Burocratas sem lei

Imagem:  Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)

Imagem: Riccardo Romano (https://www.flickr.com/photos/pixx0ne/)

Está escrito, moça! É meu direito. É lei.

Mas aqui é outra lei. Quem rege a gente é outra agência: a Artesp.

Mas está no Código do Consumidor!

Só que a compra foi feita pela internet, então, não podemos trocar sua passagem, não senhora.

É nessa hora que lembro que a carteira de identidade ficou em casa. Guardada num envelope numa gaveta de acessórios eletrônicos que não têm mais serventia.

A razão, que era minha, estava refém. Ganhasse eu a batalha, viria outra: como viajar sem apresentar o documento. Quem garantiria que aquela brigona com o voucher na mão era a mesma cidadã que comprou a passagem? Mea culpa. Ou não.

In dubio pro reu, certo? Não nessa estória. A verdade é que os burocratas todos são inimputáveis. Pense que na véspera do ocorrido, outra pessoa, um servidor público, colocou todos os documentos a minha revelia em um envelope pardo. Pessoa esta que exigiu a apresentação dos originais da certidão de nascimento a de óbito , apenas para que ela mesma tirasse cópias – numa amostra perfeita do rigor insondável dos processos à brasileira. Disso, o caos se produziu até chocar-se com o pé de boi seguinte.

Pessoas como eu não têm toque. Têm é a cabeça cheia de coisas outras. Mais ou menos importantes, não importa, apenas conste que são outras. Estratégia, strateegia, strategi, stratégie, senhores; estão anotando? Tudo deve ser reposto no seu lugar. Sempre. Identidade na carteira. CPF e título de eleitor na mesma capinha plástica. Diploma original mantido em segurança em lugar confidencial – em trânsito apenas cópias. Bilhete único no bolso direito da mochila. Note o equilíbrio sutil.

Na mochila, nem um documento com foto.  E os burocratas do outro lado do balcão confundindo internet com Velho Oeste. Comprou na internet, não pode trocar a passagem alegavam.  Respirei fundo. Vou procurar o Procon, prometi.  Respiraram eles também: aquela não embarcava sem pagar. E iria incomodar em outros níveis, se é que iria.

De um burocrata ao outro. O fundo do poço.

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

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