Arquivo do mês: janeiro 2015

Propriedade Particular

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Ilusão pensar que somos donos de alguma coisa, que detemos o poder de decisão sobre ela ou ainda que podemos definir qual será seu começo, meio ou fim. Não caro leitor, não se deixe levar pela maior mentira que o comércio nos imputa – esse pensamento não é forçado por um mero acaso.

Na verdade, nada aqui nos pertence de fato, é tudo uma grande consignação da vida (essa bandida!): quase que sou capaz de escutá-la dizendo que se não cuidar bem do que ela está me oferecendo, vou pagar por isso lá na frente. E não se trata e um castigo, mas sim de consequências naturais desse acordo subliminar.

Note que por mais que se gerencie uma situação com o objetivo de que ela chegue onde queremos, que atinja os objetivos traçados por nós, sempre há surpresas pelo caminho, imprevistos com os quais não podemos lidar e, portanto, somos levados a aceitá-lo ou ainda a mudar todos os nossos planos inicialmente previstos por esse desconhecido. Acaso? Não. Pegadinha? Talvez. Mas é bem mais provável que seja mesmo a vida dizendo “não era bem por aí…”.

E além disso tem ainda aquela máxima que diz que para o túmulo não se leva ouro, não se leva nada. Ainda que seja piegas – e o é! – faz um pouco de sentido, tanto para aqueles que acreditam na vida após a morte (pois tudo recomeça diferente) ou mesmo para os que não acreditam (porque nada recomeça e tudo foi perdido).

Doce ilusão… Pensar que o dinheiro nos faz ricos é quase que pura inocência da nossa parte. É difícil de entender essa lógica, eu sei, mas basta voltar alguns milênios na história que chegaremos à era dos nômades, onde não havia dinheiro, onde os metais eram usados apenas como ferramentas e as coisas não possuíam preço, e sim, valor (e porque não dizer ainda valor agregado?).

Ninguém possui nada, uma vez que tudo se transforma ao longo do tempo (obrigada Hieráclito pela sua descoberta!!). Hoje é seu, mas amanhã não é mais. Então para quê tanta mesquinharia? Particular aqui, nesse mundo, só mesmo a conversa que temos fora daqui…


Dentro do elevador

Por duas vezes aconteceu de eu entrar no elevador e, ao me deparar com pessoas em silêncio, com ar grave e compungido, soltar um “meus pêsames”, em vez do protocolar “bom dia” ou “boa tarde”. A primeira impressão que tenho é realmente a de que alguém morreu. Demoro a perceber que não se trata de um velório, mas do habitual subir-e-descer de quem tem a ventura de trabalhar em um prédio. E ali, dentro do elevador, dou-me conta de que fracassamos, nós todos, como humanidade, como espécie ou coisa que o valha. Porque se estamos tão constrangidos é porque não suportamos ficar próximos a pessoas que não conhecemos. Não somos como os cachorros, que reconhecem uns aos outros e começam a se cheirar. Somos humanos e desconfiados, não nos alegramos por encontrar alguém semelhante a nós. Por isso nos custa tanto andar de elevador.

Ainda bem que inventaram aquelas televisões de elevador, então todos podem erguer a cabeça e se fingir compenetrados, sem obrigação de travar contato uns com os outros. E sempre existe a possibilidade de mexer no celular, mesmo que ele não funcione direito dentro do elevador. Na falta disso, mantemo-nos solenes e distantes, balbuciando alguns cumprimentos para que não nos tomem por mal-educados, e torcendo para que o elevador não estrague.

Outro dia reparei naquele aviso na entrada dos elevadores, dizendo que, antes de entrar, devemos nos certificar de que o elevador está parado no andar. E logo abaixo vem o número de uma lei qualquer. Fiquei pensando: o sujeito não se certifica, cai no fosso do elevador, morre ou se fere gravemente – e ainda tem que responder por um crime!

Há algum tempo eu tive a chance de pegar o elevador sozinho com uma moça muito, mas muito bonita mesmo, que trabalha no mesmo prédio que eu. Precisei disfarçar o meu embasbacamento. Eu nem mesmo tinha coragem de olhá-la. Pois de repente foi a moça bonita que olhou fixamente para mim. E também foi ela quem puxou conversa:

– Tem alguma coisa no seu queixo… pasta de dente, parece…


O meu refúgio

Só tomei consciência de que também tinha um refúgio quando li uma crônica da Clarice Lispector publicada em 22 de abril de 1972 no Jornal do Brasil (e republicada na coletânea “Aprendendo a viver”). A crônica chama-se “Refúgio”, e apesar da coincidência temática e do ambiente bucólico, o meu refúgio é espiritualmente diferente.

