Educação congelada

frozen

Na minha festa de aniversário mais marcante ganhei um bolo da Branca de Neve. Havia a casa dos anões, os anões, a Branca de Neve e um laguinho de gelatina brilhando azul numa das pontas. Não fui eu quem escolheu o tema, mas esse lago super azul até hoje é uma das lembranças mais fantásticas que guardo na memória.

Desde o seu segundo aniversário meu sobrinho já sabia exatamente o que queria como tema das suas festinhas. Foram os “Backyardigans”, os personagens de “Carros” e agora, aos seis anos, seria “Frozen”. Nesse último sucesso da Disney, duas irmãs são as protagonistas e os mocinhos são uma novidade: um, que se faz passar por príncipe bondoso, para enganar as duas irmãs, e o outro é um caso de amigo que sai da friend zone. Ao fim, uma irmã se sacrifica para salvar a outra e é essa prova de amor que garante o final feliz. Nada de beijo de príncipe, entenderam? E eu que não achei que viveria pra ver a Disney evoluir.

O problema é que são duas princesas. A decoração seria toda cor de rosa. E ele é menino. “Cor de menino é azul”, ele me explicou cheio de convicção. “Tem certeza? Você já me disse que vermelho é cor de menino”, argumentei – e viva o Homem-Aranha! “Todo mundo sabe que rosa é cor de menina”, ele confirmou. E o filme que é todo azul, por causa do vestido da rainha Elsa, do gelo e dos raios congelantes, por que diabos tinha só decoração rosa? Tinha que ser azul pra todo mundo, cáspita!

Todo escritor tenta passar uma mensagem em seus textos e quanto mais trabalhado nas entrelinhas acreditamos que ele dialogue de forma mais profunda com o leitor. Só que os adultos, ah raça, esses não prestam atenção no filme ou dormem o tempo todo! Imagina se vão pegar as migalhas de pão jogadas nas entrelinhas! Decoração rosa pra menino? Duas princesas?! Não, o meu filho é macho, bota aí o “Patati-Patatá”, o “Angry Birds”, o “Batman”, o “Chico Bento”…

Como se isso fosse garantir a heterossexualidade de alguém. Cresci com esse mundo dividido entre coisas de menina e coisas de menino e a minha geração assistiu a uma explosão de gente se assumindo gay, lésbica, transgênero, etc. Foram super reprimidos e sofreram horrores pra sair do armário, mas conseguiram. E tanta menina que, como eu, se divertia subindo muro, jogando bola, usando metralhadora laser porque tinha um irmão, um primo, um amigo com quem brincar? E o amiguinho que brincava de escolinha e de casinha com a gente? Não pode? Até quando?

Mamães e papais, dividir os brinquedos e os arquétipos só derruba preconceitos. Nada mais é garantido.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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