Das páginas à realidade – Parte 2

Esta crônica deveria ser publicada na quinta-feira passada, posto que o reencontro com o “leitor” se deu na véspera. Mas ainda não sou daqueles cronistas que despejam no papel o texto acabado. Além da falta de tempo, alguns dias para a revisão são sempre bem-vindos. No meu caso, entenda-se revisão da maneira mais ampla possível, inclusive como rescrever totalmente a crônica. Pois bem, reencontrei-me com o personagem.

Desta vez, quando entrei, o “leitor” já se encontrava na sala de estar – obviamente despojado de qualquer livro, fazendo jus à caricatura. De costas para a porta, não me viu apanhar um café e me acomodar no sofá. Tive tempo para me preparar. O que eu premeditava por em prática não era nada de mais – bobéia, diria Guimarães Rosa -, porém me seria desagradável e precisei de um pouco de coragem até. Lima Barreto, mais que qualquer outro, merecia o reparo.

O “leitor” me avistou, caminhou em minha direção e, infalível como a morte, perguntou-me o que estava lendo. Exclamei, forte, com um timbre que eu mesmo estranhei:

– Lima Barreto!

Ainda não precisei mentir. Faltavam, de fato, dez páginas para o final das Recordações.

– Deixa ver o que é – disse ele, tencionando apanhar o livro, ao que firmei os dedos na lombada e afastei discretamente do seu alcance.

– Lima Barreto! É aquele mesmo! – repeti, mantendo o pulso e o tom.

– Deixa ver. Não lembro mais. Faz mais de vinte dias que vi – ele insistiu, risonho, em apanhar o livro. Implacável, resisti:

– Que nada! Nos falamos semana passada!

– É um romance?

– É.

– Ele escreve bem?

– Muito!

Minhas duas últimas falas mantiveram-se alteadas e secas, proferidas sem tirar os olhos do livro. Desconheci-me na descortesia, enquanto ele, com a graça no chão, amarelou o sorriso e saiu. Coloquei o marcador no livro e refiz mentalmente o diálogo. Quedei-me pasmo com as perguntas as quais fui submetido. Lima Barreto, cem anos após, continua discriminado – ainda que por meio de uma fanfarronice incônscia. Quedei-me pasmo e convicto: daria um ótimo personagem esse “leitor”.

Cumpri a promessa, mas não sei se continuarei firme no propósito. Bem provável que da próxima vez eu volte a ser o mesmo. E ele também. E talvez retomemos nosso círculo vicioso e ignóbil. Nem sempre se sente bem quem faz “justiça”, quem age com a lei da reciprocidade. Mas, como todo cristão, sou falho: ainda não sei levar um tapa na capa e oferecer a contracapa.

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3 respostas para “Das páginas à realidade – Parte 2

  • José Borges

    Sei porque te sentes mal. Bolanos, ainda que humorista, levantou uma frase no Chaves digna de grande livro (talvez até tenha tirado de um): “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.
    Quando discorremos sobre a frase, vemos que é verdade: para as pessoas que gostam de fazer o mal, a vingança não é plena, ela sempre achará que sofreu mais do que fez. E para os que tem simpatia naturalmente, fazer a justiça como falaste mexe com a consciência.
    Enfim, também não consigo te imaginar falando da maneira que escreveste pois não é do teu feitio natural mesmo, mas bom saber que ele teve uma pequena lição. Provavelmente no próximo encontro de vocês ele pensará melhor antes de falar.

  • Henrique Fendrich

    Esse nunca mais falará nada contra Lima Barreto. Pelo menos na sua presença! E também entendo o sentimento de não se sentir bem com a justiça, muitas vezes um nome bonito que damos para as nossas vinganças.

  • F. Borges Neto

    O ataque gratuito e infundado a uma obra que, para muitos, é reconhecidamente boa contribuiu para minha “homenagem” ao Lima Barreto. Mas, no fundo, a maior parte da motivação para o desagravo foi o comportamento atrevido e debochado para comigo. Daí a metáfora da capa e contracapa.

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