Arquivo do mês: fevereiro 2015

Aqui se faz…

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Devemos todos acreditar em destino.

Não por intermédio de uma crença, não porque algo maior está observando nossos passos, muito menos porque já existe um futuro traçado para cada um – aliás, diga-se de passagem, a fé em qualquer que seja o nome dado não está em questão no momento.

O caso é que o destino tem seu lado intencional: para muitas pessoas ainda há a chance de escolha, seja de uma profissão, seja de uma outra pessoa, até mesmo de um estilo de vida. Pretende-se sempre alcançar um objetivo, almeja-se sempre subir novos degraus; outros talvez as escolhas sejam menores, menos decisórias, mas toda e qualquer opção feita sempre terá um caminho a ser trilhado.

Porém, o destino tem seu lado de acaso, mas ele costuma ser visto com maus olhos e entendido como algo completamente fora do controle e das previsões – e, de fato, essa é uma característica viva do destino. Tem gente que até chama essas situações de brincadeira, de piada e até de pegadinha (o tom irônico das palavras talvez seja para aliviar a tensão vivida). Há, claro, momentos em que se é pego de surpresa pelo simples fato de ser algo, muitas vezes, indesejado.

O que muitos não percebem é que, na realidade, o sobrenome do destino é consequência. E consequência é aquela história: ela sempre vem, quer você queira, quer não. Difícil mesmo é entender o que é essa tal de consequência; pior ainda é enxergar o porque ela veio, o que foi responsável por ela e que talvez não tenha mais solução.

Uma doença, uma demissão, uma perda, uma decepção: haverá sempre um fator gerador, um estopim que iniciará uma série de fatos, de condições, de momentos decorrentes de uma ação, de uma palavra. Casa escolha tem seu caminho, cada caminho tem atalhos, tem obstáculos. Filosofias à parte, tudo depende de nós.

“Quer casar comigo?” e a consequência será o casamento. Até aqui, parece tudo lindo e perfeito, pois há intencionalidade, o crime é culposo, portanto, sem intenção. “Depois vou ao médico, essa dorzinha não deve ser nada”, e a consequência é que a dor aumenta, o problema se agrava e o remédio não faz mais efeito. “Oh, destino cruel!”. Então eu pergunto: destino??

A copa de uma árvore está sempre firmada por um tronco, caminho de seiva, e por uma raiz, nem sempre visível. O destino até pode ser cruel, mas só porque foi torturado antes…


Nas mãos do cabeleireiro

Deus teve muitas ideias brilhantes, mas acho que dificilmente vou entender o que ele pretendia quando decidiu que nossos fios de cabelo não parariam de crescer nunca. Eu sei que o cabelo tem uma função, protege a cabeça contra os raios do sol e contra o frio, mas será que não dava para deixá-lo com o mesmo tamanho durante toda a vida? Por que justamente o cabelo deve crescer, e não, sei lá, as orelhas? Digo isso porque não me agrada ter que procurar a cada três meses um cabeleireiro (e se eu procuro é apenas porque a situação já se tornou insustentável e não existe mais pente que resolva). A isso se soma um cabelo naturalmente ruim e tem-se uma ideia do tamanho do desafio que eu deixo – a cada três meses – nas mãos do cabeleireiro.

Ou do barbeiro, pois eu corto o cabelo em uma barbearia. Ninguém vai lá para fazer a barba, embora ela também não pare de crescer (por que, meu Deus?), mas o lugar ainda se chama barbearia. É uma das mais tradicionais da cidade. Chego lá, pego o primeiro cabeleireiro que estiver livre, sento-me à cadeira, colocam-me um babador e oferecem-me revistas. Revistas! Já não se cogita mais que alguém passe um tempo entregue aos seus próprios pensamentos. Recuso, como também recuso o serviço de engraxate que oferecem para o meu All Star. O cabeleireiro pergunta como vai ser. Não rapando o meu cabelo, está valendo. Mas, por via das dúvidas, peço a máquina 5, e pediria a 6 se houvesse. E lá me deixo ficar enquanto ele corta.

Eu sei que é um trabalho sob encomenda, mas não deixo de pensar que, aos olhos do cabeleireiro, o que ele faz é uma obra de arte. Fico abismado com o cuidado que dedicam ao meu cabelo. Se eu não saio de lá mais bonito, realmente não é por falta de esforço da parte deles. E tudo isso a despeito da minha irresistível vontade de coçar o nariz ou espirrar tão logo eles comecem a cortar. Fico até sem jeito quando erguem aquele espelhinho e me pedem para avaliar o trabalho. Está ótimo, sempre está ótimo. Mas só por três meses.


