Crônicas da Vagina – A decisão

Gabriela fitava fixamente o espelho. O fato de estar ali já denotava certa inclinação, mas ela ainda não estava decidida. Vestia uma regata branca e seu longo cabelo castanho escuro estava preso com a piranha favorita de sua irmã. O celular sobre a pia acumulava mensagens no Whatsapp. O grupo estava em polvorosa. As meninas não se aguentavam de ansiedade para ouvir a decisão de Gabriela.

Ela acariciou-se como quem buscava uma resposta instintiva. Como se sua vagina pudesse falar. Pudesse opinar. Ou mesmo decidir por ela. Afinal, ela deveria raspar ou não? Gabriela já havia raspado antes. Mas não gostava de raspar. Tanto que abandonou o hábito. Ela sabia da preferência dos meninos por “raspadinhas”, mas simplesmente não estava disposta a abrir mão de seu bem-estar pelo bem-estar alheio.

Mas aí entrou o João em cena. Gabriela era bem resolvida, mas talvez o João não fosse. Isso estava transformando Gabriela. Pelo menos era o que ela estava pensando naquele momento. Passou a espuma em seus pelos pubianos e pegou o celular. Resolveu espiar algumas das dúvidas, críticas e apoios que recebia no WhatsApp.

Ligou para João. Ele atendeu impaciente. Perguntou o que ela queria. Ela disse que ouvir a voz dele. Ele então perguntou se ela não queria sair para fazer alguma coisa. Ela disse que não. Ele disse que estava com saudades. Ela também. Mas preferiu dizer que o amava. Ele disse que a amava mais. Ela não disse nada. Ele reforçou que a amava mais. Ela disse que duvidava disso. Ele disse que provaria. Ela disse que não precisaria. Ele disse que depois ligaria para ela. Ela disse que esperaria. Ele mandou um beijo. Ela mandou outro. Desligaram em sincronia perfeita.

Gabriela abriu as pernas. Colocou alguma coisa do Carpenters para tocar no celular. Passou mais espuma e empunhou a gilete. Voltou a fitar fixamente o espelho. Respirou fundo e se decidiu.

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Sobre Reinaldo Glioche


Uma resposta para “Crônicas da Vagina – A decisão

  • Aline Viana

    Gostei!
    O amor, o desejo de agradar, a vontade de se manter a própria individualidade, a tendência a se fundir no outro… tudo captado de forma sutil na sua crônica 😉

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