Um lago, sempre houve um bonito lago de contornos irregulares e cercado de pinheiros. A água azul-turquesa e fria ganha vida efêmera quando suaves marolas delicadamente esmaecem ao se chocarem aos pedriscos da margem. A extremidade norte do lago perfaz uma curva à direita e se esconde atrás de uma colina – um vulcão emudecido por uma pequena mordaça de neve. No meu refúgio, de latitude subtropical, incide um sol ameno e suficiente para produzir uma agradável tepidez na pele e no espírito após a noite fria. Não há jardins. As pedrinhas alvacentas da margem, caprichosamente pontilhadas pelas nuances do cinza, atapetam a frente da casa e terminam por submergirem nas águas esverdeadas do lago – em determinada hora do dia o lago se pinta de verde. O céu do meu refúgio é azul, mas após o meio-dia se torna nublado, prenúncio de um temporal que se recusa a cair, e que só despenca quando me bate o sono. A casa foi construída em madeira, dois andares, arquitetura simples e sólida, a mobília parca. Não há pinheiros defronte, eles circundam a casa e se encontram nos fundos. Na espaçosa varanda térrea, a brisa fria entra pelas frestas do meu pijama de flanela enquanto caminho com vagar e alguma displicência, cuidando apenas para não molhar as meias de lã nas pedrinhas orvalhadas pela madrugada. No andar superior há uma única janela, em verdade um janelão baixo, ou melhor ainda, uma interface que estabelece um elo de extrema intimidade com o lago, com a colina, com os pinheiros, com o cume nevado, com as pedrinhas, com a marola, com o sol ameno, com o céu nublado… Jamais fico de pé nesta janela, que não sei exatamente onde fica – o vão alterna de lugar com certa frequência. Tal fenômeno me excita e arrasto a poltrona ao novo ponto de introspecção. Neste exato momento estou sentado, acompanhado por um livro, uma caneca de chocolate quente, um cigarro, um cinzeiro (obviamente de madeira) e algumas folhas de papel em branco, porque a qualquer instante começarei a escrever. A qualquer instante… No meu refúgio, Clarice, não há bichos. E eu sou contente.


Crônicas da Vagina – Boceta a prêmio

O bar não estava cheio. À mesa estavam três homens. Já aparentavam mais de 30 anos cada. Cervejas vinham a todo o tempo. Pareciam homens de poder aquisitivo diferenciado.  Estavam felizes. Confiantes. Ela entrou. Era morena. O cabelo, liso e longo, brilhava um preto reluzente. O vestido prateado, curto, ressaltava curvas generosas. Ela sentou-se ao bar. Foi o suficiente para atrair a atenção da mesa.

O garçom fez chegar um bilhete.

Vou dar para o primeiro que me convencer, revelava o guardanapo em batom vermelho.

Eles se entreolharam, trocaram palavras que mais lembravam grunhidos e estabeleceram algum tipo de sequência.

O primeiro levantou-se.

Aproximou-se da mulher e a fitou em silêncio. Ela ajeitou o cabelo e tornou a bebericar seu drinque sem dar muita atenção ao bofe. Ele voltou sob escárnio dos colegas de mesa.

O segundo levantou-se. Puxou um isqueiro.

-Quer fogo?

– Não, obrigada.

– E que coisa louca esse bilhete não?

– Que bilhete?

– Esse que você enviou para a gente.

– Mas eu não enviei bilhete nenhum.

Corado, o rapaz voltou para sua mesa sob olhares constrangidos dos colegas. A moça ajeitou o cabelo novamente e pôs-se a bebericar seu drinque. A bartender, uma lésbica que se divertia com os homens que juravam ser capazes de mudar sua orientação sexual, podia jurar que viu um esboço de sorriso na mulher que, a esta altura, já bebia seu terceiro drinque.

E o terceiro homem apresentou-se.

Entregou um bilhete para ela. Ela riu para ele.

– Tem uma caneta?

Ele entregou a caneta. Ela então escreveu algo no bilhete, o fechou suavemente, deixou sobre o balcão e mandou um beijinho que a bartender descreveria como “cheio de charme”.

Ele pegou o bilhete e retornou à companhia dos amigos que o cobraram com o olhar ao que ele prontamente respondeu.

– Ela nunca disse que seria agora!


The end

Fim não é comigo. Até com final de filme meia boca periga eu deixar uma lágrima cair e depois tentar disfarçar, fazendo o tipo “um cisco que caiu no meu olho”.

