Em tempos de ciclovias

A prefeitura de Santos está investindo em ciclovias. Uma parte das principais avenidas da cidade já conta com faixas dedicadas exclusivamente às magrelas. Houve até campanha e publicidade. Slogan: “Santos – a cidade amiga das bicicletas”, e os piadistas complementam: “e inimiga dos pedestres”. Curiosa essa relação de amor e ódio que nasce no trânsito. Amigo dos carros, inimigo das motos. Amigo das bicicletas, inimigo dos pedestres. Se minha bicicleta está quebrada, e me torno amigo dos pedestres, as bicicletas dos outros – não a minha – serão minhas inimigas. E por aí vai, na mais pura realidade.

Um dos objetivos da ciclovia é estimular as pessoas a trocarem, em determinadas situações, seus automóveis pelas bicicletas – fenômeno que ainda não testemunhei em Santos, nem mesmo no Dia Mundial Sem Carro, idealizado na França. Se esperarmos o exemplo dos políticos, que criam as ciclovias e incentivam a população a utilizá-las, não largaremos os carros jamais. Eu, particularmente, só encontrei quem abraçasse a ideia em matéria de telejornal.

É verdade que nas avenidas onde há ciclovia, as bicicletas aliviam sobremaneira as faixas de rolamento. No entanto, como tenho o hábito de caminhar a pé, constatei que na prática houve apenas um deslocamento dos ciclistas, posto que o comportamento quase não se alterou. Embora haja semáforos nas ciclovias, para que os pedestres atravessem a rua, a sinalização é sumariamente ignorada pela maioria dos ciclistas. Já presenciei muitos sinistros nas ciclovias, como choques frontais, traseiros e laterais entre bicicletas, além de atropelamentos de pedestres. Se você caminha na orla, de quando em quando escutará da boca dos ciclistas os mesmos xingamentos dos motoristas. O estresse está no veículo ou no espírito da coisa?

Tive a oportunidade de caminhar alguns dias em Viena, a cidade mais “ciclilizada” que conheci. Sofri um choque tremendo. No último dia ainda não havia me acostumado, reclamando constantemente das regalias conferidas aos ciclistas. Se um pedestre é atropelado na ciclovia, ele sentirá no corpo e no bolso as dores da imprudência – a multa é impiedosa. Sempre alerta, fui um verdadeiro escoteiro em Viena, livrando inúmeros turistas do infortúnio. Impossível não lembrar a figura cômica do velhinho japonês: estático no meio da ciclovia e erguendo um mapa que lhe tapava a visão. Sem a mínima delicadeza, arranquei-o do perigo. Foi por um tris. Os ciclistas buzinam, jogam luzes e desaceleram, mas não param. Quando julguei que deixaria Viena com uma sensação inédita de revolta contra as bicicletas, a Áustria me provou que é um país justo. Estava eu flanando num boulevard quando uma bicicleta assoma abruptamente de uma esquina e vem na minha direção. Como num filme, um guarda, com um ar de serena autoridade, estica o braço e breca o ciclista com a mão espalmada no seu peito. Aplicou-se a multa e fui embora de Viena curtindo uma estranha vingança.

Da minha parte, desloco-me bastante a pé. Mas quando a distância é grande, nada posso fazer em relação à campanha em prol das ciclovias. Por problemas de coluna, tenho contraindicação médica para bicicletas. E quando meu carro está na oficina, vou de táxi.

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2 respostas para “Em tempos de ciclovias

  • Andrea Borges

    O que falta mesmo para os ciclistas é respeito às leis de trânsito! Aliás…. para motociclistas e motoristas em geral. Mas aqui em Santos os ciclistas se acham no direito de passar no semáforo vermelho, por cima de quem estiver na faixa de pedestres. E o que é pior: andar livremente (e muitas vezes velozmente) pelas calçadas.

    Um absurdo!
    Quer fazer mais ciclovias prefeito? Invista também em educação! 😉

  • Henrique Fendrich

    Gente, eu não sabia que era assim em Viena! A minha Viena, Viena da família Fendrich. Preciso ir conferir isso de perto.

    Eu tenho grande simpatia pelas bicicletas e pelas caminhadas a pé. Aqui em Brasília não tenho bicicleta, mas em Curitiba só ando nela. Considero-me um bom ciclista. Ainda não perdi nenhum ponto na carteira. Já fui atropelado de bicicleta por um carro.

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