Sorkin, Bolsonaro e a referência desestabilizadora entre eles

Você talvez não conheça Aaron Sorkin, mas já deve estar cansado de Jair Bolsonaro. O que diabos, afinal, os dois fazem juntos nesse artigo tão pretensioso? Bem, Aaron Sorkin, cujo principal crédito é o roteiro do excepcional filme “A rede social”, é o criador da risível série “The Newsroom”. O programa da HBO retrata os bastidores da redação de um telejornal. Mas não é uma retratação na acepção acurada da palavra. Trata-se da visão de Sorkin de como o jornalismo, e os jornalistas, deveriam se comportar. Tudo muito nobre, tudo muito chato. E, agora, à luz dos vazamentos dos e-mails e documentos do estúdio de cinema Sony – uma retaliação de um grupo cyber terrorista norte-coreano à realização do filme “A entrevista”, tudo muito hipócrita. Sorkin publicou um artigo no The New York Times criticando a “imprensa amarela” que só pensa no lucro por repercutir e divulgar o conteúdo vazado pelos hackers. O roteirista advoga que não há interesse público. Logo ele que saiu em defesa de Julian Assange e Edward Snowden. A questão é que agora, Sorkin se vê citado no meio do furacão. Mas há interesse público? Lógico que sim. A notícia de que atrizes ganham menos do que atores em filmes se insere em um debate social relevante. A presidente de um estúdio fazendo piadinhas racistas com o presidente dos EUA é de interesse público. A forma como grandes estúdios de cinema financiam seus filmes é de interesse público. Pode-se argumentar que não existe um interesse do mesmo nível do suscitado pelas movimentações ocultas do Estado, mas não se pode negar que haja o interesse. Isso nos induz à constatação de que Sorkin é um hipócrita. Como todos os outros? Pior. Pois, ele escreve e produz “The Newsroom” e evoca uma autoridade moral, agora, chamuscada.

Mas e Bolsonaro nesta história? Jair Bolsonaro é, o que se convém dizer por aí, um idiota. Daquele tipo que merece ser ignorado. Mas o brasileiro gosta de incensar um certo tipo de personalidade polemista. Até aí, tudo bem. Mas Bolsonaro só disse que “não estuprava” Maria do Rosário porque ela o chamou de estuprador. Em termos de decoro parlamentar, ele incorreu em erro tanto quanto ela. Nem mais, nem menos. Não só. Bolsonaro merece ser cassado? A resposta seria positiva se esse foi um país sério e sem o rabo preso.  Mas, infelizmente, é não. Em face de um maremoto de corrupção e destemperos no uso e na condução da coisa pública, o “pecado” de Bolsonaro parece menor. O hoje presidente do Senado, há sete anos, foi flagrado em um malfeito dos mais escandalosos. Uma empreiteira pagava a pensão da amante e da filha dele fora do casamento. Renan Calheiros, que colecionou outros descalabros em sua carreira política, não suscita clamores tão veementes por justiça. A referência é desestabilizadora e reveladora de como traímos a nós mesmos quando surfamos na onda do politicamente correto.

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