Arquivo do mês: dezembro 2014

Crônicas da Vagina – apresentação

Grande mural da vagina

O Grande Mural da Vagina, do o artista plástico inglês Jamie McCartney. A obra apresenta 400 vaginas reais, replicadas em gesso, como forma de conscientizar as mulheres de que uma vagina não precisa ser padronizada

Em parte instigado pela polêmica entre Anitta e Pitty, em parte instigado pela excelente edição de setembro da revista Trip dedicada à vagina e em parte por já ter até mesmo escrito sobre o pênis de Mick Jagger, resolvi iniciar essa série de textos ficcionais, um namoro entre contos e crônicas, sobre a vagina. A princípio pensei nomear a série “Diálogos com a vagina”. Declinei da ideia porque nomea-la desta maneira era limitar meus objetivos. Não são apenas diálogos o objetivo desta série composta por oito textos que começam a ser publicados logo na primeira semana de 2015, mas uma investigação – sutil, persistente e curiosa – sobre o mais fascinante  e desejável mistério humano.

A vagina, palavra estatisticamente menos usada do que pênis, será abordada sob perspectivas e percepções distintas com vistas à elevação de um painel que favoreça não só debate e reflexão, como a renovação de um olhar, na esfera individual, a respeito da mais controversa, desejada, temida e injustiçada parte anatômica feminina.

Nos vemos em 2015!

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Cem noivas vietnamitas vendidas a chineses somem de cidade da China

traditional

Xeng foi um dos cem chineses que pagou, mas não recebeu a noiva. Ele esperava entrar o ano novo devidamente casado com uma boa moça, bonita e de caráter simples e modesto. Chegou até a conhecê-la durante as etapas anteriores da negociação. A festa armada, o vestido comprado, os convidados à espera e nada.

Por celular, Xeng é avisado que outro noivo, Pao-chang, cuja noiva viria na mesma remessa, também não teve a mulher entregue. Nem governo, nem agência, nem os sogros deram conta do porquê de Mai-lee e as outras não terem chegado no dia do casamento.

Desolado, nosso herói pensa em se matar. Melhor morrer que viver sem deixar descendentes e herdeiros. Trabalhar pra quê? Dois anos de salário lhe custou aquela esperança. E não precisava nem procurar pra saber que num raio de 300 km mulher solteira não tinha uma. E sequestrar mulher casada, artigo mais valioso que emprego de 40 horas semanais no país, se não desse em morte daria em prisão perpétua.

Naquela mesma noite, lendo alguns livros ocidentais  subversivos, coisa de burguesia degenerada mesmo como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie,  Xeng teve uma iluminação: ele iria investigar o desaparecimento de sua noiva, a traria de volta e consumaria o casamento. Aliás, buscaria todas as outras noivas.

E foi assim que Xeng abriu a primeira agência de detetives especializada em recuperação de noivas estrangeiras. O negócio não para de crescer. Agora, ele oferece até serviço de rastreamento via satélite desde a partida das moças do Vietnã, da Indonésia ou até do Brasil, se alguém for buscar assim tão longe.  Pao-chang, o primeiro cliente satisfeito, está bem casado e faz propaganda de Xeng a todo mundo.

Mai-lee, porém, nunca caiu no radar do nosso investigador. Conformado, Xeng compôs uma música em sua homenagem e partiu pra outra. Dessa vez, escolheu uma moça de Hong-Kong que, inclusive, saiu de graça ao noivo: Genji é um bocado liberal pro gosto dele, mas bonitona e entende tanto dos negócios que dá gosto.

*A crônica de hoje é baseada em reportagem homônima publicada pela Folha de S. Paulo.


Passagem

time-slowing

A ampulheta não dá trégua e por mais repleta, parece cada grão ser o último. E ao invés de movimentar, de dar a volta ao mundo, olho desesperada o abundante cair. Perdida em devaneios, cultivo um certo amor que não vingou, em outro vejo o reflexo de uma indecisão, o próximo me mostra a companhia que não fiz e sinto aquele que diz que talvez o amanhã seria sim. Imóvel, no canto da sala, conto e choramingo momentos. De dentro do vidro meu duplo afunda na areia, gritando com olhos mudos que a vida não é infinita, o corpo sempre jovem como o sol vai se extinguir e todos os meus “nãos” vaidosos são piada curta. Essa imagem de contrastes me leva a agir. O olhar vago desanuvia e busca enxergar além. Minhas pernas correm, para fora do tempo, a buscar paisagens que caibam na eternidade do meu momento. E assim cai levemente o último grão de ontem.


