(A)moralidade na ficção

10

De vez em quando sou assaltado por um espírito competitivo e procuro me informar sobre concursos literários. Semana passada, cascavilhando na Internet, deparei-me com um certame que carregava, na categoria “conto”, o peso e a responsabilidade do título “Machado de Assis”. Comecei a ler o edital e, lá pelas tantas, um obstáculo: “Os contos devem conter elementos que promovam o bem-estar e os valores morais”. Reli. A condição era clara: a promoção do bem-estar e dos valores morais. Já prevendo o resultado, consultei meus arquivos. Forcei a barra em um conto, pensei em reescrever outro, tudo em vão – no meu julgamento final, nada se “salvou”. Desisti de concorrer, mas não de pensar no assunto.

Na primeira metade do século XIX, Edgar Allan Poe publicou o seu “Nunca aposte sua cabeça com o diabo”, satirizando aqueles que lhe atacavam duramente por nunca ter escrito um conto com uma moral. A crítica de Poe foi dirigida ao cânone, não aos escritores que, livremente, optavam por isso ou aquilo. No concurso supracitado, os valores morais não são um tema proposto, mas conditio sine qua non para a confecção de conteúdo e efeito. Hoje sabemos que a resistência armada de Poe rendeu dividendos incalculáveis para a história da literatura.

O mais irônico – Machado ia adorar isto – surge quando confrontamos a obra do nosso mais ilustre contista com o pré-requisito exigido aos concorrentes. Que tal apreciarmos os valores morais contidos em “Noite de Almirante”, “O segredo de Augusta” e “O enfermeiro”? Isso sem falar nos personagens dos romances, como o nosso querido Brás Cubas: um verdadeiro estroina, como ele mesmo se qualifica.

E que tal o bem-estar promovido pela leitura de “Pai contra mãe”, “A causa secreta” e “A cartomante”? O que seria destes contos brilhantes sem a inquietude calculada e pungente? Machado, caso estivesse vivo, rolaria de rir ao ler o edital; e depois, extinto o acesso, escreveria uma crônica em que defenderia a moral dos homens e seus bons costumes com a mais fina ironia, imperceptível a uma boa parte dos leitores.

Deixo claro que não tenho nada contra escritores moralistas. Acho até que a nossa sociedade necessita de gente comprometida com o bem-estar e os valores morais. No entanto, em se tratando de arte, não me alinho à imposição de filtros dessa natureza.

Moral da crônica: “Jamais utilize o Machado sem estar devidamente habilitado”.

Anúncios

3 respostas para “(A)moralidade na ficção

  • Henrique Fendrich

    hahaha, acho que o Machado faria exatamente isso que você disse mesmo. Realmente, uma curiosa contradição essa do Machado aplicado ao concurso.

  • Andrea Borges

    kkkkkkkkkkkkk… Muito boa crônica!

  • José Borges

    Lembrei-me da redação do Enem no ano que fiz. Ainda bem que naquela época o Enem era só uma provinha (bem básica perto dos vestibulares, inclusive).
    O tema exato da redação eu não lembro, mas era pra discorrer sobre penas alternativos para solucionar a superlotação dos presídios brasileiros. O enunciado, bem claro, dizia: você deve respeitar os direitos humanos. Já sabia que pena de morte seria assunto proibido e mantive ao máximo o cuidado pra “pegar leve”.
    Algumas semanas depois, recebi uma carta com o resultado. Minha redação tirou exatamente a nota da média nacional, 5 e poucos. Das observações, dizia-se: você deve respeitar mais os direitos humanos.
    Já até sei qual foi o trecho, foi quando passei das penas alternativas para oa crimes hediondos. Lembro de ter escrito a frase “para crimes como assassinato doloso e estupro” e depois ter sido meio sincero, chutei o balde pros direitos humanos, pelo menos praquele direitos humanos tradicionais (aquele dos bandidos).
    Disse meio sincero porque, como disse, não falei de pena de morte. Talvez tivesse ter falado só pra ter certeza se aquilo zeraria a redação, rs.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: