Reforma no calendário dos feriados

Hoje é feriado oficial na cidade de Santos e em aproximadamente um sexto dos municípios brasileiros. E como em todo feriado o povo dedica o tempo livre que lhe é imposto para refletir e debater sobre determinada causa, hoje é o dia em que os santistas irão se voltar – ainda que abra sol e dê praia -, à importante questão da raça negra em nosso país.

O “Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra” não consta nem como ponto facultativo no calendário oficial da União. No entanto, a partir de 2015, fatalmente teremos uma novidade. O projeto de lei que transforma o dia 20 de novembro em feriado nacional foi aprovado semana passada pela Comissão de Cultura da Câmara, e, como tramita em caráter conclusivo, não há obrigatoriedade de aprovação em plenário.

O cronista que vos escreve é a favor deste projeto de lei, o que certamente desencadeará críticas mordazes daqueles que não suportam mais a grande quantidade de feriados – nacionais, estaduais e municipais – que brecam a nação e contribuem para diminuir o PIB e o superávit primário.

E mais, dependesse de mim, o “Dia do Índio” também seria feriado nacional. O índio, juntamente com o negro, detém crucial importância na formação da cultura e da identidade do Brasil – assim como todos os povos que emigraram voluntariamente. Sabemos que seria inviável o “Dia do Alemão”, “Dia do Japonês”, “Dia do Armênio”, “Dia do Lituano”, “Dia do Árabe”, etc., por isso sou favorável ao “Dia do Imigrante”, o que nos concederia o tempo de mais um dia para nos dedicarmos ao entendimento das complexas raízes de uma pátria tão heterogênea.

Em contrapartida – ainda que numa linha de raciocínio polêmica, mas lógica -, sou a favor da extinção de todos os feriados cristãos e dos santos padroeiros. Não sou suspeito porque sou um cristão praticante. Mas o Estado é laico, e, vale saber, por mais incrível que pareça nem todas as doutrinas cristãs partilham, por exemplo, da comemoração do Natal. No meu projeto, todos esses feriados seriam concentrados no “Dia Nacional da Religiosidade”, tempo dedicado não ao consumismo, mas ao mergulho nos conceitos de fé, espiritualidade e tolerância. O objetivo da ousada ideia é não segregar, mas agregar todas as crenças – inclusive os descrentes, que, segundo alguns estudiosos, têm o seu modo particular de religião.

Quanto ao destino que eu daria aos demais feriados, nenhuma importância há para esta crônica. De nada valeria comentar a abolição do “7 de setembro” e do “Dia de Finados”, a manutenção do “Dia da Proclamação da República” e “Tiradentes”, e muito menos o deslocamento do “Carnaval” para a primeira terça-feira do ano. O essencial já foi dito e engana-se quem pensa que o desejo do cronista é polemizar. O leitor arguto já deve ter percebido que, no fundo, a reforma dos feriados é algo meramente secundário.

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7 respostas para “Reforma no calendário dos feriados

  • Henrique Fendrich

    Como cristão que se julga praticante, eu também defendo que os feriados cristãos não sejam feriados nacionais. E não sou um grande revolucionário por pensar assim, já que o estado laico é um princípio de muitas igrejas cristãs. Aqui em Brasília acontece no dia 30 (um domingo este ano) o “Dia do Evangélico”, também feriado. Por mim todas essas datas religiosas poderiam se concentrar no 12 de outubro.

  • Henrique Fendrich

    Ah, e aqui não é feriado hoje. Por enquanto.

    Quanto ao Dia do Índio, realmente é uma proposta bem interessante. Na visão média da sociedade o índio ainda permanece como um selvagem que nada tem a nos acrescentar.

  • Carlos Eugenio

    Neto Oliveira, desculpe minha ignorância, mais não entendo porque se criar mais feriados para homenagear Pessoas e Acontecimentos, acredito que mais de 99% da população das Cidades e do País, não participam, e as pessoas não tem o devido respeito ao “homenageado” , veja o exemplo do feriado do Natal, geralmente esse homenageado fica sempre em segundo plano, imagine os outros feriados onde a maioria das pessoas não sabe quem foi e o que fizeram, deveriam encaixar esse “novos feriados” nos já existentes, o nosso Pais precisa de mais Trabalho e Mais Empregos, creio que “Feriados” não contribuam para o desenvolvimento do Pais

    • Oliveira Neto

      Eugênio, no final das contas, após adições e subtrações, minha proposta de reforma no calendário resultaria numa quantidade menor de feriados do que temos atualmente. E tal proposta de reforma, em verdade, foi mais um pretexto para levantar a problemática da tolerância étnica e religiosa.

  • Andrea Borges

    Muitos trabalhadores, principalmente os de carteira assinada, vêm os feriados como um dia de descanso, apenas. E os que dependem de sua própria produção para conseguir o pão de cada dia preferem que eles não existam.
    Falo em linhas bem gerais, claro.

    O fato é que se os feriados realmente servissem para uma reflexão sobre a razão pelo qual eles existem, até valeria a pena uma reformulação no calendário.

    Concordo com você, Oliveira Borges, que deveriam ser instituídos alguns feriados e em compensação exterminar vários outros.

    Dessa maneira, existiriam menos feriados e melhor razão deles existirem.

  • Bernadete Vieira Maciel Borges

    Interessante a proposta de reforma do calendário, principalmente pela “atualização”, digamos assim, dos motivos pelos quais estamos “de folga”.
    Pode tirar o feriado, mas não a magia do Natal, que tanto une as famílias. Um pouquinho de ilusão faz bem, mesmo com consumismo e feriados sem nexo!

    Parabéns Oliveira Neto. Belo trabalho, teu e dos outros cronistas.
    Estas crônicas trouxeram pensamentos que já haviam passado pela minha mente, principalmente o teu texto “Reforma no calendário dos feriados” e o texto “Quem vai pra panela?” de Bia Bernardi. Vi-os, agora, transcritos brilhantemente nestes textos maravilhosos!
    Nada de muros! Cada vez tenho mais esperança na juventude que vocês representam.

    • Oliveira Neto

      Concordo. Eliminando os feriados, os fiéis – seja de qual for a crença – não deixariam de celebrar as datas principais do seu calendário religioso. Se deixassem, é sinal que alguma coisa estava errada.

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