseguida

Fernanda se olhava no espelho toda manhã e constatava: “Sou gostosa”. A alguns metros dali, sua irmã, Joana, exercia o mesmo ritual. Mas não constatava nada. A hesitação lhe incomodava. A insegurança lhe despertava sentimentos confusos em relação à irmã.

Joana era gerente bancária.  Fernanda, diretora de marketing de uma multinacional no Brasil. Joana era vegetariana. Fernanda evitava carnes, mas não se furtava aos prazeres de derivados de leite e um salmãozinho.

Fernanda adora provocar os homens e vive sua sexualidade com plena liberdade. Gosta de fazer sexo, não gosta tanto de namorar, e é o que a sociedade convencionou chamar de bissexual, ainda que ela não se reconheça como tal. Joana não pratica sexo regularmente. Só transa quando está namorando. Sério. Bem sério.

As irmãs estavam sentadas à mesa de um restaurante vegano que costumam frequentar uma vez por semana.

Fernanda ouvia a angústia de Joana. Ela estava gostando de um cara, mas percebia que ele ainda hesitava em entrar de corpo e alma na relação. Fernanda pontuava que a relação consistia em mais alma e menos corpo. Joana tinha em sua frente um dilema filosófico, quase existencial. Se abrisse mão de sua convicção, a relação poderia até mesmo se materializar, mas sempre com aquele fantasma de que o sexo a conduzira e não o sentimento. Fernanda disse que ela estava pensando demais e que deveria se entregar à intuição ocasionalmente. Atender ao desejo para variar.

“Minha vez”. Bradou Fernanda tocando o pulso da irmã aflita.

Ela começou a contar o que entendia ser uma curva indesviável em sua carreira. Fernanda já havia feito sexo com todos os seus subordinados no departamento. Mantinha uma amizade colorida com uma menina do financeiro e vivia em constante flerte dois caras da área de criação. Ela sempre se sentiu alvo da inveja feminina, mas gostava de pensar que se alimentava dela. A situação agora era diferente. Ela sentia um ar de insubordinação em todo o ambiente corporativo. Era como se o sexo fosse a senha para toda uma mudança de comportamento. Mesmo de quem não fez sexo com ela.

Ela se queixava à irmã de que não via esse tipo de mudança de atitude em relação aos homens que comem a carne onde se ganha o pão. Joana respondeu que aquilo não era um problema. Que ela demitisse. Transferisse. Reformulasse a equipe. Fernanda se recusava a fazer isso. Argumentou que o mesmo problema surgiria mais para a frente. “Então pare de transar com colegas de trabalho”, sugeriu a irmã. Fernanda a olhou em silêncio. Joana levantou-se e foi ao banheiro.  Quando voltou, ouviu da irmã. “E você dê para ele e abandone esse complexo de perseguida”. Joana retrucou: “E você aceite!”

De um pulo

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Aproveitei a janela aberta e escapuli! Foi assim, cheguei de levinho, devagarinho, fui andando pertinho, olhei prum lado e pro outro e pulei. Ainda ouvi alguém gritar “meniiiiiii…” mas antes que o “na” batesse em meus ouvidos eu já era arremessada por uma rajada de vento para o outro quarteirão. Quando menos esperava caí estatelada em cima de uma imensa pedra quadrada, alta como um salgueiro chorão. Esperei para ver se quicava mas fiquei em profunda inércia. Daí levantei, sacudi o pó da camiseta e gargalhei como louca até doer a barriga. O chão preto, o gás carbônico, as contas atrasadas e a luz branca da sala tinham ficado a quilômetros, presas para sempre no passado que foi! Reforcei o laço no cadarço e pus contente o pé na estrada. No horizonte um sol radiante me esperava! E meu único futuro era virar uma maria caminhante, andarilha verdejante sem lugar certo de parar.

