Quem vai pra panela? (Bia Bernardi)

Escolher feijão é uma das atitudes mais preconceituosas que eu já pude presenciar.

Quem já o fez sabe do que estou falando e entenderá meu levante. Donas de casa, manifestem-se!, e todos saberão que o que digo é a mais pura demonstração de ataque ao bem estar social de um dos grandes protagonistas da cozinha.

Quando o saco de feijão é aberto e os grãos espalhados pela mesa, entramos numa espécie de túnel do tempo, passando por praticamente todos os momentos históricos de discriminação, sejam eles declarados ou não, tanto do Brasil como do mundo.

A primeira coisa que se vê é o reich alemão na ativa, dividindo a população dicotiledônica em dois tipos: aqueles que são considerados, por uma instância superior, como bons ou ruins. Os que são julgados como bons são levados à panela, local honroso, de elite, de merecido respeito; já os que são considerados ruins, vão para os campos de concentração, isto é, para o lixo mesmo, sem dó nem piedade, como quando levavam os judeus para a camara de gás.

Depois vemos claramente a ação de apartheid: só fica quem é carioquinha. Se for fradinho, de corda, preto, bolinha, branco, jalo, tá fora! E tem quem justifique o separatismo dizendo que altera o sabor. Já vi até quem usasse a desculpa de que dá azar, que estraga rápido, que não cozinha, que engasga… Um blablablá atrás do outro.

E a coisa vai tão longe, que mesmo com aqueles que poderiam bem “dar um caldo”, com o perdão do trocadilho, são excluídos, rechaçados, estigmatizados pelo pré-conceito de invalidez: os quebrados, os tortinhos, amassados, os pequenos demais, os grandes demais, os finos, os furados… Isso sem falar nos estragadinhos, esses é que não tem vez mesmo!

Claro que, se voltarmos a pensar que são apenas feijões e que a nossa saúde depende da qualidade deles, os estragados são os únicos que realmente deveriam ficar de fora, mas apenas por uma questão sanitária. Os demais, não. Jogar fora alimento que está em condições de ser ingerido não é a melhor política. Nem dentro nem fora da cozinha.

Metáforas à parte, ao menos uma vantagem e uma reflexão importante nós podemos tirar dessa pequena crônica sócio-gastronômica: é nas pequenas atitudes do dia-a-dia, muitas vezes despercebidas por nós, que se escondem ações de grandes impacto. Às vezes positivo, às vezes negativo. Mas aí já é um outro assunto.

Bia Bernardi

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