Acredito, sim

aviao

– Acredito, sim.
– Então peça o que quiser.
– Qualquer coisa?
– Qualquer coisa.
Talvez mais por desconfiança e menos por megalomania infantil, pedi um avião. Um avião! E prontamente fui tranquilizado: a aeronave chegaria sem falta, no dia certo. Eu estava convencido.

– Posso vê-lo?
– Não. Ele só aparece quando a criança dorme.
– Queria ficar acordado.
– Se não for dormir, ele não vem.
Botei o pijama e me deitei na cama. Demorei algum tempo para conciliar o sono. De vez em quando abria os olhos, na tentativa de flagrá-lo. Nada acontecia. Nenhum ruído estranho, apenas a habitual movimentação da casa. Adormeci.

– O que foi?
– Acorda, filho! Ele acabou de sair!
– Onde? Onde?
– Pela janela! Veja: um pedaço da barba ficou preso no trinco.
Segurei o chumaço branco na mão. Um outro pendia no trinco. Corri à janela. Talvez o visse, ao menos, pelas costas. A rua estava deserta, silenciosa, e batia uma brisa suave. Olhei para os vestígios que ele deixara e admiti: foi por pouco!

– Ele deixou ao pé da cama.
– O meu avião?
– Sim, abra.
– O meu avião?
O pacote era grande, maior que a média, mas não o suficiente para conter um avião. Desconfiado, desembrulhei o presente. Retirei, cuidadosamente, um caça F-14 de dentro da caixa. Não havia o que negar. De fato, um avião. E era lindo o meu avião!

Natal de 1981, época em que eu ainda acreditava em muita coisa.

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