Sobre aquilo que se vê

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Sempre afirmei que a maravilha e a desgraça do mundo é o tal ponto de vista. Maravilha porque isso nos dá visões diferentes sobre um mesmo assunto – o que é muito bom!; desgraça porque cada um tem o seu e briga fervorosamente por ele, ignorando os demais – ignorando as pessoas, inclusive.

Difícil mesmo é enxergar o lado oposto, ou que ele ainda não seja oposto por ser divergente, mas por apenas não ser o seu próprio. Papai sempre disse que eu não fizesse nada ao outro que eu não quisesse que o fizessem para mim e isso sempre fez tanto sentido que hoje essa máxima me justifica tanta desgraça “nível besta” no mundo.

O poder de se colocar na situação alheia para entendê-la, e então avaliar os porquês das ações, é tão mais profundo do que se pensa… Mas cada vez menos encontramos quem enxerga o coletivo, é como se as pessoas estivessem socialmente míopes: tudo o que sair do entorno “meu interesse” não é percebido.

E percebido é a melhor palavra que se poderia usar, porque no fundo todos sabem como agir, é quase que natural, basta olhar como os animais (os tais “irracionais) agem quando em bando… Basta que se desprenda dos valores comerciais que nos impõem para que se enxergue os valores sociais. Voilá Três Mosqueteiros: “um por todos e todos por um”. A frase marcou época, virou jargão e perdeu todo o sentido que carregava. Como se fosse bonito pensar somente em si mesmo.

A pérola do carnaval – mas que época para um pensamento assim! – foi escutar uma música dos Paralamas do Sucesso (salve!) em que diziam que quando não se pensa cada um não se pensa nenhum. Perfeito!, esse é o ponto, foi disso que sempre falei!, mas parece tão difícil de ser entendido, parece que é preciso decifrar a arte de se viver em sociedade quando, no fundo, era só viver.

Felizmente, ainda temos no mundo alguns grãos de areia que se transformam em pérolas e que abrilhantam a vida com seus corações de ouro, com suas cabeças limpas e vozes francas, expondo e vivendo uma verdade bonita, uma verdade coletiva, que serve a todos. Essas andorinhas voam quase sozinhas, quase sem forças, mas voam sem parar. Por elas eu sorrio, por elas eu luto e por elas eu escrevo.

Pensa que é bonito ser feio?

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Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada havia em sua aparência para que o desejássemos (Isaías 53:2)

A musa do tráfico – foi este o apelido que deram a uma jovem bonita e de corpo escultural que, não obstante, estava envolvida com o tráfico. Aparentemente, é bastante inusitado que mulheres que atendem a todos os padrões de beleza façam parte do mundo do crime. Pelo menos foi isso as reportagens deram a entender, todas ressaltando que a jovem estava “acima de qualquer suspeita”. Afinal, quem em sã consciência imaginaria que uma pessoa bonita fosse capaz de cometer alguma maldade? Um feio, vá lá. De um feio sempre se espera as piores coisas. O simples fato de ser feio já o torna altamente suspeito. E quando confirmamos que um feio, efetivamente, cometeu algum crime, podemos dizer que “era de se esperar”.

 Mas se descobrimos que uma jovem bonita, sem celulite, de seios e bumbum durinhos, está envolvida com atividades ilícitas, nossa reação é de espanto, afinal, “ela não precisava disso”. As atividades criminosas, bem o sabemos, são uma necessidade típica de deficientes estéticos, pessoas que precisam, de alguma maneira, compensar o fato de não serem agradáveis ao olhar. Nada mais natural, portanto, que elas se ocupem em matar, roubar ou traficar. Também são essas mesmas pessoas que pedem dinheiro nas ruas. Quando acontece uma excentricidade, como o surgimento de um mendigo galã, nós logo nos apiedamos da sua situação e tratamos de resolvê-la, pois a rua, definitivamente, não é lugar para gente bonita.

