Dias difíceis

Quase sempre me pergunto: quando é mais fácil escreve, nos momentos ruins ou nos bons momentos? Já fizeram essa pergunta algumas vezes. Por vezes respondi as mesmas coisas, algo tão vago quanto a pergunta. “Olhas às vezes é mais fácil escrever quando as coisas estão complicadas, mas quando estão fáceis também é bom”. Nunca me preocupei em saber do meu interlocutor se aquilo o convencia ou não. De nada valeria sua resposta, pois eu jamais acreditaria numa afirmação da qual provinha de uma tese confusa.

Pois bem. Paro defronte essa máquina e me faço essa pergunta. Oras, hoje está um dia difícil, dentro de um mês difícil, que é agraciado com horas difíceis e não está fácil para discorrer sobre um tema, por quê? Esse pergunta me induz ao veredito de que os dias difíceis são mais complicados para se escrever.

Não deveria ser. Pois tudo o que nos angustia também nos faz refletir sobre os caminhos que devemos tomar. Essa afirmação parte de alguém que tenta ser otimista por mais que a situação indique ao pessimismo completo. Tudo pode parecer um auto-ajuda de feira religiosa em rodoviária, mas se olharmos par ao mundo não será difícil buscar esse tipo de auto-pé-na-bunda para dar um passo à frente.

Hoje, logo pela manhã, visito os sites de notícias e vejo novas manifestações pedindo a anulação das eleições. Essas teorias golpistas tendem a ganhar força ao término dos processos eleitorais, sempre alimentadas pelos derrotados. Já ofereci banquetes em outros tempos. E, me parece, que quanto mais tempo e maior o número de derrotas de um grupo político, mais a sua incapacidade de admitir a derrota. Porém, além “chororo derrotista”, vemos nas ruas pessoas levantando faixas pedindo uma nova intervenção militar no Brasil para que ocorra a derrubada do Governo democrático. Pior que as faixas, são os discursos e as declarações em redes sociais das pessoas que fazem a defesa dessas medidas.

São tempos difíceis. Eu que achava que a geração que está no meio da formação do ensino médio, ou aqueles que somam a massa do ensino fundamental, seriam os integrantes do que chamo de “geração perdido” do ensino escolar, vejo nos defensores do regime militar pessoas das gerações anteriores. Como pode? Quem são esses professores que deixaram de falar das barbáries ocorridas no período militar? Ou será que as essas pessoas, ensandecidas pelo ódio da derrota, buscam uma virada de mesa a dar inveja à CBF?

Não queria enveredar por essa possibilidade da crônica. Meu senso de humor deve estar de folga. Também não pretendo estender sobre esse assunto, pois quanto mais se falar dele, mas os “i-responsáveis” que organizam vão contar vitória da mobilização que ganha corpo, e forma, e conteúdo, e espaço nas ruas como proposta de mudança e conscientização. Não, não quero isso! Pois não estamos enfrentando o debate, estamos enfrentando a cegueira. No pior estilo da Revolução dos Bichos, de George Orwell.

Dias ruins não são bons para crônicas. Nosso fígado falar mais alto e perturba a organização do conteúdo. Pelo menos para mim. Pretendo retornar ao bom da vida nas próximas semanas. Sei que há coisas para compartilhar que nos remete a reflexão e que serve de combustível. É por isso que vou atrás dessa fórmula. No melhor estilo me auto-ajudo. É isso!

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Sobre Celso Oliveira

Jornalista e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/ USP. Ver todos os artigos de Celso Oliveira

2 respostas para “Dias difíceis

  • Sandra Bulhões

    Ótimo texto! Difícil de escrever, mas fácil de entender. Que venham mais dias fáceis para todos!

    • Celso Oliveira

      Obrigado pelo comentário e que bom que tenha sido fácil entender. Se tiver tempo, por favor, leia o texto anterior a esse. Geralmente, quando consigo, publico um texto por semana. Se puder, basta clicar no meu nome e terá acesso a todos os textos. Mais uma vez, obrigado pela leitura e comentário. Abs!

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