A manga

Caiu uma manga. No dia em que eu começaria a escrever a crônica de hoje caiu uma manga perto de mim. Eu estava com meu afilhado de cinco aninhos, de mãos dadas, caminhando à padaria. A queda se deu às nossas costas, e como o baque surdo me é familiar, eu já sabia do que se tratava quando me virei. Como acabáramos de atravessar a rua, certifiquei-me se algum veículo a havia esmagado. Lá estava ela, postada um pouco antes da faixa de pedestres, a um palmo do para-choque de um veículo que, milagrosamente, não queimou a faixa. A manga sobrevivera incólume. Ato contínuo, fiz o que todo o paraense que passa férias em sua terra natal e se pega assaltado pelo passado faria: acenei para o motorista e catei a manga do chão.

Não há nada mais belenense que apanhar uma manga, seja lá onde ela esteja. Fazemos isto quase por instinto, desde pequeninos. Uma das maiores proezas infantis é escalar o caule grosso das altas mangueiras. O moleque que se oculta entre os galhos e atira lá de cima as mangas maduras é digno da mais sincera admiração. É comum as crianças voltarem da escola com duas ou três mangas maduras recém-caídas. A vantagem destas mangas, as recém-caídas, é o momento em que elas nos são oferecidas. É a própria mangueira que, por sapiência da Natureza, fragiliza o pedículo e permite que o fruto se desgarre. E eu comi a manga justamente neste sublime instante em que a Natureza me agraciou com um pedaço do seu prodigioso corpo.

As mangueiras e seus frutos fazem parte da vida da população. Merecidamente, Belém é conhecida como a Cidade das Mangueiras, pois muitas de suas ruas são cobertas por túneis naturais formados pelo encontro das copas das árvores. O tema da minha redação para o Vestibular foi compor uma narrativa cômica que envolvesse uma mangueira. Lembro que, prontamente, descartei uma história que envolvesse um personagem alvejado na cabeça por uma manga – de tão banais, acidentes deste tipo perderam a graça. Se Isaac Newton fosse belenense e se realmente tivesse o hábito de se recostar ao pé das árvores, ou teria postulado suas Leis desde moleque, ou teria sofrido sérias repercussões neurológicas.

Hoje é dia de Ano Novo e esta crônica deveria tratar do assunto. Eu deveria abordar o Dia da Confraternização Universal, dia em que as pessoas, em vez de acordarem cedo para trabalhar, saem às ruas para se abraçar em nome da Paz Mundial. De fato, eu teria tópicos interessantes a tratar sobre o feriado em que a maior parte das esperanças da Humanidade é depositada. Mas aconteceu que, depois de anos e anos, caiu uma manga perto de mim.

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3 respostas para “A manga

  • Henrique Fendrich

    Dia desses eu encontrei um homem de terno e gravata, com todo o ar de executivo, tentando derrubar mangas de uma árvore. E já havia conseguido umas três ou quatro, que estavam acomodadas em um montinho. Devia ser um belenense nato e hereditário.

  • Reinaldo Glioche

    Haha! E o ano começou bem! Que 2015 nos dê muitas mangas…
    Aquele abraço!

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