Ao feio, portanto, são reservadas as seguintes alternativas de vida: o crime; a mendicância; e o suicídio, que tem a vantagem de trazer poucas consequências para a sociedade. De fato, é uma grande extravagância quando uma pessoa bonita resolve tirar a própria vida, coisa que não deixamos de observar em nossas lamentações: “Mas ela era tão bonita!”. Não devemos, pois, misturar as coisas: aos bonitos o que é bonito, aos feios o que é feio.

 

Quinta-feira de Cinzas

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Sempre gostei de pular Carnaval. É ele acolá e eu justamente acolá. E nada mais justo que, às portas dos meus quarenta anos, eu possa dizer que construí uma história carnavalesca bastante diversificada. Contar tudo numa crônica é impossível – uma trilogia seria o mais indicado. Peguemos então um miraculoso atalho para chegarmos onde quero.

Sem fugir muito à regra, fui iniciado pelos meus pais nos vespertinos bailinhos infantis dos clubes da cidade. Muitas crianças experimentam a bagunça e a abandonam antes da adolescência. Claro está que não foi meu caso.

Conquistada a emancipação, caí diretamente no que podemos chamar de carnaval do tipo muvuca. Caetano Veloso cantou com extrema exatidão esta minha fase no seu “Um frevo novo”: metendo o cotovelo, abrindo caminho, pegando no meu cabelo pra não se perder, na raça se chegando lá, e aqui nessa praça que tudo vai ter que pintar…

Acontece que chegar na raça todo ano cansa. De modo que em algum momento passei a maneirar na folia. E mesmo nos anos em que trabalhei do sábado às Cinzas, não deixei de acompanhar a animação popular, de todos os gêneros, pela televisão. Mas passar em branco, nunca.

Entretanto… Que dirão vocês deste ano? Não tive folga do trabalho e comemorei o primeiro aniversário da minha filha em plena segunda-feira – e o tema da festa não foi o Carnaval. Na Terça-feira Gorda, pela manhã, caminhando para atender a um chamado no hospital, senti que a véspera havia sido um dos dias mais felizes da minha vida. E essa sensação foi curtida com os meus familiares em casa pelo restante do dia. Ontem peguei cedo no batente; o que significa, em outras palavras, me entocar num cubículo em penumbra. E em plenas Cinzas, conclui que não vi sequer uma mulata sambando, um desfile na televisão, um mascarado na rua. Não escutei uma marchinha na orla da praia, não joguei e nem fui alvo de nenhuma serpentina, um mísero confete. Absolutamente nada. Passei em branco?

Quando vivemos uma nova felicidade que lança seus tentáculos por dias a fio, é natural minimizar as paixões antigas. No entanto, o acaso me pregou uma peça – ele adora fazer isso. Pouco antes de voltar pra casa, encontrei na gaveta da minha mesa um livro de contos da Clarice Lispector. Folheei e caí, apropriadamente, nos “Restos do carnaval”. Decidi reler pela enésima vez este belíssimo conto. Belíssimo! Belíssimo! Belíssimo!!!

Assim sendo, deixo minha tradição em vossas mãos: estou ou não estou, hoje, numa Quinta-feira de Cinzas?

Crônicas da Vagina – Caverna dos delírios

João estava com medo de fechar os olhos. Ele não tinha dúvidas de que teria o mesmo sonho que vinha atormentando-o há semanas. Mas os olhos se fecharam e lá estava ele. Tateando em meio à escuridão. A região era mucosa. João nada enxergava.

João gritava, gritava e seus gritos ecoavam pelas paredes da caverna. A caverna então começava a se contrair; as contrações eram fortes e faziam com que João se debatesse. A agonia terminava quando ele era expelido da caverna e acordava na cama.

O sonho já se repetia por semanas. João estava tomando remédios para ficar acordado. Sua mulher, que estava grávida, estava preocupada com o sonho. Ela via uma relação entre o sonho e uma possível rejeição de João a seu filho. Eles não faziam sexo desde a concepção. Não havia nenhuma razão especial para essa privação. Ela apenas se impôs rotineiramente.