Poesia distraída

Todo poeta é paciente. Talvez muitos não saibam, mas um bom poema é fruto de engenho, cálculo. O êxtase e a catarse não enganam mais ninguém. Servem, no máximo, para gerar matéria bruta. E às vezes tão ordinária que de tanto se lapidar não sobra nada. Mas sobre o que realmente eu quero discorrer é o inverso, também verdadeiro: todo paciente é poeta. E antes que a confusão ocorra, esclareço que me refiro àqueles pacientes que nem sempre são pacientes, ou seja, àqueles que, por alguma espécie de padecimento, procuram auxílio para a sua saúde.

há uma chapa ardente sob os meus pés,

e apenas embaixo deles, a brasa

Eu diria que todo paciente é um poeta incônscio, amador e lírico até as últimas notas do seu eu. Os versos, ainda que careçam de algum ajuste, são oriundos de uma espontaneidade exemplar e comovente. Alguns, notavelmente, chegam a declamar um pequeno poema.

a cabeça vive em estalos,

estalos,

pulsando como se uma febre ardesse somente dentro dela

Algum poeta disse que a poesia não deve ser entendida, mas sentida. É justamente o que faço com boa parte da poesia improvisada dos pacientes: senti-la – visto que muitas vezes a maneira de expressar um sintoma não é exatamente como está descrito nos tratados. E não adiantar lamentar o desencontro. Adianta muito sentir.

Meu coração parece um gato possesso arranhando meu peito

Ó Musa Maior dos Poetas, responda-me: é você mesma quem, à espreita nos consultórios, salva da morte prematura lindos arpejos dedilhados em liras queixosas, para depois soprá-los no ouvido dos poetas desesperados?


Crônicas da Vagina – A perseguida

Fernanda se olhava no espelho toda manhã e constatava: “Sou gostosa”. A alguns metros dali, sua irmã, Joana, exercia o mesmo ritual. Mas não constatava nada. A hesitação lhe incomodava. A insegurança lhe despertava sentimentos confusos em relação à irmã.

Joana era gerente bancária.  Fernanda, diretora de marketing de uma multinacional no Brasil. Joana era vegetariana. Fernanda evitava carnes, mas não se furtava aos prazeres de derivados de leite e um salmãozinho.

Fernanda adora provocar os homens e vive sua sexualidade com plena liberdade. Gosta de fazer sexo, não gosta tanto de namorar, e é o que a sociedade convencionou chamar de bissexual, ainda que ela não se reconheça como tal. Joana não pratica sexo regularmente. Só transa quando está namorando. Sério. Bem sério.

As irmãs estavam sentadas à mesa de um restaurante vegano que costumam frequentar uma vez por semana.

Fernanda ouvia a angústia de Joana. Ela estava gostando de um cara, mas percebia que ele ainda hesitava em entrar de corpo e alma na relação. Fernanda pontuava que a relação consistia em mais alma e menos corpo. Joana tinha em sua frente um dilema filosófico, quase existencial. Se abrisse mão de sua convicção, a relação poderia até mesmo se materializar, mas sempre com aquele fantasma de que o sexo a conduzira e não o sentimento. Fernanda disse que ela estava pensando demais e que deveria se entregar à intuição ocasionalmente. Atender ao desejo para variar.

“Minha vez”. Bradou Fernanda tocando o pulso da irmã aflita.

Ela começou a contar o que entendia ser uma curva indesviável em sua carreira. Fernanda já havia feito sexo com todos os seus subordinados no departamento. Mantinha uma amizade colorida com uma menina do financeiro e vivia em constante flerte dois caras da área de criação. Ela sempre se sentiu alvo da inveja feminina, mas gostava de pensar que se alimentava dela. A situação agora era diferente. Ela sentia um ar de insubordinação em todo o ambiente corporativo. Era como se o sexo fosse a senha para toda uma mudança de comportamento. Mesmo de quem não fez sexo com ela.

Ela se queixava à irmã de que não via esse tipo de mudança de atitude em relação aos homens que comem a carne onde se ganha o pão. Joana respondeu que aquilo não era um problema. Que ela demitisse. Transferisse. Reformulasse a equipe. Fernanda se recusava a fazer isso. Argumentou que o mesmo problema surgiria mais para a frente. “Então pare de transar com colegas de trabalho”, sugeriu a irmã. Fernanda a olhou em silêncio. Joana levantou-se e foi ao banheiro.  Quando voltou, ouviu da irmã. “E você dê para ele e abandone esse complexo de perseguida”. Joana retrucou: “E você aceite!”


De um pulo

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Aproveitei a janela aberta e escapuli! Foi assim, cheguei de levinho, devagarinho, fui andando pertinho, olhei prum lado e pro outro e pulei. Ainda ouvi alguém gritar “meniiiiiii…” mas antes que o “na” batesse em meus ouvidos eu já era arremessada por uma rajada de vento para o outro quarteirão. Quando menos esperava caí estatelada em cima de uma imensa pedra quadrada, alta como um salgueiro chorão. Esperei para ver se quicava mas fiquei em profunda inércia. Daí levantei, sacudi o pó da camiseta e gargalhei como louca até doer a barriga. O chão preto, o gás carbônico, as contas atrasadas e a luz branca da sala tinham ficado a quilômetros, presas para sempre no passado que foi! Reforcei o laço no cadarço e pus contente o pé na estrada. No horizonte um sol radiante me esperava! E meu único futuro era virar uma maria caminhante, andarilha verdejante sem lugar certo de parar.