Os encerramentos têm seus méritos, como negar? Eles dão aquele pé na bunda providencial para nos impelir, ainda que aos trancos, futuro afora. E também nos deixam mais leves para carregar outras coisas nos ombros. Nem melhores, nem piores, apenas outras coisas.

Só que o fim parece denso demais. Como o sempre e o nunca, conceitos que me barram na entrada. Prefiro o agora, aceito, quiçá, o daqui a pouco, medidas muito mais amigáveis quando o assunto é tempo.

Atrás do fim estariam amigos, lembranças, inimigos fraternos, sonhos. Um poço de passado sem eco, sem fundo.

Não precisa ser assim, é o que dizem. E lembram que todo fim é um recomeço. As portas fechadas às minhas costas confirmam que não há mais nada para se fazer ali. Penso em arriscar a sorte, mas elas não vão tornar a abrir. Kafka que o diga.


Houve certo dia um kafkiar estranho

Quoth the raven

Ouviram, vindo do fundo da sala, um estrondo seco. Era similar ao estouro de um saco de pão. Ao se voltarem instintivamente, uma nuvem de pó descia sobre a cadeira de Lucas revelando uma grande gralha preta, com um longo bico aberto. Por trinta e oito segundos houve silêncio absoluto. Lucas, digo, a gralha desviou o olhar e enfiou o bico sobre a asa esquerda para se coçar. Pulou da cadeira e bamboleante foi até a frente da classe onde voou sobre a mesa do professor visivelmente petrificado. Pousando sem cerimônia defecou sobre a gramática, abriu os longos braços, digo asas e grasnou três vezes. Novo silêncio de trinta e oito segundos. Ela, digo Lucas, entortou a cabeça para a direita, voltou para a posição normal então a deixou cair lentamente para a esquerda.  Há quem diga que se formou no bico do pequeno animal o esboço debochado de um sorriso. Então inesperadamente lançou-se janela a fora, sumindo na escuridão soturna. A histeria tomou conta de todas as classes e a escola foi fechada quando tal absurda metamorfose chegou aos ouvidos do diretor. A população local foi informada de que nada ocorrera, se tratando apenas de um típico caso de delírio coletivo adolescente, no intuito de atrapalhar o bom andamento do ano escolar. Lucas, vez ou outra, era visto nos galhos de uma mangueira próxima ao colégio. Diziam que jamais perdeu uma aula de literatura.


Adeus ano velho…

andorinha

A cada ano que começa, uma mudança iminente aparece. Iminente, sim; mas claramente ilusória. Com 2015 não foi diferente. Talvez porque o ano passado passou e deixou rastros nada positivos, imaginou-se (ou será que fui apenas eu quem imaginou?) que mudanças boas eram inevitáveis.

Passamos por eleições e os seus resultados eram promissores para o levante de uma sociedade mais questionadora, menos passiva e mais perceptiva, sobretudo. Foi o momento mais tenso do ano, mais tenso ainda que o terceiro gol da Alemanha. E foi tenso justamente porque esperava-se que a copa do mundo tivesse acordado as pessoas para a politicagem vigente no país. Sonho meu…

O maior estado do país (financeiramente falando) teve ainda outros detalhes desagradáveis ao longo de 2014, como por exemplo a iminente falta d’água paulista – pela qual eu ouso me condoer por interesses próprios. Mas não. Mesmo não tendo água, mesmo com as tristes imagens da cantareira e relatos de pessoas há meses em racionamento enrustido em “falta de chuva”, nada mudou, as pessoas continuam aceitando o fato e assistindo às emissoras de tevê anunciarem o que já sabíamos.

Vimos atentados gratuitos acontecerem pelo mundo inteiro, assistimos de camarote a violência se espalhar e atingir crianças debaixo de nossas fuças e agora, neste “ano novo”, continuamos discutindo toscamente sobre de quem é a culpa ou ainda quem foi atrevido além da conta, em vez que questionar sobre liberdade, sobre repressão, sobre impunidade, abuso ou poder.

Triste é sentir que não se sente nada disso, que o povo só grita, mas não sabe o que diz, que as pessoas andam para frente sem saber para onde querem ir. Mas eu não.

Estão sambando na nossa cara, dá para sentir a ponta dos saltos altos goela abaixo e calando a boca de cada um por aqui. Mas eu não.

Eu sei fazer gestos com as mãos e corpo inteiros. Eu sei rebolar sem bambolê e desligar a tevê com a ponta do dedo do pé. Ninguém vai me obrigar a discutir sobre nenhum “grande irmão”, ninguém vai me impedir de dizer o que penso. Porque eu sou uma andorinha e vou fazer o verão que me cabe.

Um feliz ano realmente novo para mim, para você e para nós.