João estava novamente na caverna. Dessa vez, porém, conseguia enxergar. As contrações o espremiam de tal maneira que a respiração era cada vez mais difícil. Ele se debatia. Excitou-se. Após o gozo foi expelido com mais delicadeza. As contrações não cessaram abruptamente, mas foram reduzindo gradualmente após o gozo de João. A última contração o expeliu suavemente.

Era o dia do nascimento de Thiago. João estava na sala do parto. Via sua mulher urrar,suar, chorar enquanto as contrações aumentavam. João se esforçava para disfarçar uma indesejada ereção. Sentiu um misto de raiva e pena de si mesmo. Não sabia ao certo se outros no recinto haviam notado sua excitação. Quando seu filho foi expelido, acordou.

Incesto

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Ainda deitada ela suspira encolhida. O sol já vai alto mas treme, pelo tormento proclamado. Assusta-se com o fato de não se arrepender de seu ato quando o mundo todo o julga errado. Perdida em uma satisfação estranha de estar acima do pecado, ela sente a mão quente acariciando seu cabelo embaraçado. Sorri. Se o inferno são os outros, viverão a sós e unidos, felizes em partilhar juntos uma mesma perdição.

…mais de mil palhaços no salão

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… alalaô ooô ooô…

Enfim, é carnaval!

A alegria bailando pelas ruas, as fantasias invadindo a cidade cinza, as músicas soando forte nos corações durante o bater dos bumbos e como é lindo ver o bloco passar, arrastando a multidão!

Mas não.

Acompanhando o desfile à noite, esgueirando pelos cantos das ruas no centro da cidade para alcançar o começo do cortejo, é que se vê muito mais do que alegorias. Entre confetes e serpentinas, garrafas com cola nas mãos de quem deveria somente em brincar de bola. Dançando desvairados corpos seminus, exibindo descompassadamente uma vitrine de marcas de agulhas, facas e cigarros apagados na pele. A cada passo uma novidade para os pés de shopping center, um susto para olhos de seriados americanos, um medo para corações de Dolce Gabbana.

… mas que calor ooô ooô…

Não há, então, alegria que permaneça viva ao final da festança… Ao redor estão olhares desesperados revelando a fragilidade de quem sonha, ao menos por um dia – porque não no carnaval? – tornar-se Colombina e esquecer o destino de ser sempre apenas – e só mais um – pobre Pierrot.

Mas uma constatação sorrateira nasce na cabeça e desce até o bolso: “ufa… meu celular está aqui”.

cachaça não é água não…

          Opa, mudou a música!

          Tem mais um gole?

          Olha aquela gata…

Porque hoje é carnaval…!, e estamos aqui para nos divertir… não é?

A água e o demônio

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Hélio Pellegrino, o menos lembrado do grupo de escritores conhecido como “quatro cavaleiros mineiros do Apocalipse”, teria muito a dizer se ainda vivesse e testemunhasse a crise da água em São Paulo. Ele, que fazia uma admirável conciliação entre as ideias de Cristo, Marx e Freud, celebrava como autêntico milagre coisas – até então – corriqueiras como abrir a torneira e encontrar água jorrando. Há quase 30 anos, ele assim escrevia: “A cada manhã, ao abrir a torneira da pia, para lavar o rosto, presencio o milagre da água que jorra, prestativa, clara, generosa, modesta. É espantoso que haja água na torneira, a cada dia. Para que isto aconteça, é necessário que muita gente trabalhe, que muitos gestos se somem, que muitos músculos se articulem, desde a nascente da água até o metal da torneira de onde ela jorra, para desespero impotente do demônio – incapaz de anular a bondade que a faz jorrar”.

