Propriedade Particular

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Ilusão pensar que somos donos de alguma coisa, que detemos o poder de decisão sobre ela ou ainda que podemos definir qual será seu começo, meio ou fim. Não caro leitor, não se deixe levar pela maior mentira que o comércio nos imputa – esse pensamento não é forçado por um mero acaso.

Na verdade, nada aqui nos pertence de fato, é tudo uma grande consignação da vida (essa bandida!): quase que sou capaz de escutá-la dizendo que se não cuidar bem do que ela está me oferecendo, vou pagar por isso lá na frente. E não se trata e um castigo, mas sim de consequências naturais desse acordo subliminar.

Note que por mais que se gerencie uma situação com o objetivo de que ela chegue onde queremos, que atinja os objetivos traçados por nós, sempre há surpresas pelo caminho, imprevistos com os quais não podemos lidar e, portanto, somos levados a aceitá-lo ou ainda a mudar todos os nossos planos inicialmente previstos por esse desconhecido. Acaso? Não. Pegadinha? Talvez. Mas é bem mais provável que seja mesmo a vida dizendo “não era bem por aí…”.

E além disso tem ainda aquela máxima que diz que para o túmulo não se leva ouro, não se leva nada. Ainda que seja piegas – e o é! – faz um pouco de sentido, tanto para aqueles que acreditam na vida após a morte (pois tudo recomeça diferente) ou mesmo para os que não acreditam (porque nada recomeça e tudo foi perdido).

Doce ilusão… Pensar que o dinheiro nos faz ricos é quase que pura inocência da nossa parte. É difícil de entender essa lógica, eu sei, mas basta voltar alguns milênios na história que chegaremos à era dos nômades, onde não havia dinheiro, onde os metais eram usados apenas como ferramentas e as coisas não possuíam preço, e sim, valor (e porque não dizer ainda valor agregado?).

Ninguém possui nada, uma vez que tudo se transforma ao longo do tempo (obrigada Hieráclito pela sua descoberta!!). Hoje é seu, mas amanhã não é mais. Então para quê tanta mesquinharia? Particular aqui, nesse mundo, só mesmo a conversa que temos fora daqui…

Dentro do elevador

Por duas vezes aconteceu de eu entrar no elevador e, ao me deparar com pessoas em silêncio, com ar grave e compungido, soltar um “meus pêsames”, em vez do protocolar “bom dia” ou “boa tarde”. A primeira impressão que tenho é realmente a de que alguém morreu. Demoro a perceber que não se trata de um velório, mas do habitual subir-e-descer de quem tem a ventura de trabalhar em um prédio. E ali, dentro do elevador, dou-me conta de que fracassamos, nós todos, como humanidade, como espécie ou coisa que o valha. Porque se estamos tão constrangidos é porque não suportamos ficar próximos a pessoas que não conhecemos. Não somos como os cachorros, que reconhecem uns aos outros e começam a se cheirar. Somos humanos e desconfiados, não nos alegramos por encontrar alguém semelhante a nós. Por isso nos custa tanto andar de elevador.

Ainda bem que inventaram aquelas televisões de elevador, então todos podem erguer a cabeça e se fingir compenetrados, sem obrigação de travar contato uns com os outros. E sempre existe a possibilidade de mexer no celular, mesmo que ele não funcione direito dentro do elevador. Na falta disso, mantemo-nos solenes e distantes, balbuciando alguns cumprimentos para que não nos tomem por mal-educados, e torcendo para que o elevador não estrague.

Outro dia reparei naquele aviso na entrada dos elevadores, dizendo que, antes de entrar, devemos nos certificar de que o elevador está parado no andar. E logo abaixo vem o número de uma lei qualquer. Fiquei pensando: o sujeito não se certifica, cai no fosso do elevador, morre ou se fere gravemente – e ainda tem que responder por um crime!