Eu e a minha… barata? (Bia Bernardi)

Linha 746P-10, saindo do Terminal Santo Amaro com final em Paraisopolis. Viagem longa, sujeita a trânsitos, businas, e muitas outras sardinhas. A previsão era de uma hora e meia de viagem, tempo suficiente para resolver muitas pendências, das quais eu poderia escolher entre dormir, estudar, comer, ver o jogo pelo celular.

Resolvi que com o ônibus lotado não tinha muita escolha que não fosse dormir mesmo. Sempre depois que passa a Marginal Pinheiros a maioria dos passageiros desce e o lugar volta a ficar habitável. Então abandonei o livro, segurei a fome e guardei o celular pra cair num sono bem balanceado no gingado das ruas de São Paulo.

Acabei acordando com uma penca de gente gritando “vai desceeeeeeer” exatamente no ponto de desova. Tentei contar quantas pessoas desceram pra saber a capacidade do coletivo, mas me perdi depois da quadragésima terceira e desisti, saquei minha mochila e já comecei a salivar pelo lanchinho que me esperava ansioso.

Desembrulhei com todo o cuidado, pra garantir que todos os gramas de atum, todas as folhinhas de alface ali permaneceriam, mantendo apenas o trajeto básico gardanapo-minha boca. Cheirinho delicioso subiu e eu quase me senti em casa, não fosse o cobrador e seu radinho infernal tocando algo que optei por não reconhecer.

A preparação psicológica da primeira mordida precisa ser bem feita pra que todo o restante seja tão bom quanto e qua a última mordida venha como ogrand finale! E se houvesse a chance de mostrar ao leitor, meu amigo, as imagens em câmera lenta, seria ideal para mostrar tamanho cuidado milimétrico para posicionar a boca na abertura correta, se aproximar do lanche, inalar o cheiro do pão fresco e…

Pára tudo.

Silêncio…

Acabo de perceber que estou sendo ameaçado, fortemente pressionado por um inimigo em potencial. Ele está me observando, parou de se mover no exato instante em que me viu. E ali declarou uma guerra, uma guerra de vida ou morte. Não havia escapatória, era eu ou ele, a minha honra, a vida dele. Não seria fácil, ainda haviam alguns civis inocentes no local e estourar a guerra não seria adequado para o momento.

Porra, uma barata!

Não é possível, eu tinha esperado tanto por aquele momento, tava com uma baita duma fome e justo na primeira mordida, a mais importante, aparece uma barata no banco da frente e fica olhando pra mim… primeiro que comer com barata por perto não é nem um pouco agradável; segundo que é péssimo comer com alguém te observando, você se sente obrigado a oferecer!

Gritar é que eu não poderia, pô, fica feio homem com medo de barata, né.

– Ou, galera! Alguém me ajuda a matar essa barata??

É, também não rola, dá quase na mesma de gritar por socorro. Não dava pra matar a bicha, o lanche estava encaixadinho na minha mão, não tinha posição melhor e se eu me mexesse pra tirar o sapato, desviar e sapatar-lhe as tabelas, meu lanche provavelmente iria juntinho dela.

Ninguém notou. Foi minha sorte e meu azar. Sorte porque fiquei catatônico perante a danada, eu olhava pra ela, ela pra mim, parecia cena de filme debang-bang. E azar porque não teria a ajuda de ninguém sem ter que pedir. Dilema: pedir ajuda ou comer o lanche?

Eu deveria descer no ponto final para ainda andar mais três quadras e chegar no curso. Mas não tive dúvida: o ônibus parou na Cerqueira César para os últimos passageiros desembarcarem, aproveitei o momento e sorrateiramente passei pro banco do lado, esperei a última pessoa passar pelo meu banco, levantei às pressas e desci, com a maior naturalidade do mundo, todo desajeitado com mochila debaixo do braço, lanche numa mão e refrigerante na outra.

Desgraçada… Ela me fez comer o lanche andando e ainda ter que dar o último pedaço pro Zé Pedro, que encontrei no caminho pra facul.