Essa singela experiência permite que Pellegrino se aproxime da própria natureza divina. Deus, para ele, tem a ver com a sua boca aberta, extasiada diante do mistério de uma flor, de um búzio do mar – ou da água que, milagrosamente, lhe jorra da torneira. E na multidão inumerável de bocas abertas, em êxtase, diante de um Universo que, por todos os tempos da história humana, sempre nos fez cair o queixo, é que a existência divina se lhe revela. “Se se quer amar a Deus, que se aprenda, com reverência, a chupar laranja e a beber água”, escreveu.

Estamos mergulhados no milagre, e mesmo assim nos fazemos de cegos – bocejamos diante de um campo de papoulas, um sorriso de criança, uma côdea de mar, uma fatia de granito, uma réstia de céu: “Só enxergamos as coisas através da mortalha mercantil com que as revestimos”. Ouvir e entender estrelas, além de vê-las, eis um programa que só interessa a uns poucos líricos desocupados como Pellegrino. Assim decreta a multidão dos sérios e ocupados.

Talvez isso ajude a explicar por que ultimamente o demônio tem sido bem sucedido.

A última cor do Danúbio

16

Tenho minhas excentricidades como a maioria dos turistas amantes das artes. Uma delas era olhar para as águas azuis do Danúbio e mentalizar a famosa valsa de Strauss. Em Viena, nada feito. O azul do rio não me apareceu e então resolvi apostar tudo na capital da Hungria.

Tão logo nos hospedamos em Buda, subimos a colina rumo ao Bastião dos Pescadores para contemplar a beleza de Peste, localizada do outro lado do Danúbio, que perante minha primeira avaliação, lá de cima, apresentava um tom prateado. Foi então que, já desconfiada, ela me veio com essa:

– Como será que se diz “teste da farmácia” em húngaro?

Tentei dissuadi-la:

– De sangue é mais confiável. No Brasil a gente resolve isso.

– De jeito nenhum!

– Vamos passear, vamos.

Flanamos pela charmosa e arborizada Avenida Andrássy, um passeio agradável que termina na Praça dos Heróis. De todos eles (foram muitos os heróis e os anos de indecisão para escolhê-los), me ficou um tal Konyves Kalman, o primeiro imperador alfabetizado da Hungria que, justamente por ter acesso ao conhecimento escrito, decretou o fim da caça às bruxas nos seus domínios. Na estátua do imperador-leitor, o artista teve o cuidado de esculpir o rosto severo e a palma da mão direita apoiada sobre uma pilha de livros. Paramos para almoçar.

– Amor, peça o cardápio que eu vou ali e já volto.

E retorna sem demora, faceira, trazendo um guardanapo com inscrições esquisitas: “terhességi teszt”.

– Descobri como se escreve teste de gravidez em húngaro. E tem uma farmácia aqui na esquina – ela disse, dando pulinhos.

Impossível deter uma mulher nessas condições. Também aprendi, forçosamente, que “patika” é o simpático nome das farmácias. Compramos, portanto, o teste que faz a aferição qualitativa da gonadotrofina coriônica na urina com 99,9% de eficácia. Em comum acordo, combinamos fazer o exame somente na manhã do dia seguinte, data do nosso nono aniversário de casamento.

Até parece… Mal entrou no quarto do hotel, correu para o banheiro: positivaço! – as duas linhas que poderiam levar um minuto para se tingirem de vermelho, coraram instantaneamente. Emocionados, abraçamo-nos com cautela, já zelosos com a segurança do bebê.

À noite fizemos um passeio de barco pelo Danúbio. Espalmei as mãos no seu ventre e detive meus olhos nas águas do rio: negras como o piche. Nem as luzes do Parlamento deixaram a marola turquesa, ou safira, ou anil, ou cobalto, ou marinho, ou qualquer tom que lembrasse o azul.