Há algum tempo eu tive a chance de pegar o elevador sozinho com uma moça muito, mas muito bonita mesmo, que trabalha no mesmo prédio que eu. Precisei disfarçar o meu embasbacamento. Eu nem mesmo tinha coragem de olhá-la. Pois de repente foi a moça bonita que olhou fixamente para mim. E também foi ela quem puxou conversa:

– Tem alguma coisa no seu queixo… pasta de dente, parece…

O meu refúgio

Só tomei consciência de que também tinha um refúgio quando li uma crônica da Clarice Lispector publicada em 22 de abril de 1972 no Jornal do Brasil (e republicada na coletânea “Aprendendo a viver”). A crônica chama-se “Refúgio”, e apesar da coincidência temática e do ambiente bucólico, o meu refúgio é espiritualmente diferente.

Um lago, sempre houve um bonito lago de contornos irregulares e cercado de pinheiros. A água azul-turquesa e fria ganha vida efêmera quando suaves marolas delicadamente esmaecem ao se chocarem aos pedriscos da margem. A extremidade norte do lago perfaz uma curva à direita e se esconde atrás de uma colina – um vulcão emudecido por uma pequena mordaça de neve. No meu refúgio, de latitude subtropical, incide um sol ameno e suficiente para produzir uma agradável tepidez na pele e no espírito após a noite fria. Não há jardins. As pedrinhas alvacentas da margem, caprichosamente pontilhadas pelas nuances do cinza, atapetam a frente da casa e terminam por submergirem nas águas esverdeadas do lago – em determinada hora do dia o lago se pinta de verde. O céu do meu refúgio é azul, mas após o meio-dia se torna nublado, prenúncio de um temporal que se recusa a cair, e que só despenca quando me bate o sono. A casa foi construída em madeira, dois andares, arquitetura simples e sólida, a mobília parca. Não há pinheiros defronte, eles circundam a casa e se encontram nos fundos. Na espaçosa varanda térrea, a brisa fria entra pelas frestas do meu pijama de flanela enquanto caminho com vagar e alguma displicência, cuidando apenas para não molhar as meias de lã nas pedrinhas orvalhadas pela madrugada. No andar superior há uma única janela, em verdade um janelão baixo, ou melhor ainda, uma interface que estabelece um elo de extrema intimidade com o lago, com a colina, com os pinheiros, com o cume nevado, com as pedrinhas, com a marola, com o sol ameno, com o céu nublado… Jamais fico de pé nesta janela, que não sei exatamente onde fica – o vão alterna de lugar com certa frequência. Tal fenômeno me excita e arrasto a poltrona ao novo ponto de introspecção. Neste exato momento estou sentado, acompanhado por um livro, uma caneca de chocolate quente, um cigarro, um cinzeiro (obviamente de madeira) e algumas folhas de papel em branco, porque a qualquer instante começarei a escrever. A qualquer instante… No meu refúgio, Clarice, não há bichos. E eu sou contente.

Crônicas da Vagina – Boceta a prêmio

O bar não estava cheio. À mesa estavam três homens. Já aparentavam mais de 30 anos cada. Cervejas vinham a todo o tempo. Pareciam homens de poder aquisitivo diferenciado.  Estavam felizes. Confiantes. Ela entrou. Era morena. O cabelo, liso e longo, brilhava um preto reluzente. O vestido prateado, curto, ressaltava curvas generosas. Ela sentou-se ao bar. Foi o suficiente para atrair a atenção da mesa.

O garçom fez chegar um bilhete.

Vou dar para o primeiro que me convencer, revelava o guardanapo em batom vermelho.

Eles se entreolharam, trocaram palavras que mais lembravam grunhidos e estabeleceram algum tipo de sequência.

O primeiro levantou-se.

Aproximou-se da mulher e a fitou em silêncio. Ela ajeitou o cabelo e tornou a bebericar seu drinque sem dar muita atenção ao bofe. Ele voltou sob escárnio dos colegas de mesa.

O segundo levantou-se. Puxou um isqueiro.

-Quer fogo?

– Não, obrigada.

– E que coisa louca esse bilhete não?

– Que bilhete?

– Esse que você enviou para a gente.

– Mas eu não enviei bilhete nenhum.

