O último paradoxo de “Two and a half men”

Two and a half

Confesso que já não assisto “Two and a half men” há um bom tempo. Mesmo antes da litigiosa e barulhenta saída de Charlie Sheen do show eu já o havia abandonado. Mas confesso, também, que como órfão de “Friends” assisti frenética e copiosamente o programa em seus primeiros anos. Surgia uma sitcom, essa espécie em franca extinção, radicalmente distinta de “Friends”, mas com o mesmo frescor e vocação para o riso bem provocado. Não era essa a série que Sheen deixou para Ashton Kutcher em meio a todo àquele imbróglio que dispensa (re) apresentações.

Flagro-me aqui considerando assistir, ainda que ocasionalmente, essa 12ª e última temporada do programa. Não por um acesso de nostalgia, mas instigado por uma reviravolta improvável para um programa que já protagonizou considerável cota de reviravoltas improváveis (como trocar o protagonista e manter-se no ar por mais quatro temporadas).

“Two and a half men”, para quem não sabe, viu crescer ano após ano a escalada de piadas sujas, preconceituosas, misóginas e de toda a sorte de conotação sexual. Uma das marcas do programa, que persistiu mesmo após a saída de Sheen, é seu machismo convicto. É um programa, afinal, para heterossexuais bem resolvidos. Ou mal resolvidos, dependendo do lado da semântica e da correção política que se pretende ficar.

Acontece que depois de inserir uma personagem “extremamente lésbica”, nas palavras do produtor Chuck Lorre, para substituir Jake (Angus T. Jones) – outro dos protagonistas a deixar a série, “Two and a half men” tem como mote neste seu ano final a união entre Walden (Kutcher) e Alan (Jon Cryer). Explica-se. Eles que já moram juntos e são relativamente fracassados no que tange à conquista de mulheres, resolvem se casar para que Walden possa realizar o sonho de ter um filho. É que casado, ainda que com uma pessoa do mesmo sexo, a adoção torna-se mais palpável do que para um homem solteiro.

Fãs têm se mostrado desapontados com essa nova e inesperada guinada da série. O último ano se focará justamente sobre essa plataforma LGBT, o que para uma série que se consolidou com piadas machistas, misóginas e de todo tipo de preconceito é algo realmente notável. Mas não é uma reinvenção inédita. Lorre foi esperto ao promover um interesse, por meio desse choque de conceitos, no último ano da série. Não deixa de ser uma despedida significativa para um show com reputação tão contestável a incumbência assumida de pregar a tolerância. Além do mais, colocar dois heterossexuais para fingirem ser um casal gay em busca de adoção é um aceno a um cenário pós-gay, já que no mundo de hoje, por mais socialmente avançado que esteja, isso ainda é algo difícil de acontecer.

Além do mais, há o fator do mea-culpa. É como se “Two and a half men” abraçasse o paradoxo como se dele precisasse para transcender em significado. Há de se respeitar uma série que nem sempre foi boa, mas soube se colocar como pauta. No concorrido mundo do show business, muitas vezes isso é tudo o que importa.

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