No dia seguinte, comemoramos bodas de vime com um jantar à luz de velas num dos restaurantes da colina de Buda. Do terraço contemplamos o crepúsculo tingir o Danúbio, formando nas águas um feixe cônico que oscilava entre o amarelo e o vermelho, predominando o laranja.

Voltei ao Brasil sem flagrar o leito azul do Danúbio. Mas poucas semanas bastaram para eu perceber que este capricho não importava mais. Um exame de sangue identificou o sexo do embrião: sou pai de uma menina – o que em outras palavras quer dizer que, a partir de então, não só o Danúbio, mas o mundo inteiro se pintou todinho de rosa.

Feliz aniversário, minha amada filha.

Crônicas da Vagina – Estavam desenhando vaginas na escola

Os pais estavam indignados. Havia muita agitação na sala. Todos falavam ao mesmo tempo e até indaguei a mim mesma se valia a pena tentar me acomodar naquela panela de pressão. Antes de elaborar qualquer resposta, uma senhora gorda, ofegante, mas muito bem vestida me abordou.

– É um absurdo! Estão desenhando vaginas nas salas de aula! O que é isso? Onde este mundo vai parar?

Ela não me deixou responder. Percebi que não se importava com qualquer resposta.

– A escola precisa tomar uma atitude. Não é possível que alguém continue fazendo esses desenhos obscenos impunemente.

Me afastei. Ela estava tão compenetrada em seu protesto que nem se deu conta. Aproximei-me de um grupo de pais. Eles estavam a falar.

– Não vejo grande problema nisso. E se fossem pênis que estivessem sendo desenhados nos quadros-negros, nas carteiras escolares? Estaríamos aqui para essa reunião?

A mulher parecia discordar do marido.

– Mas é diferente, amor, disse em meio a uma risada nervosa.

– Por quê?, perguntou outra mãe.

– Por que pênis não escandaliza?, provocou outra.

A senhora gorda levou seu protesto ao grupo. Resolvi afastar-me novamente.

– Mas eu acho que é preciso ter uma investigação. Afinal de contas, isto é uma escola. A exposição ao sexo precisa ser controlada, ordenada.

Me movia pela sala e ouvia todo tipo de indignação. Havia, ainda, quem não entendesse a razão para tanto alvoroço. Era uma panela de pressão e a diretora vinha com a tampa.

– Bom dia. Como vocês sabem, convoquei esta reunião porque nossa escola tem sido alvo de um ataque obsceno. Nas últimas três semanas, todas as dependências da escola têm sido alvo de um engraçadinho, ou engraçadinha, que tem feito desenhos de vaginas. A escola gostaria de solicitar aos pais que conversem com seus filhos a respeito.

– Mas vocês sabem quem fez os desenhos?

– Sabemos!

-Quem foi?

– Não iremos tornar pública essa informação. Conversaremos apenas com os responsáveis pelo aluno e ele será devidamente punido.

– É um menino então?

– Não podemos informar senhora. Dizemos aluno no sentido abrangente do termo.

– Mas nos chamou aqui para quê? Podia nos dizer para conversar com nossos filhos pelo telefone.

– A situação é suficientemente grave para justificar uma reunião extraordinária senhor.

– Grave?

– Gravíssima! Não me recordo de alguém desenhando vaginas em uma escola de nível fundamental antes.

– A senhora conversa com seus filhos?

-Senhores, por favor! O problema está em vias de ser resolvido. O responsável será devidamente punido. Peço apenas que conversem com seus filhos a respeito. Foram três semanas em meio a essa caçada humana.

Caçada humana. Eu juro que esse foi o termo usado por ela. Um homem aproximou-se de mim. Era um inspetor. A diretora me chamava para sua sala. Era chegada a hora. Ao que parece, Thabata havia desenhado as vaginas. Thabata tinha dez anos e estaria, segundo a psicóloga da escola, expressando a descoberta de sua sexualidade. Imaginei o que ela diria se a menina estivesse desenhando pênis. Talvez não dissesse nada.