Corado, o rapaz voltou para sua mesa sob olhares constrangidos dos colegas. A moça ajeitou o cabelo novamente e pôs-se a bebericar seu drinque. A bartender, uma lésbica que se divertia com os homens que juravam ser capazes de mudar sua orientação sexual, podia jurar que viu um esboço de sorriso na mulher que, a esta altura, já bebia seu terceiro drinque.

E o terceiro homem apresentou-se.

Entregou um bilhete para ela. Ela riu para ele.

– Tem uma caneta?

Ele entregou a caneta. Ela então escreveu algo no bilhete, o fechou suavemente, deixou sobre o balcão e mandou um beijinho que a bartender descreveria como “cheio de charme”.

Ele pegou o bilhete e retornou à companhia dos amigos que o cobraram com o olhar ao que ele prontamente respondeu.

– Ela nunca disse que seria agora!

The end

Imagem: https://www.flickr.com/photos/ngmmemuda/
Imagem: https://www.flickr.com/photos/ngmmemuda/

Fim não é comigo. Até com final de filme meia boca periga eu deixar uma lágrima cair e depois tentar disfarçar, fazendo o tipo “um cisco que caiu no meu olho”.

Os encerramentos têm seus méritos, como negar? Eles dão aquele pé na bunda providencial para nos impelir, ainda que aos trancos, futuro afora. E também nos deixam mais leves para carregar outras coisas nos ombros. Nem melhores, nem piores, apenas outras coisas.

Só que o fim parece denso demais. Como o sempre e o nunca, conceitos que me barram na entrada. Prefiro o agora, aceito, quiçá, o daqui a pouco, medidas muito mais amigáveis quando o assunto é tempo.

Atrás do fim estariam amigos, lembranças, inimigos fraternos, sonhos. Um poço de passado sem eco, sem fundo.

Não precisa ser assim, é o que dizem. E lembram que todo fim é um recomeço. As portas fechadas às minhas costas confirmam que não há mais nada para se fazer ali. Penso em arriscar a sorte, mas elas não vão tornar a abrir. Kafka que o diga.

Houve certo dia um kafkiar estranho

Quoth the raven

Ouviram, vindo do fundo da sala, um estrondo seco. Era similar ao estouro de um saco de pão. Ao se voltarem instintivamente, uma nuvem de pó descia sobre a cadeira de Lucas revelando uma grande gralha preta, com um longo bico aberto. Por trinta e oito segundos houve silêncio absoluto. Lucas, digo, a gralha desviou o olhar e enfiou o bico sobre a asa esquerda para se coçar. Pulou da cadeira e bamboleante foi até a frente da classe onde voou sobre a mesa do professor visivelmente petrificado. Pousando sem cerimônia defecou sobre a gramática, abriu os longos braços, digo asas e grasnou três vezes. Novo silêncio de trinta e oito segundos. Ela, digo Lucas, entortou a cabeça para a direita, voltou para a posição normal então a deixou cair lentamente para a esquerda.  Há quem diga que se formou no bico do pequeno animal o esboço debochado de um sorriso. Então inesperadamente lançou-se janela a fora, sumindo na escuridão soturna. A histeria tomou conta de todas as classes e a escola foi fechada quando tal absurda metamorfose chegou aos ouvidos do diretor. A população local foi informada de que nada ocorrera, se tratando apenas de um típico caso de delírio coletivo adolescente, no intuito de atrapalhar o bom andamento do ano escolar. Lucas, vez ou outra, era visto nos galhos de uma mangueira próxima ao colégio. Diziam que jamais perdeu uma aula de literatura.

Adeus ano velho…

andorinha

A cada ano que começa, uma mudança iminente aparece. Iminente, sim; mas claramente ilusória. Com 2015 não foi diferente. Talvez porque o ano passado passou e deixou rastros nada positivos, imaginou-se (ou será que fui apenas eu quem imaginou?) que mudanças boas eram inevitáveis.