Sobre aquilo que se vê

point of view

Sempre afirmei que a maravilha e a desgraça do mundo é o tal ponto de vista. Maravilha porque isso nos dá visões diferentes sobre um mesmo assunto – o que é muito bom!; desgraça porque cada um tem o seu e briga fervorosamente por ele, ignorando os demais – ignorando as pessoas, inclusive.

Difícil mesmo é enxergar o lado oposto, ou que ele ainda não seja oposto por ser divergente, mas por apenas não ser o seu próprio. Papai sempre disse que eu não fizesse nada ao outro que eu não quisesse que o fizessem para mim e isso sempre fez tanto sentido que hoje essa máxima me justifica tanta desgraça “nível besta” no mundo.

O poder de se colocar na situação alheia para entendê-la, e então avaliar os porquês das ações, é tão mais profundo do que se pensa… Mas cada vez menos encontramos quem enxerga o coletivo, é como se as pessoas estivessem socialmente míopes: tudo o que sair do entorno “meu interesse” não é percebido.

E percebido é a melhor palavra que se poderia usar, porque no fundo todos sabem como agir, é quase que natural, basta olhar como os animais (os tais “irracionais) agem quando em bando… Basta que se desprenda dos valores comerciais que nos impõem para que se enxergue os valores sociais. Voilá Três Mosqueteiros: “um por todos e todos por um”. A frase marcou época, virou jargão e perdeu todo o sentido que carregava. Como se fosse bonito pensar somente em si mesmo.

A pérola do carnaval – mas que época para um pensamento assim! – foi escutar uma música dos Paralamas do Sucesso (salve!) em que diziam que quando não se pensa cada um não se pensa nenhum. Perfeito!, esse é o ponto, foi disso que sempre falei!, mas parece tão difícil de ser entendido, parece que é preciso decifrar a arte de se viver em sociedade quando, no fundo, era só viver.

Felizmente, ainda temos no mundo alguns grãos de areia que se transformam em pérolas e que abrilhantam a vida com seus corações de ouro, com suas cabeças limpas e vozes francas, expondo e vivendo uma verdade bonita, uma verdade coletiva, que serve a todos. Essas andorinhas voam quase sozinhas, quase sem forças, mas voam sem parar. Por elas eu sorrio, por elas eu luto e por elas eu escrevo.


Pensa que é bonito ser feio?

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Ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse, nada havia em sua aparência para que o desejássemos (Isaías 53:2)

A musa do tráfico – foi este o apelido que deram a uma jovem bonita e de corpo escultural que, não obstante, estava envolvida com o tráfico. Aparentemente, é bastante inusitado que mulheres que atendem a todos os padrões de beleza façam parte do mundo do crime. Pelo menos foi isso as reportagens deram a entender, todas ressaltando que a jovem estava “acima de qualquer suspeita”. Afinal, quem em sã consciência imaginaria que uma pessoa bonita fosse capaz de cometer alguma maldade? Um feio, vá lá. De um feio sempre se espera as piores coisas. O simples fato de ser feio já o torna altamente suspeito. E quando confirmamos que um feio, efetivamente, cometeu algum crime, podemos dizer que “era de se esperar”.

 Mas se descobrimos que uma jovem bonita, sem celulite, de seios e bumbum durinhos, está envolvida com atividades ilícitas, nossa reação é de espanto, afinal, “ela não precisava disso”. As atividades criminosas, bem o sabemos, são uma necessidade típica de deficientes estéticos, pessoas que precisam, de alguma maneira, compensar o fato de não serem agradáveis ao olhar. Nada mais natural, portanto, que elas se ocupem em matar, roubar ou traficar. Também são essas mesmas pessoas que pedem dinheiro nas ruas. Quando acontece uma excentricidade, como o surgimento de um mendigo galã, nós logo nos apiedamos da sua situação e tratamos de resolvê-la, pois a rua, definitivamente, não é lugar para gente bonita.

Ao feio, portanto, são reservadas as seguintes alternativas de vida: o crime; a mendicância; e o suicídio, que tem a vantagem de trazer poucas consequências para a sociedade. De fato, é uma grande extravagância quando uma pessoa bonita resolve tirar a própria vida, coisa que não deixamos de observar em nossas lamentações: “Mas ela era tão bonita!”. Não devemos, pois, misturar as coisas: aos bonitos o que é bonito, aos feios o que é feio.