Funcionária nova

secret6

Eu devo parecer contente. Alegre. Agradável. Leve.

Mas, são 8h44 da manhã e já não dá. Acordei às 5h00 com o despertador do vizinho. Minha carona avisa às 5h29 que não vai poder me esperar. O certo é sairmos às 06h ou 05h50. Mas ela avisou naquela hora, quando ainda nem tinha saído da cama.

Às 06h15 vou caminhando até a estação de trem porque o ônibus não passa mesmo.

As calçadas esburacadas torturam os sapatos e os pés. Mas nem de longe se comparam ao sadismo de quem determinou a quantidade e o intervalo dos trens no horário de pico. Embarco no terceiro que passa e fico imprensada à porta.

Corpos suorentos que aparentam estar na lida há bem mais tempo do que o possível colam ao meu. Alguém espirra na minha mão, que mal e mal se mantém presa no suporte vertical. É isso, ou cair à menor curva do trajeto. Sinto nojo.

As portas se abrem e mais gente entra a cada estação. Luto para manter a bolsa longe dos batedores de carteira. Na estação Tamanduateí o movimento é inverso e sou expulsa com gosto pelos passageiros que descem naquela estação. Quase não consigo voltar ao vagão.

Tudo tranqüilo até a transferência para o metrô. Lá nova espera, novo massacre, novo espirro. Agora o suor escorre pelas minhas costas e me sinto suja como se já fosse o fim do dia. Estou atrasada. Há fila na padaria. Vários idosos sendo extorquidos na combinação de pão de queijo e café com leite a R$ 10. Eles conferem o troco com um misto de extremo cuidado e incredulidade, como culpá-los?

Entro no ônibus, que para metros adiante no engarrafamento. O trajeto de quinze minutos triplica. O chefe ainda não chegou quando escorrego aliviada para a minha mesa.

O dia mal começou. E eu deveria parecer contente.

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8 comentários em “Funcionária nova

  1. Menina como soube descrever o dia a dia da maioria das pessoas, incluindo a mim mesma. E temos de chegar com esse sorriso Colgate não é mesmo? Affê! Ninguém merece! Excelente texto Aline.
    Bj

  2. É desolador esse modo de vida em que nos metemos. São os “trens do subúrbio” que já há uns 80 anos chocavam o Saint-Exupery.

    1. Não sabia dessa história do Saint-Exupery – aliás, você sempre me conta novidades dele. Impressionante que tanto tempo passado dessas reflexões dele, a coisa não tenha sequer amenizado 😦

  3. Nem, fale, moço! Outro dia mesmo, acho que vi uma cena do gênero – digo “acho” pq vi a roupa da suposta vítima manchada e fiquei quase certa do que pode ter havido. Agora, falam em vagão exclusivo, como se fosse possível aboletar passageiras de seis vagões em apenas um. E como se a solução para um problema tão complexo coubesse num espaço tão pequeno 😦

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