Passamos por eleições e os seus resultados eram promissores para o levante de uma sociedade mais questionadora, menos passiva e mais perceptiva, sobretudo. Foi o momento mais tenso do ano, mais tenso ainda que o terceiro gol da Alemanha. E foi tenso justamente porque esperava-se que a copa do mundo tivesse acordado as pessoas para a politicagem vigente no país. Sonho meu…

O maior estado do país (financeiramente falando) teve ainda outros detalhes desagradáveis ao longo de 2014, como por exemplo a iminente falta d’água paulista – pela qual eu ouso me condoer por interesses próprios. Mas não. Mesmo não tendo água, mesmo com as tristes imagens da cantareira e relatos de pessoas há meses em racionamento enrustido em “falta de chuva”, nada mudou, as pessoas continuam aceitando o fato e assistindo às emissoras de tevê anunciarem o que já sabíamos.

Vimos atentados gratuitos acontecerem pelo mundo inteiro, assistimos de camarote a violência se espalhar e atingir crianças debaixo de nossas fuças e agora, neste “ano novo”, continuamos discutindo toscamente sobre de quem é a culpa ou ainda quem foi atrevido além da conta, em vez que questionar sobre liberdade, sobre repressão, sobre impunidade, abuso ou poder.

Triste é sentir que não se sente nada disso, que o povo só grita, mas não sabe o que diz, que as pessoas andam para frente sem saber para onde querem ir. Mas eu não.

Estão sambando na nossa cara, dá para sentir a ponta dos saltos altos goela abaixo e calando a boca de cada um por aqui. Mas eu não.

Eu sei fazer gestos com as mãos e corpo inteiros. Eu sei rebolar sem bambolê e desligar a tevê com a ponta do dedo do pé. Ninguém vai me obrigar a discutir sobre nenhum “grande irmão”, ninguém vai me impedir de dizer o que penso. Porque eu sou uma andorinha e vou fazer o verão que me cabe.

Um feliz ano realmente novo para mim, para você e para nós.

Vê se dá uma engordada

– E vê se dá uma engordada, hein?

Este foi o hit do verão. Ouvi essa frase de todo mundo que não me via há muito tempo e que por isso também não sabia que eu andava tão magro. E como parece intolerável que exista um magro perto de nós, foi-me oferecido todo tipo de guloseima para que eu engordasse – ainda que à custa da minha saúde. Recusei o que pude, mas a verdade é que não pude muito. Ao término de duas semanas, voltei para casa três quilos mais gordo – mas ainda magro. E sei que não precisarei fazer nenhum esforço para perdê-los dentro de alguns poucos dias.

É verdade, ando magro mesmo. Pelo menos, mais magro do que sempre fui. De cinco anos para cá, eu perdi quase 10 quilos e já não estou certo se peso o suficiente para fazer uma doação de sangue. Mas há uma razão para todo esse emagrecimento – e não é a anemia ou problema de tireóide, como chegaram a aventar. Acontece que eu passei a morar sozinho, o que na prática significa que não tenho mais a comidinha da mamãe. Dependo dos restaurantes, e neles nunca posso comer muito, sob pena de estourar o meu orçamento. Deixei de jantar, pelo menos de jantar comida de verdade. E, como se não bastasse, ainda comecei com umas frescuras na minha alimentação.

Isto é, eu dei para ser saudável. Cortei refrigerante e batata-frita, diminui as gorduras, passei a controlar o açúcar e o sódio. Carne eu como pouco, e em geral apenas os cortes leves. Verduras eu pego todas. Como muitas frutas. Beber, eu nunca bebi. Sou um exemplo para os nutricionistas, sobretudo porque moro sozinho e não sei cozinhar. Mas tudo isso tem um preço, que é o de emagrecer terrivelmente. Quando me dei conta que as calças estavam começando a cair, tive a ilusão de que talvez fosse possível engordar com saúde também. Mas isso durou até ver o preço do quilo da noz – minha conta bancária não é das mais gordas.

Esses dias uma amiga falou para eu relaxar, que depois dos 40 a coisa muda – eu só não sei se ela se referia à idade ou aos quilos.

A arte HEBDOmadária da ofensa

– Mestre! Mestre! O Senhor está sabendo da última?

– Eu sei de tudo, Pedro. Mas diga o que lhe aflige.

– O Senhor teve acesso aos desenhos infames e repugnantes publicados pelo Imperium Romanum Papyrus?

– Sim.