Bia Bernardi


Dois jeitos de viver

E como poderia ser diferente? Ela vinha de uma família numerosa, cheia de irmãos, e ainda moravam com ela dois tios e a avó materna. Isso sem falar nos primos, que volta e meia passavam uns dias na casa dela. À exceção do banheiro, era absolutamente impossível um momento de solidão naquela casa. No geral, ela não via problema nisso, apenas quando se fechava no quarto para fazer as suas orações e logo vinha alguém atrás dela. E tudo gente despachada, que fala alto e bastante. Assim foi criada, assim se acostumou a viver.

Não era nada parecido com o ambiente que ele tinha em casa. Filho único, morava apenas com a mãe, pois o pai havia morrido quando ainda era criança. De parentes próximos, tinha apenas a família de uma tia, que costumava visitar no fim de ano, mas ultimamente nem isso. Sem grandes amigos, acostumou-se a uma vida reservada, passando a maior parte do tempo sozinho em seu quarto. Absolutamente lhe desagradavam a agitação, o barulho, a multidão – tudo aquilo que, enfim, encontrava na casa dela.

Nada mais natural, portanto, que existissem conflitos. Porque ele queria ficar a sós com ela muito mais tempo do que eles conseguiam ficar. E inclusive muito mais tempo do que ela achava necessário que ficassem. Por isso ele estava sempre pedindo que saíssem de casa, que pelo menos fossem dar uma volta, mas nem sempre ela podia ou queria. Para ela era bastante agradável passar uma tarde com a família em casa, ao lado do namorado. Para ele era indispensável ter pouco de solidão para que pudesse agir naturalmente.

E o pior é que às vezes sair de casa também não resolvia. Porque ela tinha muitos amigos e era desse convívio que tirava a sua energia. Ele, introspectivo, fazia a sua própria energia e não estava disposto a cedê-la a qualquer um. No fundo, ela achava que ele era bicho do mato. No fundo, ele achava que não era prioridade para ela. Eram dois temperamentos, dois jeitos de viver. E a única certeza de que não valia a pena insistir.


Acredito, sim

aviao

– Acredito, sim.
– Então peça o que quiser.
– Qualquer coisa?
– Qualquer coisa.
Talvez mais por desconfiança e menos por megalomania infantil, pedi um avião. Um avião! E prontamente fui tranquilizado: a aeronave chegaria sem falta, no dia certo. Eu estava convencido.

– Posso vê-lo?
– Não. Ele só aparece quando a criança dorme.
– Queria ficar acordado.
– Se não for dormir, ele não vem.
Botei o pijama e me deitei na cama. Demorei algum tempo para conciliar o sono. De vez em quando abria os olhos, na tentativa de flagrá-lo. Nada acontecia. Nenhum ruído estranho, apenas a habitual movimentação da casa. Adormeci.

– O que foi?
– Acorda, filho! Ele acabou de sair!
– Onde? Onde?
– Pela janela! Veja: um pedaço da barba ficou preso no trinco.
Segurei o chumaço branco na mão. Um outro pendia no trinco. Corri à janela. Talvez o visse, ao menos, pelas costas. A rua estava deserta, silenciosa, e batia uma brisa suave. Olhei para os vestígios que ele deixara e admiti: foi por pouco!

– Ele deixou ao pé da cama.
– O meu avião?
– Sim, abra.
– O meu avião?
O pacote era grande, maior que a média, mas não o suficiente para conter um avião. Desconfiado, desembrulhei o presente. Retirei, cuidadosamente, um caça F-14 de dentro da caixa. Não havia o que negar. De fato, um avião. E era lindo o meu avião!

Natal de 1981, época em que eu ainda acreditava em muita coisa.


Observações de fim de noite

 

É noite de segunda-feira e não há despedidas. Todos já se foram. Nenhum pai vem buscar a filha na estação.  Casais de namorados já disseram tudo no domingo, fossem coisas de mágoas ou de risos. Ainda não é hora pra reconciliações, terça quem sabe?

Nem os mendigos fazem companhia aos funcionários do Metrô nas noites mortas após os dias santos. Até as lixeiras estão vazias.

Os bares estão fechados. Os poucos passantes apertam o passo. No elevado Costa e Silva, os atletas notívagos estão em recesso. Nem a chuva se anima a vir numa hora dessas.

É noite de segunda. E a cidade já parece cansada.