– Que maneira hedionda de se fazer humor!

– Ao menos, atualmente, eles me julgam uma ameaça à ordem. No futuro, nem isso…

– Tamanha vileza é injustificável! A obscenidade dos escribas é inaceitável!

– Eles não sabem o que fazem.

– Como não sabem? E aquele desenho em que o Senhor está… Não! Não consigo…

– Pedro, meu querido, em termos de civilização, o Homem ainda está engatinhando.

– Não importa, Mestre! Convocarei nossos seguidores para invadir a sede do Papyrus e nos vingarmos daquela canalha! Em nome de Deus!

– Acalme-se, Pedro. Não haverá derramamento de sangue em nome de ninguém. Expurgue o ódio do seu coração.

– Mas Mestre…

– Apesar de vivermos na época em que o Homem engatinha, há uns poucos crescidos e maduros que caminham com os passos firmes.

– Nada faremos?

– Caminhemos, Pedro. Para frente, firmes!

– Ah! Como eu queria estar vivo daqui a dois séculos! Testemunhar as passadas largas e seguras do Homem que já corre!

– Sinto desenganá-lo. A humanidade não conseguirá caminhar com equilíbrio nem daqui a dois milênios.

– O quê!? Não posso crer!

– É verdade. Ouça: lá pela região da Gália, dois mil anos à frente, ofensas gratuitas a valores sagrados serão publicadas. Alegarão o direito à liberdade de expressão para desrespeitar e humilhar os seus semelhantes. E o mais lamentável de tudo: em represália, haverá uma carnificina.

– Céus! Passados vinte séculos e o Homem ainda estará engatinhando?

– Nem tanto, meu querido Pedro. Diria que então o Homem será uma daquelas crianças que, ao se levantar com dificuldade, ensaia dois passinhos e cai.

Crônicas da Vagina – Presente de casamento

Rita gostava de se definir como “almodovariana”. Se via como uma personagem do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Mário gostava desse entusiasmo de Rita. O primeiro filme que assistiram juntos foi “Tudo sobre minha mãe”, o filme favorito dela.

Rita já estava nos últimos estágios de sua redesignação sexual. Faltava a vaginoplastia, que em sua concepção reconstrutiva consiste na remoção do pênis e na construção de uma vagina. Esta última etapa seria o presente de casamento de Mário para Rita. O sexo era bom, mas Rita não se sentia completa. Não se sentia mulher. Faltava-lhe a vagina. Ela temeu que se completasse essa ansiada mudança perderia Mário, já que deixaria de ter o pênis que os uniu a principio. Mas Mário foi vencendo esse receio de sua amada com muito tato. Das visitas ao cirurgião ao estímulo que só os amantes reconhecem, Mário assegurou Rita de que a vagina seria bem-vinda aos dois.

Para o Mário também seria seu primeiro contato com uma vagina, não deixaria de ser um presente para ele também. Uma vagina construída, idealizada, forjada por um amor que transcendia rótulos. Mário talvez estivesse mais empolgado do que Rita.

O casamento só aconteceria depois que Rita estivesse plenamente recuperada do procedimento. A ideia era que a noite de núpcias fosse de experimentação e descoberta. Rita seria uma mulher por inteiro, afinal; e Mário descobriria em seu sexo renovado a mulher que sempre foi. Tratava-se de um presente de casamento para a vida, do tipo que transcende o amor.

A cirurgia foi um sucesso. O casamento também. Mesmo após Rita descobrir a infidelidade de Mário. Diferentemente do que muitos amigos gays imaginavam, e até apostavam, Mário não estava sentindo falta de dar. Ele pulou a cerca à procura de outras vaginas, tão insinuantes na forma como ostensivas no conteúdo. A traição deu mais senso de plenitude a Rita. Ela sentiu-se mais especial. Fora sua vagina, afinal, que convertera Mário em um deflorador.

Eles continuaram juntos. Com o tempo Mário foi abandonando as traições e retomando hábitos sexuais prévios ao casamento. Mas à vagina de Rita, ele sempre foi fiel.

Educação congelada

frozen

Na minha festa de aniversário mais marcante ganhei um bolo da Branca de Neve. Havia a casa dos anões, os anões, a Branca de Neve e um laguinho de gelatina brilhando azul numa das pontas. Não fui eu quem escolheu o tema, mas esse lago super azul até hoje é uma das lembranças mais fantásticas que guardo na memória.

Desde o seu segundo aniversário meu sobrinho já sabia exatamente o que queria como tema das suas festinhas. Foram os “Backyardigans”, os personagens de “Carros” e agora, aos seis anos, seria “Frozen”. Nesse último sucesso da Disney, duas irmãs são as protagonistas e os mocinhos são uma novidade: um, que se faz passar por príncipe bondoso, para enganar as duas irmãs, e o outro é um caso de amigo que sai da friend zone. Ao fim, uma irmã se sacrifica para salvar a outra e é essa prova de amor que garante o final feliz. Nada de beijo de príncipe, entenderam? E eu que não achei que viveria pra ver a Disney evoluir.

O problema é que são duas princesas. A decoração seria toda cor de rosa. E ele é menino. “Cor de menino é azul”, ele me explicou cheio de convicção. “Tem certeza? Você já me disse que vermelho é cor de menino”, argumentei – e viva o Homem-Aranha! “Todo mundo sabe que rosa é cor de menina”, ele confirmou. E o filme que é todo azul, por causa do vestido da rainha Elsa, do gelo e dos raios congelantes, por que diabos tinha só decoração rosa? Tinha que ser azul pra todo mundo, cáspita!

Todo escritor tenta passar uma mensagem em seus textos e quanto mais trabalhado nas entrelinhas acreditamos que ele dialogue de forma mais profunda com o leitor. Só que os adultos, ah raça, esses não prestam atenção no filme ou dormem o tempo todo! Imagina se vão pegar as migalhas de pão jogadas nas entrelinhas! Decoração rosa pra menino? Duas princesas?! Não, o meu filho é macho, bota aí o “Patati-Patatá”, o “Angry Birds”, o “Batman”, o “Chico Bento”…

Como se isso fosse garantir a heterossexualidade de alguém. Cresci com esse mundo dividido entre coisas de menina e coisas de menino e a minha geração assistiu a uma explosão de gente se assumindo gay, lésbica, transgênero, etc. Foram super reprimidos e sofreram horrores pra sair do armário, mas conseguiram. E tanta menina que, como eu, se divertia subindo muro, jogando bola, usando metralhadora laser porque tinha um irmão, um primo, um amigo com quem brincar? E o amiguinho que brincava de escolinha e de casinha com a gente? Não pode? Até quando?

Mamães e papais, dividir os brinquedos e os arquétipos só derruba preconceitos. Nada mais é garantido.

Revertério

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A notícia chegou tarde, ainda assim inebriante. Nada demais as poucas palavras diziam, mesmo sendo suficientes para encher a barriga dela de borboletas. Mas antes que causassem o prometido revertério, ela correu ao banheiro e vomitou outro sonho. Andava a preferir a realidade amarga da bílis a qualquer doçura fingida de alguém que não existe.

Pessoas que sentem prazer

Ele não podia aceitar a ideia de que a sua namorada, idealizada nos melhores conceitos de pureza e retidão de caráter, pudesse um dia sentir prazer. Na sua concepção, isso a tornaria infiel e vulgar, como todas as outras que conhecia e desprezava. Era como se o mundo fosse dividido entre pessoas boas e pessoas que sentem prazer – e apenas ele podia circular entre ambos os mundos. Ela, tímida e recatada, por algum motivo também não conseguia separar a ideia de que o prazer está sempre relacionado a algo doloroso e profundamente mal. De modo que foi até natural que um dia eles se conhecessem e se interessassem um pelo outro.

Mas havia momentos em que tudo o que ele queria era colocar à prova a retidão de sua mulher. No fundo desejava que ela caísse na sua tentação e cedesse a um desejo impuro, porque assim teria motivos para acusá-la. Ela se mantinha firme e enrubescia diante da menor possibilidade de fazer o que não devia. Até o dia em que concordou em fazer aquilo que só os casados tinham o direito de fazer. Fez isso seguramente por amor, pois acima de tudo tinha medo. Não seria de se admirar se no auge daquela noite o homem dissesse coisas como “eu já sabia” ou “eu bem que desconfiava” – sua mulher, enfim, também podia sentir prazer.

Depois disso passou a se sentir mais homem, sabendo-se capaz de satisfazer uma mulher pura. Só que agora ele vive desconfiado. Imagina que ela pode querer sentir a mesma coisa com qualquer um. Julga assim porque é exatamente dessa maneira que ele próprio se comporta em relação às outras mulheres. Agora se sente como se tivesse perdido o controle da situação, e talvez até se arrependa do que diz ter proporcionado à mulher. Ela ignora tudo isso. Ama realmente o seu homem, com uma candura admirável, com uma impressionante dedicação – especialmente quando se sabe que não é merecido. No fundo, até que ele é um bom sujeito. Eu realmente sentiria muito se ele descobrisse que estou saindo com sua mulher.

O meu Puskás

Foto: Reprodução/Internet
Foto: Reprodução/Internet

James Rodríguez não teve juízo nenhum. Arriscar um chute daqueles num jogo de Copa do Mundo transmitido para mais de duzentos países é a prova inconteste da sua falta de juízo. Um pouquinho menos de sorte e os da minha infância gritariam: “Põe o pé na forma!” Mas, para a consagração do jovem jogador colombiano, a bola entrou na única janela disponível entre a mão do goleiro e a trave. Merecido Prêmio Puskás de gol mais bonito de 2014. Aplausos!

Segundo o escritor francês Marcel Proust, a lembrança das coisas passadas não é necessariamente do jeito que elas se deram. De qualquer modo, voilà, o meu Puskás:

Sol equatorial, inclemente. O time precisava da vitória para ir à final e o jogo persistia empatado. Tecnicamente falando, éramos inferiores aos nossos adversários. Portanto, além de rezar para não tomarmos um gol, precisávamos de sorte para marcar. Sem tática nenhuma, eu tentava me fazer onipresente: defesa, meio e ataque. Faltando pouco para o jogo acabar, eu me encurvei no meio do campo, exausto, apoiando as mãos nos joelhos. Talvez atordoado pelo sol, fechei os olhos e experimentei uma premonição: num quadro rápido, visualizei a maneira como eu faria o gol da classificação. Botei fé no delírio. Levantei-me, pus a mão na testa para sombrear os olhos e procurei o nosso goleiro. O dito estava com a bola, era um bom sinal. Frenético, comecei a fazer gestos com as mãos para que chutasse na minha direção. Ele hesitava, queria sair jogando com o zagueiro. “Dane-se! Dá um chutão!”, eu gritava, mesmo que não fosse ouvido. Estávamos marcados no campo de defesa, motivo pelo qual o goleiro se convenceu de que rifar a bola era a melhor opção. Enfim, ele suspendeu a bola no ar e chutou na minha direção. A trajetória da bola me animou. O segmento descendente da parábola deveria terminar exatamente à minha frente, e para isso acontecer, percebi que deveria trotar um pouco adiante, condição que aumentaria a potência do arremate. E lá vem a gorduchinha, e com ela a marcação de um volante. Sou destro e a bola vinha descaindo para a canhota – não havia como corrigir. Entendi que, por maior que fosse a temeridade, eu deveria ignorar a chegada da marcação e bater de esquerda mesmo, da intermediária, exatamente como na minha visão. E foi o que fiz. Era o famoso chute de três dedos, num bate-pronto, como se o meu pé aderisse momentaneamente à bola e a ejetasse como uma catapulta pré-programada. Não sei como se processam esses cálculos dentro da gente, o que sei é que meu pé produziu uma nova parábola – perfeita! O goleiro foi encoberto e a bola atravessou a mesma janela minúscula acertada por James Rodríguez. Um golaço! Ainda tínhamos a final para jogar e perder naquele mesmo dia. Hoje o vice-campeonato pouco importa. Eu comemorei o meu Puskás tomado de alegria, com febre, sem juízo nenhum.